VM – Capítulo 109 – Dalin.



“Isso é realmente necessário?” Thoran perguntou depois de um tempo.

“Isso é um símbolo, um símbolo vai além do que ele realmente é.” Tyler respondeu.

O motivo dessa discussão era um enorme mastro que Tyler estava erguendo na entrada da cidade. Era uma estrutura metálica pré-fabricada que serviria como mastro de uma enorme bandeira.

“Desculpe, mas eu ainda não consegui entender.” Thoran ainda estava confuso, para ele a ação de Tyler era um tanto estranha, Tyler finalmente estava fazendo a sua primeira obra na cidade, mas em vez de ser algo útil, era apenas um mastro para uma bandeira!

“O que você é?” Tyler perguntou.

“Hã?” Agora é que Thoran ficou mais perdido ainda, o que isso queria dizer?

“As guerras são ganhas por quem acredita com mais força, por quem resiste por mais tempo! As guerras são lutadas primeiro no nosso coração! Essa simples bandeira é um símbolo de algo bem maior, eu quero na verdade é evocar um sentimento nessas pessoas, eu quero que cada um que olhe para ela, sinta o peito arder de orgulho, sinta vontade de lutar pelo que é nosso.” Ele explicou.

“Acho que posso entender um pouco.” Thoran ainda estava meio incerto.

“O que você é? Eu sou o imperador de Atlantis, qual a sua identidade?”

“Eu…” O homem ficou sem ter o que falar.

“É uma questão de identidade, eu já te falei que eu servi ao meu país lutando no exército?” Tyler perguntou enquanto terminava de aparafusar a estrutura.

“Perdão mestre, mas muitas pessoas servem aos seus reis.” Ele contrapôs.

“Aí está a diferença, olhe bem. Quando eu era jovem, eu tinha me formado em um dos melhores cursos do mundo, eu definitivamente não era obrigado a ir lutar, e, com certeza, não fui pelo dinheiro. Eu acreditava que estava servindo não a um babaca sentado em uma cadeira, eu fui por uma bandeira, pelo que ela simbolizava! Eu cruzei um oceano inteiro e me enfurnei em uma selva úmida e fechada, porque eu acreditava que estava protegendo minha nação.”

“E só uma bandeira vai resolver?”

“A bandeira é o que menos importa.” Tyler estava perdendo a paciência. “Espere mais um tempo e você verá o que eu quero dizer.”

Enquanto Tyler falava com Thoran, ele percebeu que o sentimento de patriotismo não seria tão fácil de ser trazido à tona, ou melhor, poderia até ser trazido, contudo seria difícil de ser explicado.

Como ele explicaria a uma pessoa o sentimento que tinha quando via a imagem dos fuzileiros erguendo a bandeira americana em Iwo Jima? (Foto.)

Tyler terminou de montar a estrutura e chamou alguns homens para erguer o mastro até o ponto de fixação que tinha feito no chão.

Ele inclusive tirou várias fotos do momento, afinal se tudo desse certo isso um dia estaria em livros de história!

Quando o vento começou a tremular a flâmula azul, muitas pessoas ficaram com os olhos cheios d’água. Foi nesse momento que a ficha de Thoran caiu, ele percebeu que não estava trabalhando para Tyler, ele estava trabalhando para Atlantis, ele estava trabalhando para ele e sua família.

***

Depois de alguns dias parte da comitiva vindo da casa dos sábios chegou em Atlantis D.C.

Tyler não os recebeu pessoalmente, pois estava com vários aventureiros na pedreira. Fora os guardas que acompanhavam ele desde que tinha ido para Mil, quase ninguém tinha visto os equipamentos que ele tinha trazido do outro mundo.

Então quando ele cortou a primeira árvore com a motosserra, foi um espetáculo à parte.

Com ajuda dos outros trabalhadores, ele fez quatro grandes balsas de carga. Ele achava que com elas, ele poderia conseguir suprir o ritmo de viagens necessárias, contudo antes de preparar o porto da cidade, era preciso construir um na pedreira.

Tudo começou com quase uma centena de homens martelando as rochas próximas e os demais carregando como formigas até a beira do rio.

Se isso fosse na Terra, Tyler teria dinamitado tudo e carregado as sobras com uma escavadeira, todavia as circunstâncias eram bem diferentes, ele tinha muita mão de obra e poucos recursos. Sendo assim ele achou mais produtivo usar o trabalho manual e se concentrar nos verdadeiros projetos que precisavam de ajuda extra.

Uma a uma as pedras passavam por uma fila de homens até se afundar nas águas calmas do rio.

No começo ele não viu muito progresso, mas em pouco tempo as coisas foram surgindo. Em um dia de trabalho eles conseguiram aterrar dois metros.

No final da tarde ele caçou uma besta chamado veado casco de aço. Era quase igual a um veado comum, só que maior e bastante bravo…

Depois de abatê-lo ele o levou até onde os homens estavam acampados e o assou na brasa. Pelo visto, um churrasco sempre é útil para elevar a moral.

