TEUD – Capítulo 9 – O que aconteceu?


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 Mandy corria. Novamente aqueles insetos estavam de volta a perseguindo junto com Ambre e Debrah que riam cada vez mais dela. Um lugar sem saída estava em sua frente, havia ali um enorme rochedo, mas ela correu de qualquer jeito, direto naquela direção.  

         Quando ela chegou mais perto, ela pulou e, em um único salto, estava no topo do rochedo que estranhamente dobrará de tamanho. Mais um grande salto, e ela voou pelo ar novamente, normalmente ela pensaria duas vezes antes de tal ação, mas como estava desesperada não fez questão de pensar, decaindo no chão sem perder o ritmo, correndo mais uma vez.

         Ela olhou para baixo e, diante de seus olhos a terra virou neve, neve funda, branca e brilhante. Ela correu por um longo e plano terreno coberto pela neve, o sol brilhava, e reconheceu o lugar onde havia passado sua infância, aquilo lhe causou arrepios que há muito tempo não sentia.

         Na distância, ela podia sentir que seu irmão estava lá, de pé, mais a frente. Enquanto corria ela sentia que estava chegando mais perto dele. A imagem dele começou a ficar mais clara. Ele estava lá, com um sorriso largo os braços abertos.

        Ela sempre quis vê-lo novamente. Ela correu o máximo pode. Mas sempre que chegava mais perto, ele se distanciava.

        De repente ela estava caindo.

        Era como um enorme poço sem fundo, fazendo-a cair por longos minutos agoniantes para então de repente atingir o chão com extrema força.           

        Ela se levanta com dificuldades sentindo cada parte do seu corpo latejar, levando uma de suas mãos até as costas, alisando-as enquanto retomava o passo.

        Mais a frente ela vê uma pequena porta de madeira gasta e sente que já havia a visto em algum lugar, porém não se recordava onde havia visto, mas aquela sensação apenas a fez ter uma vontade imensa de chorar, mesmo com aquilo Mandy continuou andando e ao abrir a porta sente seu sorriso voltando quase instantaneamente.

        Parado em sua frente estava seu irmão, ela sente pequenas lágrimas de felicidade se formar em seus olhos e rapidamente começa a andar em sua direção.

        Mas seu sorriso aos poucos vai sumindo, pois a cada passo que dava, mais seu irmão parecia apavorado como se em sua frente estava o ser mais temível e medonho do mundo.

         Ela não conseguia entender, por fim estavam juntos então por que aquela reação?

        E então aconteceu. Por impulso suas grandes garras saltam para fora e sem o controle do seu corpo Mandy avança contra seu irmão que agora gritava apavorado por receber vários arranhões e cortes bem profundos.

         Porém mais apavorada do que ele estava Mandy, que agora chorava em desespero por estar ferindo daquela forma seu irmão, sem poder fazer nada.

 

Mandy se sentou na cama, ofegante. Ela olhou ao seu redor, desorientada. A forte luz do sol entrava.

Finalmente, ela percebeu que estava sonhando, ela secou o suor frio da testa e sentou na beirada da cama.

Silêncio. Julgando pela luz, já era dia e provavelmente suas aulas já haviam começado.

Ela olhou para o lado vendo um relógio na parede, e pode confirmar que realmente estava tarde: 8h15. Ela iria se atrasar para a aula. “perfeito…” ela pensa, com sua visão ainda se ajustando.

Ela estava surpresa por não ter acordado no horário. Todos aqueles anos, ela nunca havia se permitido dormir demais. “… Mas… Na onde eu estou?…” ela pensa, quando sua visão finalmente fica nítida.

Ela percebeu que não estava em seu quarto. Era um lugar diferente, repleto de camas e cortinas entreabertas.

— Mandy que bom que acordou, se sente bem?… —

Mandy olha na direção onde aquela voz tinha vindo vendo uma mulher, jovem, cabelos negros e vestida de branco, percebendo que era um uniforme de enfermeira.

— Onde eu estou?… E como vim parar aqui? —Mandy pergunta ainda parecendo atordoada e com sua voz baixa.

— Você está na enfermaria… Não se lembra?… Você ficou em choque com algo e acabou desmaiando… Ambre e Debrah a trouxeram aqui junto com sua amiga… E foi isso que elas disseram sobre você — A enfermeira fala indo até ela e olhando-a de perto, vendo se havia algum sinal de incômodo em Mandy.

