Ronan – Prólogo



A quinze metros de altura, sentado sobre um declive no limiar de um pequeno vilarejo, Victor, o aprendiz, reconheceu os doze uniformes negros surgindo por detrás do longínquo e ondulado gramado da campina ensolarada. O serviço de sentinela chegou ao fim, ele precisava alertar os Sábios sobre as figuras que se aproximavam. A ansiedade subiu-lhe aos nervos, pesando cada respiração, acelerando cada palpitação e tremendo as pernas que lutaram para sustentá-lo ao se levantar.

Cambaleante, Victor venceu o medo. Evitou olhar para a queda livre que o receberia com rochas do dobro do seu tamanho. Escorou-se sobre o paredão pedregoso e avançou pela direita. Esforçou-se para manter a calma e evitar olhar para baixo. Quando se deu conta, já havia vencido os dez metros, alcançando o gramado que descia sinuoso até a estradinha lá embaixo.

Mas não havia tempo para descer da forma tradicional. Victor flexionou os joelhos, estendeu a perna esquerda para frente, tocou o gramado com as duas mãos, e com elas, tomou impulso, fazendo-o deslizar morro abaixo.

O casaco e os fios de cabelo tremularam conforme ganhou velocidade, a bota roçou a vegetação rasteira em busca de estabilidade enquanto a panturrilha ardia ao frear a descida, evitando que cambaleasse e fosse jogado contra o declive à sua esquerda.

A queda chegou ao fim, e sem perder tempo o aprendiz disparou, saltou uma cerquinha e alcançou a estrada de terra, por onde seguiu rumo ao vilarejo.

Seu foco era tamanho que ignorou por completo — não intencionalmente — os simpáticos cumprimentos adereçados a ele, vindo dos moradores. A casa que procurava surgiu quando adentrou na praça do pequeno vilarejo. Não perdeu tempo, disparou mais uma vez, subiu a varanda e escancarou a porta da frente num chute, abrindo-a num baque assustador. Lá dentro, ocupando o maior dos dois únicos cômodos, Kastro, seu instrutor, ajudava um morador com a perna aberta em carne viva.

Victor tentou avisar o instrutor sobre as figuras que se aproximavam, mas ao abrir a boca e tentar verbalizar, não conseguiu, pois arfava demais. Então se curvou, levou as mãos aos joelhos e parou para recuperar o fôlego entre longas inspirações e pesadas expirações.

Deixando o paciente de lado por um instante, Kastro ajeitou o robe marrom e deu atenção ao aprendiz em dificuldade, perguntando-o:

— Temos visita?

— Império!

— Jaquetas negras?

O aprendiz sacudiu a cabeça em afirmação.

— Droga! Me ajude a levar este senhor para o quarto do Marcos.

— O mestre não está…

A porta do único quarto foi aberta num empurrão.

— Estou aqui Victor — Marcos o chamou. — Venha me ajudar a mover o baú do meu quarto.

Assim ele fez. Com muito esforço o objeto de madeira foi arrastado para o meio do cômodo principal enquanto o senhorzinho era conduzido por Kastro até a cama do único quarto.

Reunidos ao redor do caixote, os três se entreolharam.

— Victor, quanto tempo nós temos?

O aprendiz pensou rápido, neste caso valeria a pena ser pessimista.

— Três minutos, no máximo.

Os dois Sábios se encararam e acenaram entre si. Marcos virou-se para o rapaz.

— Nos ajude a reunir toda a pesquisa. Pode jogar tudo que encontrar aqui dentro — disse chutando o caixote.

Não valia a pena questioná-lo, não agora.

— Sim Mestre.

Marcos sorriu.

— Não sou um Mestre, não ainda.

— Sim professor.

Os três varreram cada milímetro da pequena construção. Tábuas foram abertas com pés de cabra. Papéis surgiram dos lugares mais bizarros e improváveis. Victor vasculhou o quarto de Marcos, tentou não acordar o senhor que ali dormia, mas a visão dele somada ao forte cheiro exalado do ferimento em carne viva quase o fez vomitar. Decidido a não deixar-se abalar, abriu as gavetas de uma cômoda e achou o que buscava. Tirou lá de dentro um grosso caderno de anotações, escrito pelo Sábio aspirante ao título de Mestre na Ordem dos Magos.

