SE – Capítulo 14 – Baijian


No inicio eu simplesmente estava dormindo.¹

Dormi bastante.

E então eu acordei.

A luz era forte e meus olhos doeram um pouco, mas eu ainda observava com todas as minhas forças.

Eu estava curioso.

Na época eu não sabia, mas aquele foi o dia em que nasci.

Eu estava muito confuso, mas extremamente curioso.

Eu não sabia nada, só via uma forma branca brilhante.

Eu não entendia nada, mas eu ainda examinava tudo ao meu redor.

Por alguma razão, mesmo que minha memória daquele dia seja extremamente precisa até em mínimos detalhes, tem várias coisas de que eu não lembro.

É como se algo estivesse bloqueando minha memória.

Depois de ler um pouco na internet, eu sabia que bebês saem da barriga da mãe. Então o fato daquele dia ter sido o dia que nasci me trouxe um pouco de dúvidas, até porque, eu não me lembro de ter visto a minha mãe.

Só me lembro de duas pessoas, eram duas pessoas brancas brilhantes… Uma era mais branca e mais brilhante, a outra era menos brilhante e a cor era mais cinzenta.

Por algum motivo eu sentia que as duas pessoas eram diferentes. Eu só não sabia como eram diferentes, o que eu descobri depois era que os dois eram diferentes porque um era um homem e o outro era uma mulher.

Depois, eu comecei a viver com o homem brilhante.

Durante os primeiros dias, eu dormia muito então eu não interagia muito com ele.

Minhas interações com ele eram bem simples.

Quando eu estava acordado, o homem falaria comigo. No começo eu não entendia nada.

E então eu fui deduzindo o que era que ele falava.

Às vezes eu acordava e escutava ele falando enquanto segurava um pequeno objeto.

Outras vezes, o homem me pegava no colo, e ficava me segurando enquanto olhava para uma tela brilhante.

Na tela tinham muitas linhas de palavras, eu não entendia nada que estava na tela, mas era muito interessante, então eu me esforcei para tentar entender.

Às vezes o homem ficava tão absorto lendo a tela que ficava mais de uma hora me segurando em frente da tela, e eu ficava muito tempo analisando.

Ele de vez em quando lia em voz alta o que estava escrito na tela, então aos poucos eu comecei a aprender.

Com o tempo, eu comecei a entender o que ele falava, e o que estava escrito na tela.

Naquela época eu não sabia o que significava tempo. Eu só sabia que eu me sentia esgotado, e fechava os olhos por muito tempo, quando eu acordava eu interagia com o homem, escutava ele falando, lia o que estava na tela brilhante…

Eu não sabia o que era tempo na época, mas agora eu sei. Eu passei assim exatamente cinco meses e vinte e três dias.

E em algum ponto eu aprendi totalmente a ler e falar. Então comecei a falar com o homem sobre as coisas que eu não sabia.

Antes, eu não me sentia com vontade de falar porque ainda tinha palavras que eu não sabia.

Mas depois percebi que aprendi a falar corretamente, e expus muitas das minhas questões que eu estava guardando durante todo esse tempo.

O homem, ao escutar as questões, ficou consternado.

Eu realmente não entendo.

Mas depois ele me segurou e me levou para a tela brilhante. Ficávamos horas lá conversando, eu ficava cansado e ia dormir.

E ficamos assim por seis meses.

Depois de seis meses, eu aprendi bastante e me senti como se eu tivesse aprendido a maioria das coisas que tinha para aprender.

Mas então, eu percebi algo muito importante:

Sempre tem mais conhecimento, mesmo eu tendo aprendido muito na tela brilhante, ao olhar nas coisas perto de mim, tinha tantas coisas que eu não sabia o que era, para que serviam, nem como funcionavam.

Eu não sabia de nada.

Eram coisas que eu via diariamente, mas eu nunca pensei muito sobre essas coisas. Eu só me importava com dormir, comer e a tela brilhante. Na verdade, eu nem sei o que é a tela brilhante.

Tem tanta coisa para aprender ainda…

E então comecei a fazer muitas perguntas ao homem, e ele me respondeu tudo que eu quis saber.

Depois de aprender sobre todas as coisas que estavam a minha volta percebi que provavelmente tem muito mais para aprender. Eu só tinha visto um pouco das coisas, e eu queria mais e mais.

Eu fiquei sedento por conhecimento.

Pedi para que o homem me ajudasse a conseguir mais conhecimento, querendo aprender tudo, quanto mais, melhor.

O homem parecia estranho e me explicou que eu era novo, e que conhecimento deve ser conseguido com o tempo. Eu percebi então que eu estava muito ansioso. O homem tinha razão, eu tinha um ano, de acordo com o conhecimento da internet, os humanos tem uma média de vida de setenta a oitenta anos. Se você se cuidar, pode viver até aos cem.

Eu tenho tempo, foi o que pensei.

Desde então eu relaxei. Não existe só conhecimento como um meio de me entreter, eu comecei a gostar de jogos.