— Parece que você está bem, e tudo não passou de um grande susto, quando se sentir melhor para levantar acorde sua amiga, está bem?… Ela parecia em choque antes, mas dei um tranquilizante e ela dormiu… — Falou enquanto se virava e caminhava para fora da enfermaria.

“… Jessie?…” ela pensa e logo suas memórias começam a voltar.

As duas estavam lutando, após um tempo ficando com sede e indo até um bebedouro bebendo um pouco d’água, em seguida o sono repentino e logo, escuro.

Ela sabia que aquilo não era normal, nunca dormiria daquela maneira, tão pouco Jessie faria o mesmo, mas as lembranças que agora iam até ela lhe causaram um arrepio enorme.

Ela se recordou do que aconteceu. Em uma sala desconhecida, ela havia acordado com os gritos de sua amiga, presa e sem conseguir se mexer, seu corpo fica completamente paralisado, ao perceber que por toda parte haviam insetos a cercando, subindo em cima dela, andando por sua pele.

Ela tinha pavor deles, e jamais encostaria em um por vontade própria, e logo aquela loira, e a morena que estudava com ela apareceram e as ajudaram.

Mas o que aconteceu ali a intrigava. Quem poderia ter feito tal maldade com ela e sua amiga? Certamente não sabia de seu trauma, e se soubesse, faria do mesmo jeito? E principalmente, por qual motivo isso aconteceu?

Mandy pensava sobre isso, mas logo decidiu se concentrar em outra coisa, ela poderia tentar descobrir isso outra hora. Virando seu rosto para o lado, Mandy vê Jessie deitada e dormindo em uma das camas da enfermaria.

Ela se levanta, caminhando até a amiga e levando uma de suas mãos até ela, balançando-a de levinho.

—Jessie-chan, acorda… A gente vai se atrasar muito… — Mandy falava com sua voz baixa para não causar um susto na ruiva.

— Só mais cinco minutinhos mãe… — Jessie responde, com sua voz extremamente baixa e meio travada pelo sono que sentia, pegando e abraçando a mão de Mandy.

Um pequeno sorriso se forma no rosto de Mandy enquanto a olhava.

—Eu não sou sua mamãe Jessie… Sou sua amiga que quer que você acorde então anda logo… — Mandy fala sorrindo, voltando a balança-la.

Lentamente, Jessie começa a acordar, dando um pequeno bocejo ela leva uma de suas mãos até seus olhos os esfregando de leve, permanecendo com eles fechados e um pequeno biquinho acabando por se formar.

— Mandy-chan?… Você veio até meu quarto me acordar? Que horas são?… — “e-eu to com sono…” Jessie pergunta com sua voz baixinha abraçando um pouco mais a mão da amiga.

— Oito e tanto… Anda sua preguiçazinha você tem que levantar. — Diz com um sorriso doce em seus lábios, levando sua outra mão até os cabelos de Jessie, acariciando-os levemente.

—Não estamos no seu quarto… Estamos agora na enfermaria. — A platinada fala enquanto a olhava e fazia carinho em seus cabelos.

Devagar Jessie começa a abrir seus olhos, olhando em volta, com sua visão aos poucos se acostumando com a claridade do local, vendo que realmente ali não era seu quarto, acaba por fazer uma expressão um pouco confusa.

— O que eu to fazendo aqui?… Não, por que nós duas estamos aqui?— Jessie pergunta olhando para a amiga, sem entender o porquê de elas estarem lá.

Mandy a olha, sentando na cama e ficando ao seu lado.

— Você não se lembra Jessie-chan?… Nós estávamos no campo treinando, daí fomos beber água ,mas depois disso, em alguns minutos, a gente começou a ficar com sono e acabamos desmaiando eu acho…  Depois daí eu não sei bem o que aconteceu, só sei que depois eu acordei com você gritando pedindo socorro, enquanto nós duas ficávamos amarradas a uma cadeira e tinha centenas de insetos nossa volta. — Mandy explica para a amiga enquanto a olhava percebendo que aos poucos ela começa a se recordar.

E ela não estava errada, Jessie aos poucos foi se recordando do que havia acontecido. Não estava muito claro, mas o pouco que passava em sua mente era o suficiente.