Victor saiu do quarto rumo ao caixote, mas pouco antes de atirar o caderno lá dentro, Marcos o tirou de suas mãos.

— Esse aqui não.

— Mas eles vão descobrir!

— Não se você for rápido o suficiente.

— Não entendi… — Coçou o farto cabelo castanho e ajeitou os óculos.

— Pegue. — Marcos devolveu o caderno. — Saia pela porta dos fundos, corra em direção ao bosque e siga a trilha que te mostrei no dia que você chegou. Não deixe que ninguém de desconfiança veja essas anotações.

O aprendiz rezou para ter tempo de fazer uma última pergunta.

— Mas “Mestre”, nós temos a aprovação do Arquimago.

Marcos soltou uma risada.

— Ela não vale merda nenhuma nos limites do império. Agora vá Victor, e me prometa que continuará nossos esforços.

Implorou por mais tempo, tinha muita coisa para perguntá-lo.

— Mas vocês não vêm comigo?

— Não podemos. Você é o único não listado. Eu adoraria ir, mas não pretendo viver como um renegado. Agora vá, já da para ouvi-los chegar.

Marcos dizia a verdade, os galopes dos cavalos imperiais retumbavam numa intensidade crescente.

— Adeus mestre, obrigado por tudo.

— Até mais Victor, boa sorte.

O aprendiz saiu porta afora, correndo floresta adentro.

A varredura chegara ao fim. Toda pesquisa produzida durante meses foi acumulada dentro do caixote marrom no meio da sala. Os dois Sábios contemplaram o montante de papel com incerteza no olhar, pois tudo poderia se perder.

Ou quase tudo.

Lá fora os galopes cessaram e um inquietante silêncio se arrastou pelo vilarejo. Marcos caminhou até a janela e espiou através da fresta na cortina, a chegada dos doze Procuradores em jaquetas negras.

— Psiu! — Kastro o chamou. — Procuradores?

Marcos olhou por detrás do ombro e confirmou num aceno.

— Então vamos começar?

— Ainda não. — Tinha fé que algum milagre acontecesse

Espiou pela fresta mais uma vez. O líder dos doze, uma mulher alta de cabelo longo e castanho amendoado, interrogou um jovem casal, os únicos a não se trancar em suas casas. Para sorte de Marcos, dava para ouvir o timbre alto da voz da mulher.

— Prestem muita atenção no que vou lhes dizer. Me chamo Diana, sou uma Procuradora do Império e encabeço a seguinte operação: nós buscamos o esconderijo de Marcos, um renegado recém-catalogado acusado de praticar manipulação proibida nos limites do Império de Leon.

Ouvir aqueles jargões e mentiras fez os músculos no rosto do Sábio se contrair. Agachado no centro da sala, Kastro o encarava com os olhos arregalados, frustrado por não discernir o que estava acontecendo.

Marcos voltou sua atenção para a cena lá fora justo quando a moça respondia aquela tal Diana.

— Mas não conhecemos ninguém por esse nome, “senhora”.

— Zeppeli! — bradou a Procuradora.

Um rapaz com a mesma idade e mesmo cabelo castanho de Victor se adiantou. Ele abriu a jaqueta, revelando um compartimento onde papeis enrolados eram armazenados em presilhas separadas.  Os dedos da mão direita roçaram os volumes em busca de um específico e pararam quando alcançaram o rolo do meio, que foi puxado logo em seguida e oferecido à Diana, sua superior.

— Muito obrigado. — Ela abriu o volume e mostrou-o para o casal.

— Esse é o Primeiro Decreto. Devo lembrá-los que abrigar um renegado é um crime passível de execução sumária. Então vou perguntar mais uma vez. — Ela fez uma breve pausa para inspirar. — Onde fica o esconderijo de Marcos, o Sábio da Ordem dos Magos decretado como renegado pelo Imperador Alexandre Griffhart, do Império de Leon.

O casal se entreolhou.

— Nos desculpe, mas não conhecemos ninguém aqui com esse nome.

A líder dos Procuradores atirou o papel no chão e pisou nele com força.

— Mentira!

A mão direita foi erguida contra o rapaz, ela irradiava uma aura púrpura, ganhando força conforme a crueldade era desenhada nas feições da Procuradora.