Jogos no celular, porque computador eu não posso usá-lo direito com meu corpo pequeno.

Na verdade, até no celular é difícil. Eu preciso segurar ele com as duas mãos e meus movimentos são desajeitados então existem poucos jogos que eu posso jogar com o meu corpo, mas ainda assim tinham muitos e todos eram divertidos.

Logo, chegou meu primeiro aniversário. De acordo com o homem, aniversário é um marco para as pessoas, que é quando se passam 365 dias desde que nasceu. Então a cada 365 dias é celebrado o fato de você estar vivo.

Eu não entendi muito bem sobre isso, mas eu aceitei. No dia, comemos um bolo que o homem fez, eu comi pouco, e só um pedaço amassado. Meus dentes eram muito frágeis para mastigar, e eu não podia comer muito, o homem achava que poderia me fazer mal, até porque, normalmente eu só tomo leite, algumas vitaminas, iogurtes… Só alimentos líquidos.

Mas enquanto comíamos algo que me fez ficar morrendo de medo aconteceu.

O homem de repente desapareceu e apareceu uma coisa estranha no lugar.

A coisa tinha muitos fios pretos na cabeça, o rosto era diferente, ele usava a roupa de forma diferente, a cor dele era diferente… Tudo era diferente.

Obviamente a conclusão é que o homem com quem passei o último ano, e essa coisa, são totalmente diferentes.

Na hora eu fiquei em pânico, o homem com quem passei tempo o ultimo ano inteiro de repente sumiu. Senti-me triste e com medo.

Fiquei com medo da coisa estranha que apareceu no lugar do homem.

Depois de alguma conversa com a coisa, descobri que ele era o homem.

Naquele momento, eu me senti tão feliz. Eu estava desesperado com o sumiço dele, e no final ele nunca sumiu, aquela foi a primeira vez que chorei.

Depois que me acalmei percebi que minha visão mudou. Antes eu via as pessoas em branco brilhante.

É uma habilidade natural.

De acordo com o homem, eu vejo a alma das outras pessoas. Antes, por eu não ter controle, parece que a habilidade estava sempre ativa então eu pensei que era essa a minha visão de verdade.

E, ao completar o marco de um ano, eu ganhei o controle da minha visão e ela automaticamente desligou.

O homem me contou que eu era especial e que ele não era meu pai… Eu já sabia que ele não era meu pai, isso porque eu não sinto que ele é meu pai, é um sentimento estranho.

Eu não sei bem o porquê de eu ser especial, mas eu já sabia que eu era diferente. Eu, com seis meses, já era bem mais inteligente que o homem. Fica óbvio que não só não somos pai e filho, como eu também sou diferente dele.

Bom, a confirmação dessas duas informações não me chocou muito, eu não me importo com isso.

Sobre os meus pais biológicos? É como o homem falou antes. Eu sou muito novo ainda, minha vida só começou, eu vou deixar para saber sobre isso no futuro.

Depois disso eu treinei a habilidade até eu conseguir usar ela 100% do tempo.

De acordo com o homem, a habilidade depende das minhas emoções, e eu preciso de um controle preciso das emoções para que eu possa liga-la e desliga-la.

Então comecei a correr. Eu corria, cansava e tentava me acalmar, testava se conseguia usar a habilidade…

Depois de sete dias de treino, consegui um controle preciso sobre a habilidade.

Um ganho inesperado foi meu corpo ficar mais forte, eu podia correr por mais tempo.

Depois de alguns dias, o homem começou a testar minha memória. No começo era fácil, mas então começou a ficar difícil.

Eu me foquei mais e mais e com o tempo consegui melhorar, minha memória melhorava muito rapidamente.

Depois de um tempo, eu conseguia lembrar tudo mesmo que eu olhe de relance, é incrível.

Mas não era só memória, minha mente é muito mais rápida agora.

Quando o homem me mostrou a foto de uma árvore, eu olhei de relance e automaticamente minha mente inconscientemente contou o número de folhas da árvore.

Isso não é questão de memória ou lembrar algo instantaneamente… Você lembraria só como se fosse uma foto, lembraria a imagem que seu olho capturou.

Mas eu? Eu não só lembro a imagem perfeitamente, até os mínimos detalhes, como toda a informação possível que a foto me deu. Eu processei tudo.

Por exemplo, na foto, a árvore tinha muitas folhas, de fundo tinha várias arvores diferentes, e dava para ver um pouco o céu.

Os galhos da árvore eram muitos.

Tudo isso, eu processava.

Eu buscava na minha memória o que eram as arvores atrás na foto. Havia três árvores, eu só conheço uma delas, sobre as outras duas, não existem memórias nem das imagens delas, nem dos nomes, nem qualquer outra informação.

Ao ver a imagem, uma série de informações fluiu na minha mente.

Numero de folhas, números de nuvens no céu, informações sobre as árvores… A única árvore que eu conhecia da foto, eu li na internet um pouco sobre ela, e todas as informações referentes a ela automaticamente apareceram na minha mente.