— Mandy por que a gente dormiu daquela maneira?… Me lembro que eu não conseguia me mexer.. Nem meu corpo me obedecia… Daí acabei caindo e o sono estava muito forte, depois daí, eu acordei em uma sala escura mas que estava cheia daqueles insetos… — Jessie fala sentindo um arrepio percorrer seu corpo, fazendo-a abraçar um pouco mais a mão de Mandy.

— Eu não faço ideia de como chegamos lá… Mas a gente não estava sozinhas… — Jessie acaba sua frase assim olhando para Mandy, que agora a olhava com expressões de dúvida.

—Eu também não sei o porquê de nós duas dormirem daquela forma… — Ela fala percebendo o que mais a amiga tinha falado.

—Não estávamos?… Quem estava lá Jessie?… — Mandy pergunta à amiga, tentando adivinhar quem tinha estado lá com elas.

— Eu não sei… Senti o cheiro de algumas pessoas com a gente lá… Não estava conseguindo me concentrar direito, mas por um pequeno momento eu senti… Estava muito perto de nós e eu pedia ajuda, mas ninguém vinha… Você não sentiu nada Mandy? —A ruiva pergunta, se sentando na cama a olhando.

Mandy balança sua cabeça negativamente.

—Não… Não senti cheiro algum nem presença de ninguém por perto…. Aquilo me causou um choque enorme sabe…. Mas Jessie, você disse que sentiu o cheiro… Sei que humanos não costumam sentir cheiros assim e… Sua presença é mais forte do que a deles… De que raça você é Jessie-chan? — Mandy pergunta enquanto a olhava e ficava sentada ao seu lado, fazendo uma carinha de curiosa.

Jessie a olhava com aos poucos ficando com suas expressões receosas e sem saber ao certo o que falar.

— Err… Eu sou… Ei a gente não já tinha que estar na aula? Vamos ou vai acabar com nós duas de detenção! – Jessie fala, mudando rapidamente de assunto e descendo da cama, ainda segurando a mão da amiga começa a puxa-la, caminhando logo em seguida.

—Temos ainda que nos arrumar, e já perdemos as primeiras aulas— Ela fala enquanto a puxava já saindo da enfermaria, agora indo na direção de seus dormitórios.

Agora em sua mente ficava o vazio, ela não queria dizer de qual raça ela era, nem mentir para a amiga, então ela preferiu mudar de assunto o mais rápido.

Ela sabia que uma hora ou outra, teria que contar, mas também sabia que sua raça não era a mais querida por todas, Mandy talvez pudesse aceita-la como ela é, assim como ela mesma havia aceitado que Mandy era um lobo.

Mas ela não queria arriscar, não agora.

Mandy a olhava enquanto andava quase correndo, percebendo sem muito esforço que Jessie não queria contar.

— Entendo que não queira contar… Pois assim como eu foi bem difícil, não sabia qual seria sua reação… Mas ainda irei querer saber… Me conte quando achar melhor, Tá? — Mandy fala para Jessie com um sorriso doce e gentil aparecendo em seus lábios.

— Sim… Eu vou te contar sim Mandy-chan… — “só não agora…” Jessie termina sua fala em pensamento, retribuindo o sorriso para a amiga e após alguns minutos andando cada uma vai à direção de seu dormitório.

 

 

*

 

Pov’s Jessie

 

Era estranho ver os corredores de sua escola tão vazios, o completo oposto do dia anterior.

Como as primeiras aulas já estavam terminando, não havia ninguém por perto. Ela olhou para um relógio de parede, marcava 9h15, faltavam 15 minutos para sua quarta aula do dia. Ela se perguntou se valia à pena ir à aula, mas afinal, ela não conhecia nenhum outro lugar para ir. Então, ela seguiu os números dos corredores até sua sala.

Ela parou do lado de fora da sala de aula, e podia ouvir a voz da professora.

Ela respirou fundo e girou a maçaneta de metal, entrando na sala. E a turma inteira olhou para ela no mesmo momento, inclusive a professora.

—Srta… —A professora diz ao esquecer o nome da garota por alguns instantes.

— Yami. A nova aluna. Você está muito atrasada,o que tem a dizer sobre isso?—

Jessie hesitou.

—D-Desculpe?… —Jessie fala com uma voz baixa.

—Isso não é o suficiente. Chegar atrasada na aula pode ser algo aceitável de onde você vem, mas certamente não é aceitável aqui—

—I-Inaceitável — Jessie disse e imediatamente se arrependeu.

