Ronan – Capítulo 89 – Aventura de Verão – Parte I


As viagens relativas às atividades de fim de ano foram agendadas para o dia 18 de dezembro, uma quinta-feira. Conforme instruído pelo coordenador em pessoa, os estudantes registrados em lotações longe da capital deveriam se reunir fora dos portões da cidade, onde seriam convocados pelos representantes das comitivas que os levariam aos respectivos destinos.

Como em qualquer quinta-feira, inúmeras carroças, cavaleiros e pedestres, entravam e saiam dos portões da capital. Os transeuntes mais azarados tinham suas mercadorias vistoriadas por truculentos guardas, que por uma gorda quantia os deixariam passar sem mais problemas, independe da mercadoria que transportavam para dentro ou para fora.

Próximo a uma dessas vistoriais, do lado de fora dos portões, Ronan esperava os amigos enquanto sentava em uma das dezenas de caixas apreendidas durante a manhã do mesmo dia. O sol brilhava em um céu de poucas nuvens, pelo ângulo da estrela brilhante e das sombras por ela projetada, o jovem rapaz deduziu já passar das nove horas.

A mente divagou. Lembrou-se da semana anterior. Memórias do dia que implorou aos pais para assinarem a autorização vieram à tona. Hobb ficou orgulhoso com a notícia, mas disfarçou uma preocupação para agradar Laura, a sua esposa, que não acreditava na irresponsabilidade da universidade em deixar “crianças” viajarem para outras cidades. Ainda mais em tempos conturbados como este em que viviam.

Para sorte de Ronan, ele aprendera uma lição: falar com propriedade algo que pouco entenda, para alguém que entenda menos que você, é uma persuasão garantida. Graças a isso, quando explicou à mãe da importância em aprender com um Sábio da Ordem dos Magos, ela apenas ouviu e acenou para o relato falacioso, e sem entender absolutamente nada, ela cedeu.

Quando Ronan recobrou a consciência e voltou para o presente, estremeceu ao ver que alguém ali perto o encava.

— Sou tão feia assim?

— A-Anna, me desculpe. Acho que sonhei acordado por um instante.

Ela puxou um caixote para perto e sentou próximo ao rapaz.

— Você ficou encarando o guarda por cinco minutos, ele quase veio te dar uma surra, mas eu expliquei que você tinha um probleminha, ai ele ficou envergonhado.

Ronan sentiu as bochechas ferverem.

— Obrigado. — Sua voz saiu fraca.

— Que? — perguntou incrédula. — Você acreditou mesmo? — ela caiu na risada.

— Sem graça… — Suas bochechas esquentaram ainda mais.

Um pedestre se aproximou dos três, para perguntar:

— O que é tão engraçado?

Ronan não iria admitir, então esperou Anna recobrar o juízo, porém, foi após muitas gargalhadas que ela se acalmou e parou para responder a pergunta do garoto que acabou de chegar:

— Não é nada, Dario, esquece, deixa pra lá.

Assim como os dois ali presente, Dario arrastou um caixote de madeira para perto dos amigos. Ficando ao lado esquerdo de Ronan.

— Só espero não ter perdido nada — disse ao encostar as nádegas na superfície.

A conversa foi logo interrompida quando um oficial de um destacamento que ali marchava, os abordou:

— Vocês! — bradou enérgico. — Guardem essas caixas nos devidos lugares. Esse é o armazém exclusivo das mercadorias apreendidas, e não um parquinho para crianças brincarem. — Fuzilou-os com o olhar.

Os três se levantaram, desculparam e empurraram os caixotes de volta à pilha de produtos apreendidos. Quando terminaram, o oficial os encarou uma última vez, deu meia volta, voltou-se para o horizonte em frente e marchou apressado até alcançar a sua unidade.

Anna sacudia a cabeça em desaprovação.

— Poderia ter me avisado que as caixas continham mercadorias apreendidas.

— Eu só sentei porque vi outros soldados fazendo o mesmo — Ronan tentou se justificar.

Dario esboçou um riso debochado.

— Provavelmente eram os mesmos soldados que as trouxeram até aqui, seu cabeça de vento.

— Cabeça de vento é apelido seu… garoto do vento. — Anna zombou o encarando com um olhar malicioso, como se soubesse de algo que não deveria. — Enfim, alguma noticia da Nat?

Ronan estranhou a pergunta.

— Vocês não entregaram a autorização juntas? No mesmo dia?

Anna respondeu sacudindo a cabeça.