“Então você é Dalin?” Tyler perguntou ao líder do grupo que havia chegado no acampamento.

“Sim, vossa majestade.” O homem respondeu.

Macal e Otaviano havia indicado esse homem para ser o responsável pelas obras enquanto Tyler não estivesse. Dalin era um senhor de meia-idade, baixo e atarracado, ele era completamente calvo no topo da cabeça, porém fazia questão de deixar os cabelos dos lados crescerem ao ponto de fazer tranças.

Isso dava um ar um tanto quanto… exótico. (Delongas: será um Viking)

Sim, exótico seria a palavra mais segura para descrever esse homem.

“Você foi bem recomendado, por onde esteve?” Tyler quis saber.

Dalin não era um lorde, e mesmo que ele tivesse alguma influência no reino, Tyler nunca o tinha visto antes.

“Eu sou o construtor chefe do reino, meu trabalho é fazer pontes e fortalezas. Recentemente eu estava no Reino Oeste, vim de lá apenas para servir o mestre aqui.” O homem respondeu.

“Eu fico muito grato pela sua consideração, vamos até a minha barraca, assim podemos falar mais calmamente.” Tyler saiu de perto da fogueira onde estava comendo com o resto dos trabalhadores e entrou numa barraca militar de campanha.

“É como os rumores dizem!” Dalin exclamou quando entrou na barraca.

“Que rumores?” Tyler perguntou tirando o homem do transe.

“Perdão, é que por onde eu passava, as pessoas comentavam do senhor. Elas diziam que o mestre possuía coisas tão misteriosas que mais pareciam artefatos mágicos, grande parte de eu ter aceitado trabalhar com o senhor é para ver por mim mesmo esses artefatos.”

“Bom, espero não ter decepcionado.” Tyler deu de ombros. Nessa barraca havia apenas um lampião, a bateria, uma mesa e um computador.

“Nunca!”

“E você, me conte um pouco sobre você. Como se tornou tão respeitado assim?”

“Eu apenas gosto de trabalhar em construções e coisas do tipo. Embora minha mãe seja humana, eu sou meio-anão, nasci nas montanhas do norte, contudo não me encontrei por lá, quando tinha 20 anos eu parti. Desde então venho trabalhando onde precisam de mim, acho que depois de 50 anos construindo pontes, castelos e fortalezas. Criamos uma certa reputação.”

“Você é meio-anão? Espere, você tem 70 anos?” Tyler ficou surpreso.

Embora esse cara parecesse ter mais de 50 anos, ele estava muito bem para quem tem 70 anos e agora que ele comentou sobre ser metade homem e metade anão, Tyler conseguiu enxergar algumas características únicas dele.

Seus braços eram mais compridos que o de um ser humano comum, eles chegavam até os joelhos. E sem falar na espessura deles, eram tão grossos quanto uma perna!

Ele não era baixo e tinha por volta de 1.70 m, não era um homem que se possa considerar alto na maioria dos locais, mas nunca seria um anão!

“Sim, eu sou meio-anão, algum problema?” Dalin de repente fez uma cara feia.

“Nem se você fosse meio-cavalo, não ligo para sua raça. Eu quero que você faça o que tem que ser feito.” Tyler cortou as asas dele, parecia que sua raça era uma questão delicada, então Tyler tratou de dizer que não ligava em nada para a raça dele.

“Não se preocupe, vou fazer.” Ele respondeu.

“Ótimo, eu vou te explicar o que eu quero que seja feito até que eu retorne.”

Tyler passou as próximas 5 horas seguidas instruindo Dalin nas tarefas que precisavam ser feitas. Ele suspirou tranquilo quando percebeu que apesar de Dalin ser desse mundo atrasado, ele tinha um conhecimento empírico muito bom e aprendeu rápido sobre os conceitos que Tyler dava.

Inusitadamente, uma grande parte do tempo foi gasta em medidas de comprimento. Sim, isso é um problema no mundo antigo, medidas!

Tyler era americano, mas ele também era um acadêmico e depois de um tempo não aguentava mais usar jardas, polegadas, milhas, libras e galões. Depois de um tempo estudando, Tyler estava mais que convencido que os países que usavam o Sistema Internacional de Medidas estavam corretos.

Medidas baseadas em múltiplos de 10 eram o meio mais fácil e inteligente de contar, ele sabia que os EUA só não mudavam para os SI, pois era admitir para o mundo que estavam errados.

Os EUA admitiria que estava errado? Nunca!

Depois de dar uma trena e uma fita métrica para Dalin, ele ficou super empolgado e pediu as medidas de todos os projetos.

Tyler deu uma cópia de todas as plantas das construções programadas para Dalin supervisionar enquanto ele estiver fora. Depois de deixar tudo pronto, Tyler partiu de volta na mesma madrugada para Mil.

Assim que ele retornasse dessa viagem. Seria a hora de treinar o seu novo exército!

 


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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