Dentro da casa, Kastro testemunhou Marcos cambalear quando um lampejo violeta trespassou a cortina, inundando a sala na mesma tonalidade.

Lá fora, na praça do vilarejo, o rapaz urrou de dor enquanto sua amada lamentou em seus braços. Sangue tingia o chão batido numa tonalidade carmesim.

Zeppeli, o Procurador encarregado da papelada, se aproximou do casal, ajoelhou-se próximo a eles, sacudiu a cabeça, fechou os olhos, e disse:

— É melhor dizerem a verdade. — Apontou para a superior. — Ou a senhorita Diana pode piorar muito a sua situação.

Lágrimas transbordando as dores pingaram sobre o sangue já derramado na terra. Chorosa, a mulher apontou para a casa onde os Sábios até então, se escondiam.

Lá dentro, ao mesmo tempo, eles praguejaram:

— Merda!

— Caralho!

Marcos não titubeou e ordenou o colega ante a eminente ameaça.

— Agora!

Ele cambaleou e posicionou-se de frente ao caixote. Kastro já havia se aprontado. Eles se concentraram e, das palmas de suas mãos, labaredas foram atiradas contra o caixote de madeira, envolvendo-o num inferno particular.

Mesmo quando a porta da frente foi espancada pelos agentes do império. Eles não hesitaram, e prosseguiram com o ritual até apenas cinzas sobrarem onde anteriormente um guarda-volumes de madeira acumulava centenas de papéis.

Para finalizar Kastro ergueu os braços e conjurou um tufão, asfixiando as chamas que se alimentavam das tábuas do piso. A porta da frente veio ao chão, já enfraquecida pelas pancadas de Victor. E a sala foi tomada por dez agentes trajando negro e vermelho.

Diana, a mulher de longos cabelos castanhos e ondulados adentrou por último, acompanhada por seu braço direito. O olhar inquisitivo da Procuradora julgou os dois Sábios da Ordem que viera “buscar”.

Ninguém ousou se mexer. Olhares eram atirados uns contra os outros. Os magos encararam os cavaleiros, e os cavaleiros buscaram a aprovação da superior, mas ela não tirava seus olhos negros de Marcos.

— Você subornou os moradores? — ela inquiriu.

— Não! — respondeu na mesma hora o aspirante a Mestre.

— Então porque aqueles dois não te entregaram quando eu os interroguei.

— Não sei, deveria perguntar isso para eles, não?

Ela não respondeu, apenas estudou as cinzas espalhadas no meio da sala. Marcos também lançou o olhar sobre o material carbonizado, entristeceu-se ao ver meses de trabalho árduo resultar num punhado de pó.

— Chefe — disse o agente Zeppeli.

Marcos estremeceu, não havia notado que o rapaz tinha saído da sala, a voz dele vinha do único quarto.

— O que foi agente Zeppeli?

— Achei um cadáver aqui dentro.

Marcos e Diana se entreolharam.

— O que vocês fizeram com ele?

— Estávamos tratando sua ferida na perna.

— Então porque eu tenho a impressão que uma fogueira foi acesa aqui?

— Porque estava frio.

Que resposta idiota.

— Não me insulte, renegado!

— Não somos renegados.

— Então onde estão os papéis da pesquisa realizada por vocês?

— Que pesquisa?

Ela virou-se para o subordinado.

— Zeppeli, mostre para ele o registro.

O Procurador retirou um segundo volume da jaqueta e o estendeu para que Marcos pudesse lê-lo.

Equipe de Pesquisa: Rubra.

Projeto: Especial e Sigiloso.

Lotação: Desconhecida. Motivo: Sigiloso.

Membros: M.W (Sábio, ‘encaminhado para o título de Mestre’);

K.F (Sábio);

Auxiliares: Nenhum.

— E então? O que estão pesquisando?

— Mas você não leu o registro? É sigiloso, apenas o Arquimago sabe além de nós.

— Vocês são acusados de utilizarem manipulação proibida nos limites de Leon. Reunimos testemunhos suficientes para levá-los à justiça do Império. — Diana exprimiu o olhar. — Admita… Renegado!

— Não ouse me chamar de algo que não sou.

— Então porque se escondem nessa vila. E porque tive de torturar um morador para ele abrir a boca?

