Ronan – Capítulo 92 – Emboscada – Parte I



Três agentes imperiais corriam por entre as árvores do bosque seus perseguidores vinham atrás, diminuindo a distância a cada minuto. Liderando a empreitada, Diana desvencilhou-se dos galhos folheados em seu caminho. Seus dois companheiros, também espiões, disparavam conjurações contra os uniformes cinzas e azuis que os perseguiam, que para sorte deles, não revidavam.

Diana sacudiu a cabeça e encarou a trilha desconhecida. Suas luvas negras brilharam envoltas na cor púrpura.

Da palma estendida emanou uma rajada de vapor que arrastou e consumiu as folhagens no alcance de dez metros. O calor excessivo combinado com o nervosismo da caçada a impediu de conjurar com mais eficiência, mas foi o bastante para ir limpando o caminho.

Um brado furioso irrompeu lá de trás, nenhuma palavra fora discernida por nenhum dos três espiões. Do bolso esquerdo do longo casaco marrom que vestia, Diana retirou um rolo de papel amarelado. Não parou, muito menos olhou para contemplar o relatório por ela escrito. Concentrou o pouco de energia que conseguiu, manipulou o ar em sua palma e atirou o objeto o mais distante que conseguiu. Não vira o resultado, pois focou sua atenção na trilha de terra úmida em sua frente.

O camarada da direita conseguiu acumular uma esfera alaranjada em sua palma. Ele reduziu o passo, levou a mão para trás e arremessou à esfera maciça contra a base de uma árvore larga, ela despencou, o cálculo mental foi preciso e o tronco caído tornou-se uma barreira a ser transposta por seus perseguidores.

Diana presenciou o camarada retornar ao seu lado direito, ele arfava pesadamente. Um lampejo iluminou a cerca da estrada em que a trilha de folhas evaporadas desembocava.

Mas uma monstruosidade coberta em aço surgiu logo depois. O reflexo na couraça dele redirecionou a luz solar para seus olhos, cegando-a por um segundo. Por um segundo que a fez ir ao chão. Os braços arderam perante as forças que a puxavam. Diana abriu os olhos e manchas incompreensíveis obstruíam grande parte da visão. Seus colegas Procuradores praguejavam ao tentar levantá-la.

— Merda! Diana, Precisamos sair da trilha o quanto antes — disse o mais jovem, a sua esquerda.

— Lembre que você nos disse “Se não puderem nos acompanhar, nós vamos deixá-lo para trás e essa regra vale para mim também” — disse o espião “lenhador”, nervoso com o tempo perdido.

— Estou bem sim — Diana respondeu. Por sorte sofrera apenas arranhões, que doíam, mas não a impediriam de seguir em frente.

Sem perder tempo os três saíram da trilha, seguindo pelo matagal à direta. Gritos entusiasmados vieram de atrás. O farfalhar da vegetação tornou-se mais alto, denunciando a distância perdida, indicando estarem a menos de cinquenta metros dos perseguidores contornando ou escalando o tronco caído.

— Deveríamos ter enfrentado aquele cavaleiro misterioso. Assim perdemos tempo, e além do mais, estamos abrindo caminho para os desgraçados passarem.

Diana não soube dizer quem foi que proferiu a verdade. O matagal de fato os atrapalhava, mas ao vencerem às longas e abundantes folhagens, uma pequena trilha foi se formando, facilitando o percurso daqueles que os perseguiam.

Acabou, estamos mortos, foi o que Diana pensou antes de ser atingida no rosto por uma manopla de ferro. O soco levou-a ao chão. O outro punho agressor desferiu a espada no pescoço do agente mais jovem. A lâmina ensanguentada foi puxada da carne e desferida uma segunda vez, agora contra o outro colega de Diana. A espada curta brandida as pressas pelo espião tilintou ao aparar o golpe com sucesso.

Suor escorreu pelo rosto do único agente imperial literalmente em pé.

Um estalo de galho partindo ressoou ali perto, atrás de si.

O agente virou o rosto para dar de cara com o cavaleiro que os assustou minutos atrás. Ele empunhava um machado de guerra com as duas mãos, já erguido acima do elmo fechado. Apesar do medo, tentou levantar a espada, mas sua sentença fora dada. O machado desceu, alojando no crânio do perseguido, embrenhando nos fios negros e cacheados do agente imperial.

— Bom trabalho, Ivar — Eric Tormensson o elogiou ao contemplar a mulher caída no chão, mas o elmo fechado fez a sua voz sair abafada.

— Poderia ter poupado o rapaz. Ele iria se render, não viu o mijo escorrendo na calça dele?

— Infelizmente não, ele estava de costas para mim, mas é ela quem importa.

— Por quê?

— Pelas descrições dadas, foi ela quem o pastor viu na semana passada, uma estranha caminhando de forma suspeita enquanto escrevia algo em alguma coisa que ele não pôde ver.

Tomado por um cinismo irônico, Ivar zombou da constatação feita pelo líder dos Corvos da Tormenta:

— Nossa! Um crime imperdoável. Decapite esta mulher o quanto antes.

— Pode zombar a vontade, mas graças ao pastor nós capturamos uma agente. Imagino que sejam antigos Procuradores, recrutados para fazerem um serviço ainda mais sujo comparado ao que já faziam.

Ivar embainhou sua espada.

— Você parece conhecer muito sobre o funcionamento de Leon.

— Se algum dia almejar ser mais do que um mero soldado, eu recomendaria estudar de vez em quanto.

Ivar levou a mão ao peito e agiu como se sofresse um infarto.