Um silêncio desconfortável cobriu a sala.

—Como é?- a professora pergunta lentamente a olhando

—V-você disse ‘não é aceitável’… Você quis dizer inaceitável… —Jessie fala tímida.

—OH A ALUNINHA NOVA JÁ CHAMANDO A PROFESSORA DE VELHA BURRA!!!— exclamou um menino barulhento da sala, e a turma inteira explodiu em gargalhadas.

O rosto da professora ficou em um vermelho vivo.

—Sua pirralha insolente vá para a sala do diretor agora mesmo!! — A professora foi até a porta e a abriu para Jessie.

Ela ficou a alguns centímetros de distância, perto o suficiente para que Jessie conseguisse sentir o cheiro de seu perfume enjoativo.

—Fora da minha sala!! —

Normalmente, Jessie teria saído silenciosamente da sala, cabisbaixa na verdade, ela nunca teria confrontado um professor.

Mas por algum motivo ela fez, estava um pouco mais alto confiante. E sabia que poderia ser corajosa. Agora tinha alguém que desse inspiração e a encorajava.

Ao invés disso, Jessie ficou onde estava ignorando a professora e examinou a sala lentamente procurando por Mandy. A sala estava cheia, e ela havia procurado em todas as fileiras. Nenhum sinal dela.

—Srta. Yami! Você não ouviu o que eu disse?! —

Jessie olhou para ela com um olhar desafiador. Então ela se virou e saiu da sala levantando seu rosto como se não a importasse de nada.

Ela pode sentir a porta bater atrás dela com, e depois ouviu o falatório abafado da sala, seguido por um, ‘Fiquem quietos, todos!’.

Jessie continuou a caminhar pelo corredor vazio, vagando, sem saber com certeza para onde estava indo, aos poucos sua respiração descompassando pelo que havia acabado de fazer com uma professora. Sabia que sempre devia respeita-los, mas ela só quis ajudar, não era sua culpa se a professora não gostou da resposta.

Ela ouviu passos se aproximando, e mais a frente pode ver um dos guardas vindo e já gritando de onde estava perguntando o que ela estava fazendo ali.

Jessie não disse nada.

—Quem lhe deu permissão para andar por aqui?-

Silêncio…

Ele parou e a examinou. Ele era um homem frio, com cara de mau e uma enorme cicatriz que partia seu rosto.

—Você não pode caminhar pelos corredores sem permissão. Você sabe isso… Então responda! —

—Eu não sabia… —Jessie diz o olhando.

—… Você cometeu uma violação. Eu vou leva-la para a detenção agora — Ele fala sem desviar a atenção dela.

—Detenção?… — Jessie perguntou confusa.

—Do que você está faland-…— Ela é interrompida quando ele agarrou seu braço com força e começou arrasta-la pelo corredor.

—Nem mais uma palavra! — ele retrucou.

Jessie não gostava de sentir os dedos dele apertando seu braço, arrastando-a como se ela fosse uma criança.

Ela sentiu a Raiva chegando. Ela sabia que em alguns instantes, seria capaz dela não se controlar.

Ela tinha que para-lo e sair de perto dele logo. Mas, enquanto os dedos dele estivessem nela, a raiva não iria embora.

Ela puxou o braço rapidamente, antes que ela perdesse a cabeça, e viu que a mão dele voou para longe dela, e ele caiu para trás.

Ele olhou para ela, chocado em ver que uma garota do tamanho dela havia conseguido joga-lo tão longe com apenas uma puxada de seu braço.

Ele vacilou entre a indignação e o susto. Ela podia vê-lo perguntando a si mesmo se devia ataca-la ou recuar. Ele abaixou sua mão até o cinto, onde um grande frasco de spray de pimenta estava pendurado.

— Coloque suas mãos em mim novamente jovenzinha, e eu vou usar o spray em você— Ele disse com uma raiva e frieza.

— Então não coloque suas mãos em mim! — Ela respondeu desafiadora, estava chocada com o tom que a própria usou ao falar. Ela havia mudado, estava mais determinada, sem estar tremula.

Ele tirou lentamente a mão do spray e cedeu.

—Caminhe na frente, até o fim do corredor, subindo as escadas — Ele disse, agora sem mostrar reações.


Autora: Jessie Yami   |   Revisor: Liberty


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