— Porque você não tem coração? — Sorriu em deboche.

O ar escapou de seus pulmões quando foi atingido por uma joelhada desferida pela mulher em sua frente.

— Sem mais gracinhas, renegado. — O olhar dela percorreu os Procuradores, que a encaravam na mesma seriedade.

Em segundos Kastro foi rendido, sobrepujado pela força de meia dúzia de soldados que avançaram ao mesmo tempo. Terror, angústia, desesperança e dor são as fraquezas de qualquer conjurador. Uma vez incapazes de concentrar, eles se tornam meros sacos de carne e sangue.

Aterrorizado, Marcos testemunhou o amigo ter as mãos algemadas por encaixes de ferro ligados por uma corrente de anéis entrelaçados. Havia desenhos talhados na superfície de ambos os encaixes, as infames runas. Marcos não era nenhum especialista, mas deduzindo pela situação, deveriam ser runas de anulação, o terror dos conjuradores.

O dono do instrumento canalizou sua energia arcana no objeto, fazendo a runa irradiar um brilho esbranquiçado, sinalizando sua ativação.

Com um sorriso no rosto, Diana exigiu:

— Abra o jogo renegado, ou sofra o mesmo destino.

Os olhos de Marcos e do amigo se encontraram. Kastro não parecia nervoso, até sacudiu a cabeça de leve, indicando a mulher que o interrogava.

Deveria eu ganhar tempo? Marcos refletiu.

Desafio aceito.

— Perdão… Senhora… Mas não há jogo algum para ser aberto.

— Para você é Procuradora Diana. Nós sabemos que vocês andam “brincando” com conjuração de sangue, mas por quê? Isso tem relação com o que vem pesquisando?

— Não sei do que está falando. Não fazemos nada disso, eu juro.

— Chega! — A mão foi erguida em sua direção, irradiando uma aura púrpura semelhante àquela que alvejou o rapaz na praça do vilarejo.

Um lampejo.

Uma dor insuportável logo seguiu. Marcos urrou. Sangue e lágrimas pingaram na madeira clara do piso onde se atirou. O projétil luminoso sumiu ao entrar em contato com a carne da perna direita. Entre os intervalos de sanidade, imaginou ser essa a dor quando perfurado por uma flecha, ou virote.

Diana não se importou, nem o subordinado, nem qualquer outro Procurador ali presente, era como se testemunhassem tamanha crueldade com frequência.

— Vou perguntar algo mais simples, para que você possa responder com: sim ou não; ou com um simples aceno, caso não consiga parar de chorar. — Diana respirou. — Vocês andaram conjurando com sangue nos limites soberanos do Império?

Tremendo, Marcos acenou e tentou se explicar:

— Ma-mas… Nós temos… Temos… Permissão… Arquimago.

— Aquela permissão não tem validade alguma, não sob o efeito do Primeiro Decreto Imperial. Acho que vocês devem conhecê-lo, não é mesmo? Qualquer conjuração proibida é incondicionalmente criminosa. Um papel assinado pelo Arquimago de nada vale para nós. — Diana suspirou e parou para refletir um momento.

— Chefe. — o subordinado chamou. — Já temos provas que chega, devemos levá-los a prisão?

— Calma Zeppeli! Tem mais uma coisinha que eu quero “extrair” dele.

Marcos sentiu a consciência vacilar. Um clarão azulado tomou conta da sala, vindas da algema que prendia Kastro.

— Ele vai romper a runa — exclamou um dos procuradores.

Kastro não hesitou, e mesmo nervoso, conseguiu se concentrar, irradiando mais luz no ambiente.

— Acabem com ele, agora! — Diana comandou num berro.

Gritos agudos castigaram os ouvidos de Marcos, para morrerem conforme a luz diminuía. Mais sangue escorreu sobre as tábuas do piso. As adagas utilizadas na execução foram limpas pelos pedaços de panos mais próximos dos executores de jaqueta escura.

O cadáver perfurado foi largado ali mesmo, desimportante demais para se importarem.

— Renegado de merda! — Diana virou-se para o único Sábio ainda vivo. — Vou repetir pela última vez, que tipo de pesquisa vocês realizaram aqui?

E mais lágrimas pingaram no chão inundado em sangue.


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Autor: Raphael Fiamoncini | Revisora: Marina



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