Ronan – Capítulo 90 – Aventura de Verão – Parte II



Há meia hora Nathalia partiu, e há meia hora Ronan fingiu estar tudo bem. Quando no fundo, tinha de lutar contras as lágrimas e os gritos querendo sair. A vontade de render-se a tristeza era grande. Precisava ser forte. Tinha de aguentar a dor para que o amigo não se sentisse culpado. Afinal, que culpa Dario tinha nisso tudo? Quando foi a insegurança que o fez hesitar por tanto tempo. Estas e outras reflexões atormentaram suas memórias e corroeram sua sanidade.

Ronan desembainhou a espada o bastante para ver a runa talhada acima da guarda. Contemplou aquela estrela, aqueles raios ondulados e num vacilo distraído, uma gota caiu e se fragmentou, pontilhando a runa em pequenos pontos umedecidos. Permaneceu inabalado. Secou a runa com a manga do casaco, embainhou o florete e o prendeu em seu cinto.

Após conversar brevemente com Anna, Dario se aproximou.

— Você lembra o que a gente tinha que fazer agora?

Lutando consigo mesmo para deixar tudo de lado, Ronan respondeu:

— Acho que temos de esperar alguém vir nos chamar.

Anna olhava de um lado para o outro como se procurasse por algo, ou alguém. Em fim ela desistiu e voltou para o grupo.

— Não vi ninguém conhecido. Não era para todos os alunos com atividades fora da capital reunir-se aqui?

A voz de Anna atraiu a atenção de um guarda montando vigília a poucos metros. Ele levou a mão à boca e se intrometeu na conversa:

— É porque chegaram cedo demais. As companhias partem depois do meio dia.

Saber que teriam de esperar mais duas horas fez o trio protestar. Anna levou as mãos aos olhos e praguejou:

— Maldito seja você Rafael.

Ronan permaneceu calado, mas Dario tinha do que reclamar.

— Mas por que ele fez isso? Ele Poderia ter marcado uma hora antes, no máximo!

Dario e Anna aguardaram o amigo reagir.

— Tanto faz — foi o que ele disse.

Os dois se entreolharam e ergueram as sobrancelhas.

— Tá tudo bem contigo? — Dario perguntou apoiando a mão no ombro dele

Ronan se desvencilhou do contato com um instinto vingativo e inconsciente. Olhares se cruzaram. As pupilas do agressor se expandiram e fugiram do olhar confuso de Dario, que logo reclamou:

— Caralho! Tudo isso por ter que esperar duas horas? Relaxa Ronan, não é o fim do mundo ainda.

— Desculpe…

Vindos de dentro da cidade, um destacamento de centenas de soldados e cavaleiros armados marchou para fora do portão. Aquela visão intimidante fez Ronan se esquecer dos problemas durante os minutos que seguiram. Ninguém mais entrava ou saia da cidade, todo o fluxo pertencia exclusivamente ao exército. Dezenas de carroças cheias e vazias vieram após fileiras e mais fileiras de guerreiros vestidos em branco e vermelho com armas em punhos.

A vanguarda descansou no campo aberto a menos de trezentos metros de onde o trio se encontrava. As carroças abarrotadas de suprimentos acompanharam a cavalaria, já as vazias foram enfileiradas próximas ao portão, ocupando metade da rua. Devido ao inesperado bloqueio, o fluxo se intensificou. Pessoas, cavalos e objetos se aglomeravam no pouco espaço restante, e o movimento de entra e saída foi logo retomado.

Dario permaneceu boquiaberto, mas verbalizou algo que também ocupava a mente dos amigos:

— Essa é a nossa companhia? — Ajeitou o gibão marrom justo ao corpo que vestira para a viagem.

Com as mãos juntas e os dedos entrelaçados, Anna respondeu esperançosa:

— Espero que não.

A calçada que ocupavam foi tomada por pedestres. Cotoveladas, empurrões e o cheiro insuportável de suor vieram juntos de uma vez só.

— Eles poderiam ter parado mais para frente, olha só a merda que ficou agora. — referia-se à situação desagradável, não às fezes no sentido literal.

Optaram então por se recostar contra as pilhas de caixas atrás de onde estavam. Ao menos assim não sofreriam a ira dos transeuntes. E como se a situação não pudesse piorar, um trio de estudantes surgiu no meio dessa confusão.

— É o que faltava mesmo — Ronan bufou ao ver quem se aproximava.

— Ora, ora, ora, se não é o quarteto… — o desafeto de Ronan hesitou. —… Ué, cadê a filha do Arquimago? — perguntou coçando o couro cabeludo, de onde nascia seu longo cabelo castanho amendoado, preso num cabo de cavalo mal feito.

Foi Anna quem se adiantou para recebê-lo.

— Ela não pôde vir… Lorde trapaceiro Reiner.

Ele não pareceu se importar com o deboche. Quando olhou para Ronan, viu no rapaz algo que o interessou. E adotando uma voz suave, observou:

— Vejo que você está com ela.

Ronan não precisou olhá-lo para saber do que ele se referia. Levou a ponta dos dedos ao cabo da espada guardada na bainha presa ao cinto. Após bufar, o encarou e perguntou com seriedade:

— Está querendo ela de volta?

Reiner manteve seu sorriso confiante.

— Pode ficar com ela, afinal, devo uma a você e a loirinha.

— Mas vocês… — começou Anna. —… Vocês se inscreveram na atividade do professor Fernando? Então porque estão aqui? Por acaso ele mandou vocês para fora da capital.

Reiner largou um riso constrangido.

— Sobre isso… Digamos que alguém tinha se registrado com ele antes de nós, mas como eu sempre quis visitar Alvovale, não foi difícil arrastar os rapazes comigo.

Um dos solados que marchou anteriormente se aproximou dos seis, para abordá-los:

— Vocês são alunos da universidade?

Os seis assentiram.

— Vocês agendaram a viagem para fora da capital?

Assentiram mais uma vez.

— Ótimo. Algum de vocês parte em direção sul?

Ninguém assentiu.

— Norte?

— A gente — adiantou-se Reiner levantando a mão.

Observando o líder, os dois capachos o imitaram logo em seguida.

— Ótimo. Vocês já podem embarcar no primeiro transporte — disse o soldado apontando para a carruagem mais distante.

Os três se despediram caminhando rumo ao local indicado.

— E vocês? — ele perguntou aos que sobraram.

— Rioalto — Anna respondeu muito solícita.

— Para o nordeste então. É a quarta carruagem de lá para cá. — E apontou para o transporte, um veiculo de madeira.

Anna tinha mais uma pergunta para fazer, então a fez no meio do trajeto, ao acompanharem o soldado que os abordou.

— Senhor, a que horas sairemos?

— Às onze horas.

Anna agradeceu e virou-se para os amigos.

— Boas noticias pessoal, falta pouco mais de meia hora para partirmos.

— Mal posso esperar — disse um Ronan nada empolgado.

Deste então os três aguardaram em silêncio. E de uma hora para outra foi como se todos os estudantes chegassem juntos. Antes das onze horas da manhã, todas as carruagens foram lotadas por seus respectivos grupos. Antecedendo a saída, uma dúzia de oficiais passou para conferir as autorizações e os registros entregues pelo coordenador responsável. Meio hora depois, com tudo verificado, foi de um impaciente oficial que veio a tão esperada ordem, vociferada a plenos pulmões:

— Avisa os filhos da mãe pra tocar essa porcaria.

As rodas giraram, as botas marcharam e os cascos dos cavalos trotaram, pondo em movimento a enorme companhia.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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