Ronan – Capítulo 96 – Aguarasa– Parte III



— A senhora viu uma garota um pouco mais baixa que eu e com o cabelo castanho até aqui? — Ronan perguntou levantando a mão na altura do ombro. Fazendo velhinha de cara enrugada e nariz avantajado à sua frente, encará-lo com desconfiança.

— Você veio com aquele pessoal? — Ela disse apontando para a entrada do vilarejo, onde a trezentos metros o acampamento dos soldados foi montado.

— Sim — respondeu esperançoso.

A senhora o encarou com um olhar incerto, como se analisasse cada fio em seu cabelo desgrenhado.

— Você é um bruxo?

— Um bruxo? — Ronan não iria mentir, mas também não iria corrigir o erro semântico. — Bruxo não.

— Ah, que bom então. Eu a vi sim. Era uma moça muito bonita. Ela pegou a estradinha para o sul, acho que foi visitar o lago. Ah, que saudade dos dias que eu…

— Muito obrigado. — E distanciou-se, deixando a velhinha com seus devaneios nostálgicos.

Ronan cruzou o pátio onde ficava a estalagem e repetiu o caminho feito durante a perseguição do dia anterior. Sem pressa alguma caminhou a passos calmos, admirando cada árvore, flor e animal que encontrava. Alcançou a ponte de madeira, mas seguiu reto, deixou a trilha do bosque para trás. Mais a frente, uma cerca contornava a estradinha de terra. Os abundantes eucaliptos negros propiciavam uma visão sublime.

Para o alivio de Ronan, nenhuma das poucas pessoas com quem cruzou quis arranjar problema. Pelo contrario, saudaram o garoto de forma educada com aquela típica simpatia do campo, longe dos problemas das grandes cidades. O caminho foi se abrindo, a cerca terminou e as árvores apinhadas deram espaço ao campo semiaberto, onde no meio, um lago azul claro refletia no rosto do rapaz, os raios do sol da uma hora. Ele levou a mão acima dos olhos e parou para observar.

Se a senhora estiver certa, a Anna deve estar por aqui.

Continuou caminhando pela estradinha que o levaria em frente ao lago. Observou a diversidade de árvores, enfileiradas como se plantadas por um jardineiro dedicado. Pouco depois percebeu os bancos de madeira dispostos de maneira a aproveitar as sombras das árvores enfileiradas.

Uma voz abafada foi captada pela audição de Ronan, seguido do farfalhar das folhas carregadas por uma corrente de ar. Ele tremeu com o frio que o afligiu de uma hora para outra. Escutou aquela voz mais uma vez, mas agora se assemelhava a um lamento. A poucos passos da lagoa, Ronan contornou pelo caminho à direita. Precisou vasculhar cada fileira de árvores.

O lamento abafado se intensificou. Ronan estava próximo, faltava pouco. Continuou percorrendo a lateral até alcançar o outro lado. Onde Anna chorava sentada num banco com a face enterrada nas mãos, assim como ele horas atrás, mas sozinha entre as árvores. Perguntou-se o que poderia tê-la chateado tanto. Hesitou por um instante e respirou fundo. Um tanto constrangido, aproximou-se em passos silenciosos.

— O que aconteceu?

Os fios castanhos do cabelo dela tremularam quando retirou as mãos da face, revelando os olhos marejados e a face rosada.

— Ronan… — soluçou acanhada pela visita inesperada.

Aproximou-se em dois passos cautelosos, abafados pelas folhas que pisou, mas ela se recolheu num instinto involuntário. Por um tempo os dois apenas se olharam. Os rios de lagrimas no rosto dela brilharam, mas ela não pareceu se incomodar.

— O que houve? — perguntou mais uma vez.

— É complicado… — disse pressionando as mãos nas coxas, arranhando a calça com as unhas.

Ousou aproximar-se em mais dois passos. Ela não se contraiu como antes, nem demonstrou desaprovação. Mantendo a prudência em seus movimentos, Ronan chegou perto o bastante para arriscar sentar-se ao lado da amiga, que não pareceu se importar. Lado a lado, compartilhando do mesmo véu de tensão, eles contemplaram o lago visível entre duas fileiras de árvores.

— Eu sei… — Anna travou, arfou e tentou mais uma vez — Eu sei que você… — E hesitou de novo.

— Que eu briguei com o Dario?

Os olhares se encontraram.

— Eu sei, mas não era isso…

E desencontraram.

— Então? — O mistério irritou Ronan, mas soube que tinha feito o mesmo não fazia tanto tempo.

Anna espremeu os olhos, contraiu os músculos da face em uma irritação frustrada.

— Eu sei que você gosta dela! — lamentou com a voz tremida, levando as mãos a cabeça para coçar o cabelo em movimentos enérgicos.

— Como você sabe?

— Não importa — rugiu com a voz carregada.

Aquele olhar perfurante o fez sentir como o culpado do maior crime já praticado em todo o Império de Leon. Seu rosto ardeu como se fosse pressionado contra brasas. Imaginou estar mais vermelho que o próprio sangue circulando em sua face.

— Que ódio, Ronan! Como eu posso ser tão idiota? De todos, de todos eles, logo você… por quê? Me responda! Isso é injusto demais… — Anna lamentou entre fungadas. — Como eu posso competir com ela. Me diga, Ronan. Que chances eu tenho contra a Na… — sua voz chorosa cessou quando um abraço não previsto a envolveu.

Irritado com tudo e com todos, Ronan seguiu o conselho do colega e demonstrou o que sentia. O calor daquele corpo atormentado e sofrendo por sua culpa o aqueceu. Sentiu o agradável cheiro do cabelo da amiga, que afagou com seus dedos. Sentiu a cabeça encaixar em seu ombro e tremeu quando as lágrimas frias dos olhos dela afligiram um calafrio em seu pescoço.

Ela chorou por intermináveis minutos, encharcando a gola felpuda do seu casaco. Ronan permaneceu em um estado sublime. Com a mão esquerda continuou afagando aquele cabelo macio e com a outra, acariciava as costas dela em movimentos verticais enquanto ouvia o choro dela em seu ouvido esquerdo. A primeira lágrima brotou em seu olho e percorreu o rosto deixando um rastro úmido para trás, até cair e atingir o pescoço de Anna.

Ela desenterrou o rosto do pescoço dele, tomou a distância de um palmo e encarou o rapaz que havia fechado os olhos. Ela estendeu a mão e com as pontas dos dedos sentiu a pele rosada, enxugando um par de lágrimas prestes a sair. Com a outra, entrelaçou os dedos dele. Aos poucos os olhos de Ronan foram se abrindo.

O silêncio prevaleceu.

— Vai ficar tudo bem, Ronan — ela disse com um sorriso e um aceno tímido com a cabeça.

Ele segurou a mão que acariciava o seu rosto. De mãos dadas e dedos entrelaçados, eles se olharam e se perderam na vastidão silenciosa que os envolvia.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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