— Suas palavras… elas machucam… de verdade! — terminou com uma risada quase histérica.

— Quieto. Ela está se mexendo.

Ivar acompanhou os olhos da Procuradora se abrirem devagar. Se aproveitando da situação, ele agachou para bem perto dela, para sussurrar:

— Desculpa pelo soco de antes, juro que não foi nada pessoal.

Eric se pôs ao lado do camarada e praguejou sobre a falta de cuidado que ele demonstrou.

— Seu imbecil! Ela é uma manipuladora, esqueceu? Fique atrás de mim.

Os oito Corvos que perseguiram os espiões chegaram arrastando as folhagens no caminho.

— Finalmente — Eric os saudou. — Preciso de uma algema rúnica o quanto antes.

O guerreiro mais à frente desprendeu do cinto as amarras requisitas pelo líder. O objeto foi arremessado para Eric, que não perdeu tempo e atou a espiã imperial sobrepujando toda a resistência imposta.

Uma conjuração desesperada ganhou forma nas mãos dela, mas foi absorvida pela runa talhada em uma das faces do machado de Eric Tormensson.

A cabeça do corvo esculpido na face oposta da arma, a encarava, seu bico era longo, pontiagudo, perfeito para perfurar a mais resistente das armaduras enquanto do olho, um raio saia e fazia sua trajetória caótica convergindo no vórtice da runa.

Diana fechou os olhos e os abriu, vislumbrou nuvens distorcidas passando entre as copas das árvores borradas.

Silhuetas cobertas em trajes de guerra se puseram à frente, encarando-a como se fosse um prêmio.

Fora rendida pelas forças inimigas, sua missão havia oficialmente falhado. O império nunca saberia dos planos interceptados na cidadezinha de Verdigo. Diana aguardou o julgamento do intimidante machado de guerra empunhado pelo brutamonte coberto em aço, que grunhiu apontando a arma envolta pelas runas complicadíssimas para ela interpretar.

— Últimas palavras? — o elmo fechado abafou as palavras.

Não se deixou abalar. Aos poucos a sobriedade regressava. A visão dos corpos ensanguentados dos companheiros provava terem servido a Leon com dedicação. Coragem perante a morte demonstrava a virtude dos Procuradores recrutados pelo serviço de inteligência. O braço direito do cavaleiro agora segurava o relatório escritos por ela mesma. Algum desgraçado a viu tentar se livrar daquilo durante a perseguição

Por detrás daquele elmo frio cujas laterais continham detalhes pontiagudos, semelhante à asas esticadas para trás, os olhos escuros do algoz se revelaram quando um raio de luz encontrou caminho entre as folhagens das árvores.

Ela vislumbrou com nitidez aquela armadura, uma proteção espessa capaz de aterrorizar até os mais experientes guerreiros. Saliências metálicas protegiam as felpas envolvendo o pescoço do portador. Ele segurou o cabo do longo machado de guerra com as duas mãos.

— Último aviso verme, quais são as suas últimas palavras?

Com os fios castanhos claros do cabelo na frente dos olhos, Diana o encarou.

— Você vai morrer, da pior maneira imaginável!

Um riso foi abafado pelo elmo fechado.

— Então eu posso dizer o mesmo — ele comentou encostando a ponta do machado no ombro da espiã condenada, que expressou o terror no olhar quando centenas de fagulhas surgiram da runa do machado ziguezagueando em frenesi, açoitando a condenada que gritou suas lamúrias. O corpo sem vida e repleto de queimaduras chocou-se contra a grama.

Onde foi largada como indigente.

— Interceptaram bastante coisa — comentou Ivar após ler a carta confiscada.

Após retirar o elmo com as duas mãos, Eric agitou a cabeça numa tentativa de desembaraçar o cabelo.

— Caiu muito bem em você… — Ivar elogiou

Com o machado em mãos, o guerreiro olhou o companheiro sem compreender.

— Sua nova armadura. — Ivar apontou para ele. — Você parece até um nobre, “Lorde Eric Tormensson”.

— Vai pro inferno, Ivar!

— Sabe… — começou ignorando o comentário do líder. — Você deveria ficar mais feliz, não é sempre que ganhamos presentinhos da Imperadora.

— Que presentinhos que nada. Isso aqui. — Eric ergueu o machado com apenas uma mão. — Isso é a recompensa por um trabalho bem feito.

— Então por que eu fiquei de mãos abanando? Eu também ajudei…

— Foi para aprender a não trapacear quando aposta.

— De novo com essa história?

— De novo com essa história! — repetiu Eric pondo o elmo de volta. — Vamos indo. Precisamos planejar o próximo passo.

— Próximo passo você diz, para isso basta esticar a perna e…

— Disse alguma coisa? — Eric o fuzilou com o olhar por detrás do elmo.

— Não, não. Falei nada não.

— Foi o que pensei. — Virou-se em direção à estrada à esquerda. A capa acompanhou seu movimento, mas tremulou para o outro lado quando uma lufada de ar fresco veio fazer as felpas da gola tremer.

Os Corvos da Tormenta partiram rumo à estalagem Orvalho do Campo. A caminhada levou pouco mais de meia hora. A presença de Eric fez com que os moradores o encarassem com temor nos olhos. Fez questão de não retribuir a encarada, pois soube da pior maneira que encará-los com aquele elmo poderia intimidá-los ainda mais.

Para compensar o clima pesado, o braço-direito vinha contando piadas sem graças desde que puseram os pés nos grãos de areia da estrada.

Para o bem de Ivar, o tempo ensinou Eric a ignorá-lo antes que desferisse um soco naquela matraca hiperativa.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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