VM – Capítulo 1 – O inútil.



Do alto de uma nuvem, uma bela mulher observa cheia de excitação a figura distante de um homem caminhar por uma trilha árida no deserto do Texas.

“Isso meu campeão, só mais um pouco e nosso jogo já vai começar, nosso grande jogo!!!” A mulher sorria com uma expressão de deleite em seu rosto.

Sem ter a menor ideia de que estava sendo observado, Tyler Newman caminhava tranquilamente pela trilha apenas querendo chegar à montanha em sua frente antes do entardecer, o terreno no qual se encontrava era uma herança de sua família a gerações, agora com 70 anos ele precisava se desfazer dele, e o motivo por incrível que pareça, era para começar uma faculdade!

A história de Tyler era realmente impressionante ou decepcionante dependendo do ponto de vista na qual você encarava a situação, por toda a sua vida ele não fez nada além de estudar, literalmente… Ele tinha incríveis 11 formaturas, porém incrivelmente nunca trabalhou seriamente em nenhuma área específica.

Explicando melhor sua vida, ele nasceu em um lar bem estável, seu pai era dono de uma pequena metalúrgica e sua mãe cuidava do lar. Desde jovem ele sempre foi muito dedicado aos estudos, na verdade tinha um grande prazer em estudar, assim que completou o ensino médio com louvor e ganhou uma bolsa para cursar medicina em uma das mais renomadas universidades americanas.

Logo quando terminou sua residência como clínico geral a guerra do Vietnã chegou ao seu auge, ele não sabe se foi o calor do momento ou um senso de dever patriótico e alistou-se, contrariando as expectativas escolheu servir nas linhas de frente.

No começo do seu treinamento sofreu por diversas vezes bullying dos seus companheiros, eles não conseguiam entender por que alguém que tinha acabado de se formar em medicina iria se meter numa selva no outro lado do mundo, em certo ponto nem seus superiores entenderam, “Se quer ajudar mesmo esse país sirva no hospital militar, já temos muitos cabeças de pregos para atirar naquela selva! ” Eles diziam, mas no fim conseguiu ser aceito por seus companheiros e superiores.

Terminando seu período de permanência decidiu voltar para a América, depois de apenas dez dias em casa seus pais sofreram um terrível acidente de carro, seu pai veio a óbito no local, entretanto sua mãe ainda resistiu um pouco chegando a ser hospitalizada, Tyler teve apenas tempo de vê-la no leito e se despedir, com a voz embargada de dor ela disse. “Ty… sinto muito… Mas acho que irei partir… você tem que ficar bem… tem que ser feliz… seja feliz… procure ser feliz não importa o que aconteça… eu.. te… am…” Antes mesmo de completar a frase ela como mesmo disse partiu.

Sentindo grandemente a perda dos pais ele entrou em uma profunda depressão, ficou recluso em seu quarto por mais de uma semana, só saiu porque precisava resolver alguns assuntos burocráticos na empresa, a metalúrgica Newman era um negócio pequeno, mas bem estabilizado fundado por seu pai quando ainda era jovem, no período da segunda guerra eles faziam tudo, desde armas, munições à peças para carros e aviões, logo quando ele começou a crescer chamou seu melhor amigo para trabalhar junto, situação que durava até aquela data onde era o gerente e braço direito.

Bob. “Ty, você está melhor? Tem comido? ” Perguntou o senhor com o rosto cheio de sincera preocupação.

Tyler mentindo disse, “Estou um pouco melhor tio. ”

“Como estão às coisas por aqui? Vim hoje resolver as últimas papeladas da herança. ” Falou com um tom monótono.

Bob. “Apesar de seu pai fazer uma enorme falta, a empresa está bem, estamos vendendo bem e cumprido todos os prazos, você vem assumir? ”

Tyler. “Acho que sim, apesar de não entender nada! ” Admitiu fracamente.

Bob. “Ora não fique assim, lembre-se que eu estive aqui com seu pai, que Deus o tenha… Eu estou aqui desde o começo, será um grande prazer meu te ensinar tudo o que sei, você não sabe que é como um filho para mim? ”  

Tyler não duvidava de nenhuma palavra daquele homem, aos poucos foi se levantando e tentando esquecer a dor. O negócio em si era relativamente simples, seu pai tinha fechado bons contratos com algumas empresas automobilísticas e fazia a terceirização de algumas peças, principalmente motores. Ele ficou lá por seis meses e junto de Bob tinha aprendido tudo, todos os processos e tarefas já eram claramente entendidos por ele. Todavia sempre que colocava a cabeça no travesseiro se lembrava das palavras de sua mãe no leito de morte. Seja feliz, ela disse. Muitos sentimentos rondavam o seu coração, mas felicidade não era um desses. Pensando em tudo isso ele se decidiu naquela madrugada.