— Eu entreguei anteontem, sozinha. Não falo com ela desde o domingo passado. — Anna levou a mão à boca. Seus olhos arregalaram em preocupação. — Será que aconteceu alguma coisa com a Nat?

Os dois rapazes se entreolharam.

— Não! — Dario se exaltou num impulso e olhou para o amigo, que pelo olhar, estranhou essa reação exacerbada. Ficou quieto e esperou que ele não o interrogasse.

— Seria uma pena… — suspirou Ronan. — Ainda mais agora que tudo ia tão bem entre nós quatro.

Anna deixou um riso escapar, mas concordou com a afirmação do amigo, assim como Dario, que parecia aflito com a suposição da garota não comparecer.

— Nat! — Anna gritou surpresa, mas seu rosto se contorceu ao ver a próxima figura que caminhava ao lado da amiga. — Professor Ronaldo?

— Procurador — ele a corrigiu.

Só então Anna notou a jaqueta de couro negro com detalhes vermelhos que ele vestia. Mas isso para ela não importava, sua amiga aparecera, pondo um fim às suposições pessimistas que a desanimou minutos atrás.

Nathalia saltitou para perto da amiga e segurou-a pelas mãos.

— Ai, ai Anna — ela anunciou desanimada. — Infelizmente não irei com vocês. — Correu o olhar para os rapazes e voltou. — Papai não me deixou ir, sabe como é, né?

— Mas como? Ele está a centenas de quilômetros daqui.

— Na verdade ele veio nos visitar, mas parte em uma semana e meia de volta à torre da solidão.

A esperança e a felicidade estampada no rosto de Anna se desfizeram numa expressão de partir o coração, seus olhos se fecharam devagar. Anna sorriu e abraçou a amiga com força.

— Não acredito que você não vai. Você nem parece triste…

Nathalia se aproximou e sussurrou no ouvido dela:

— Você sabe que eu adoraria ir com vocês, ainda mais agora. — Anna deixou escapar um riso. Suas bochechas se encostaram. — Vê se dá um jeito naquele garoto. — As bochechas de Anna ferveram a ponto de ter de cobri-las com as mãos.

Nathalia a largou fazendo um carinho na área enrubescida de vergonha. Então se aproximou de Ronan, que a recebeu com um sorriso, o que a fez estranhar de inicio, pois ele vivia se desviando.

Analisando o casaco de gola felpuda dele, perguntou:

— Trouxe?

Ronan deu meia volta e caminhou até perto das caixas movidas minutos atrás. Lá havia guardado sua mochila e o presente agraciado por Nathalia. Primeiro vestiu a mochila, depois apanhou o presente no chão, segurou-a pela empunhadura e pela ponta da lâmina encoberta dentro da bainha, caminhou para perto e a estendeu para a amiga.

Que a contemplou maravilhada, orgulhosa por ter lhe presenteado.

— Como eu não entendo coisa alguma de espadas, vou apenas dizer para ter cuidado com ela. Você a fez mais do que uma simples lâmina, agora ela é uma relíquia, um objeto valioso capaz de bloquear até as minhas conjurações. Agora apenas você pode ativar o poder dessa runa magnífica.

Nathalia o segurou pela mão que empunhava a lâmina embainhada, se aproximou dele e o beijou na bochecha.

— Boa sorte pra você.

— Obrigado — Ronan agradeceu boquiaberto com as bochechas e orelhas tão vermelhas quanto às de Anna minutos atrás.

Era a vez dela se despedir de Dario, Ronan ficou curioso para ver que tipo de despedida seria aquela. Por um tempo os dois apenas conversaram baixinho de frente ao outro, o que era anormal na visão de Ronan, pois deveriam estar brigando, se provocando, ou algo do tipo, mas eles apenas conversavam como amigos de longa data.

Dario tinha a cabeça levemente inclinada para baixo e Nathalia, para cima, logo Ronan percebeu que eles conversavam olhando nos olhos do outro. Até que ela segurou no casaco dele com as mãos na altura do peito. Sua visão periférica notou que Anna se aproximou.

— Estranho né? — ela comentou.

Como assim?

Sua respiração pesou, notou que suava, sentiu-se perdido em outra realidade.

O que eles estão fazendo?

Dario então envolveu sua rival com as mãos na cintura dela.

Eles se olharam, sorridentes.

Os narizes se encostaram.

E se beijaram.

Não pode ser…


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Autor: Raphael Fiamoncini



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