E talvez se fosse outra pessoa, ao ver imagens e informações aparecendo de repente, a pessoa poderia ter um problema cerebral…

Mas eu? É tão fluido, não sinto desconforto nenhum, como se sempre fosse assim, algo normal, natural.

Minha mente evoluiu, ficou mais forte, mais rápida…

E então os próximos dias eu percebi o efeito disso em mim.

Se eu olhava para o chão perto o suficiente para ver as poeiras, eu acabava contando cada partícula de poeira instantaneamente.

Se chovia, eu olhava pela janela e o numero de gotas que tinham no ar apareciam na minha mente em velocidades enormes, mas não era desconfortável.

Se eu me focasse um pouco, eu poderia até mesmo calcular onde aparecerão as próximas gotas, em qual posição…

Se eu olhasse para o quintal, só com uma olhada eu lembraria cada folha e contaria o número.

Era bem mágico, eu processava informações todos os segundos do meu dia, mas era bem normal, não me confundia e nem me fazia ficar desconfortável… Era como se sempre tivesse sido assim.

Mas, as coisas mudaram.

Eu comecei a dormir bem mais. Quando se fica com sono, significa que está cansado.

Eu já dormia bastante antes, então comecei a dormir muito mais.

Eu entendi instantaneamente qual o problema:

Minha mente era poderosa demais, meu corpo não estava aguentando tanto processamento e tantas memórias e informações, eu estava ficando cansado mais rápido e o cansaço estava se acumulando.

Isso é ruim, se eu ficar cansado mais rápido do que posso descansar, vou dormir para sempre, ou eu posso até morrer diretamente de tanta informação.

Eu sou muito novo, se pelo menos meu corpo fosse mais forte, se eu fosse mais velho não teria esse problema.

Durante esses dias, o homem tem estado cansado. Eu o vi passando horas e horas no computador, ele não está dormindo direito.

Ele tem sempre um rosto abatido, parece estar sofrendo muito. Sempre no telefone ou no computador.

Fui ver o que estava fazendo no computador, e ele estava lendo pesquisas sobre a mente.

Então eu percebi que era por minha causa.

Eu estava o fazendo sofrer. Ele percebeu meu problema, e está desesperadamente procurando uma solução.

Mas parece não dar em nada.

Então eu comecei a pensar em um meio de resolver… E o único jeito que pensei foi em apostar na minha capacidade de melhorar.

Quando eu corri nos sete dias, meu corpo ficou um pouco mais forte.

Quando eu me esforcei para lembrar, minha memória melhorou rapidamente.

Então e se eu me esforçar para aguentar a dor, me acostumar, ou até mesmo esperar que meu corpo fique mais forte a ponto dessa dor sumir?

Tudo que preciso é aguentar.

Então eu passei alguns dias dormindo menos do que eu preciso para tentar me acostumar.

E os resultados?

Uma dor de cabeça infernal.

Ela foi ficando mais e mais forte a cada minuto que passava.

É simplesmente horrível, como se minha cabeça fosse explodir a qualquer momento.

Eu senti que ia desmaiar o tempo todo.

Mas eu aguentei.

No mesmo dia, o homem percebeu minha dor e parecia ainda mais desesperado.

Conversamos, e no final ele ainda não desistiu de encontrar outra saída e foi para o computador novamente.

Ele me falou sobre uma forma de relaxar a mente através da meditação.

É bem difícil meditar, você tem que se esforçar para não pensar em nada. Mas quanto mais você se esforça nisso, mais você pensa em outras coisas.

Você também fica bem incomodado com coisas minúsculas. Uma coceira, ou um pequeno barulho, essas pequenas coisas atrapalhavam bastante.

Embora não fosse perfeito, eu consegui meditar por horas.

A dor na cabeça não sumiu, mas ela diminuiu um pouco. Não irá funcionar em longo prazo, eu já sabia disso, mas é melhor do que nada.

Talvez se eu entrasse no verdadeiro estado de meditação, funcionaria. Mas como eu não consigo, o máximo que consegui foi diminuir ligeiramente a dor.

Depois de algumas horas, o homem voltou.

Depois de me olhar um pouco, ele tocou gentilmente a minha cabeça.

Ao sentir o toque, eu levei um choque enorme. É como se antes, meu corpo estivesse pesado, era mais difícil me mover, como se eu estivesse levando algo pesado, e agora, me sinto bem mais leve, como se os pesos tivessem sumido…

Foi muito mágico.

Foi tão incrível que sem perceber eu até chorei.

O toque daquele homem, Ye Hong, me salvou de algo que eu nem sabia.


Autor: ReaderBecameWriter | Revisor: Blame



Nota¹: Este é um capitulo especial, não vai ter um resumo tão cedo e o autor quis expressar a mentalidade de Baijian enquanto ele é jovem, porque no futuro da Novel… Bom, leiam e saberão.

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