Cedo pela manhã chamou Bob no escritório. “Tio eu devo confessar uma coisa ao senhor, estive inquieto todo este tempo, mesmo trabalhando aqui e aprendendo os serviços da empresa eu não me sinto à vontade. ”

“E o que quer fazer então? ” Bob perguntou de forma preocupada.

“As últimas palavras de minha mãe foram sobre eu ser feliz e procurar a felicidade, estava pensando em me matricular no curso de engenharia mecânica, eu passo um tempo fora esclarecendo a mente e quando voltar talvez possa gerir bem a firma e quem sabe trazer novas ideias. ”

“Bom garoto, bom garoto, se é o que quer vou te apoiar, você sabe que as coisas aqui estão bem encaminhadas, pode ir estudar tranquilo! ” Bob falou um pouco mais aliviado, ele tinha percebido como Tyler estava triste estes últimos meses, além do que ele era o filho de seu melhor amigo e tentaria cuidar dele como se fosse seu.

Tyler arrumou suas coisas e na mesma semana se mudou, como não precisava se preocupar em como se manter, apenas estudava dia e noite, isso era a única coisa que fazia, pode até se pensar que era difícil ou até mesmo estressante, contudo ele não achava isso, na verdade ele tinha um verdadeiro prazer em tudo isso, tanto que sempre que havia um curso qualquer no campus Tyler estava lá. Violão, piano, karatê, judô, mágica, marcenaria, confeitaria, etc. Qualquer curso em qualquer área. Quando seu curso terminou ele falou com Bob e disse que queria tentar fazer mais outro curso desta vez de engenharia química, Bob lhe deu todo apoio.

E assim continuou sua vida, curso após curso, depois de um tempo ele não inventou mais desculpas dizendo que voltaria para casa, Bob a muito já tinha percebido e também já tinha ajeitado a situação na empresa treinando um novo gerente para substituí-lo quando morresse.

E assim os anos foram se passando e as formaturas foram vindo, 11 delas. Medicina, Engenharia Mecânica, Engenharia Química, Engenharia Elétrica, Engenharia Civil, Biologia, Botânica, Geologia, Agronomia, História e Economia. Os idiomas que falava eram nove, inglês, espanhol, português, francês, italiano, alemão, japonês, mandarim e latim (até hoje ele não entende por que perdeu seu tempo aprendendo uma língua morta!)

Clak… Clak… Clak…

Apenas ouvindo o som de seus passos no cascalho Tyler olhava para o alto, a trilha em si era bem suave seguindo diretamente para uma grande caverna quase no topo da montanha. Quando pôr fim a alcançou ficou verdadeiramente impressionado com o seu tamanho, só sua abertura tinha um arco com uns quinze metros de altura e por dentro era uma catedral extremamente ampla e espaçosa a qual agora já escuro não pôde ver seu fim.

Tyler armou sua barraca e fez uma fogueira, ficou olhando o céu limpo e estrelado do deserto, olhar para um céu desses sempre faz um homem pensar, sem esposa, sem filhos e sem nenhum legado, apenas uma parede cheia de diplomas, depois de um tempo ele apenas os jogava desleixadamente nas gavetas. Bob morreu a anos, ele no fim tinha sido seu segundo pai, sempre o visitava nas festas e no dia de ação de graças. O gerente que Bob escolhera começou a fazer pequenos desvios na empresa, Tyler já sem muito ânimo depois do falecimento do seu “último parente” resolveu fechar a firma.

‘Astronomia!!’ Ele pensou de forma animada olhando para aquele céu, só tenho alguns pequenos cursos nessa área, posso aprender bastante! Como se tivesse renovado suas forças, ele começou a assobiar enquanto fritava algumas salsichas na fogueira.

Rumble!!! Rumble!!!

O fundo da caverna começou a tremer de forma intensa assustando Tyler, após um tempo o tremor cessou, e mais alguns segundos depois uma lufada de ar fresco veio do fundo da caverna. Aquilo o assustou e despertou sua curiosidade, ele pegou uma lanterna; vestiu sua capa e na outra mão segurava sua Magnum 44, ele era texano afinal e um bom texano leva sua arma até para ir mijar!

Ele caminhou por muito tempo, o facho de luz emitido por sua lanterna sumia naquela vastidão escura, seu verdadeiro guia ali era o vento fresco de dentro da caverna, após andar por uns três quilômetros a caverna se estreitou formando um arco semelhante ao da entrada, depois de passá-lo ele entrou em uma câmara igual a anterior, andando quase o mesmo tanto ele enxergou uma pequena luz branca e caminhou em direção a ela, quanto mais ele andava, mais ela aumentava em brilho e tamanho!

Quando ele chegou a visão que teve o fez perder o fôlego e cair de joelhos…


Autor: Lion | Editor: Bczeulli



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