Ronan – Capítulo 82 – Fim de Novembro – Parte I



Apesar das aulas normais estarem canceladas até o mês de dezembro, a última semana de novembro foi reservada para as provas suplementares e outras atividades extraordinárias.

Pouco mais de quarenta estudantes, professores e funcionários perderam a vida, uma centena se feriu e um quarto dessa centena foi internado em estado grave.

Para o alivio de Anna e Dario, seus amigos: Ronan e Nathalia se recuperaram em pouco mais de duas semanas, assim como o muito odiado, Lorde Reiner.

Por outro lado, dos danos materiais sofridos, o perecimento das centenas de volumes da biblioteca era o que mais preocupava a diretoria, que já buscava alternativas para contornar a falta de material para o ano seguinte.

Com tantas perdas a instituição permaneceria de luto pelo mês inteiro. O assunto a circular não poderia ser outro. Rumores tomavam os corredores, salas e demais ambientes da universidade. Especulava-se sobre uma invasão do autoproclamado império vizinho e até um possível atentado executado pela Irmandade Rubra. E para sorte dos poderosos, ninguém sabia qual era verdade.

A segurança tornou-se prioridade numero um, ultrapassando os esforços empregados na reconstrução da instituição. Jaquetas negras com detalhes avermelhados sinalizavam os agentes destacados para conduzirem as investigações oficiais. Além da ajuda dos Procuradores, um destacamento de guardas fazia a segurança da entrada do campus, por onde dois cavaleiros em jaquetas negras acompanhavam uma garota aborrecida.

— De todos os Procurados Imperiais, tinham de escalar justamente você.

— Prefere ser arrastada por renegados mais uma vez, senhorita Leonhart?

— Prefiro cem vezes, você fica ridículo nesse uniforme, “capitão” — ela menosprezou o novo título do ex-professor.

Mas ele riu da provocação.

— Vocês são todos iguais, no fundo, bem no fundo, vocês só querem ficar se mostrando para os outros, não é mesmo?

— De quem você está falando?

— Conjuradores garota, vocês conjuradores são todos arrogantes.

            Olha quem fala.

— Corrija-me se eu estiver errada, capitão, mas você por acaso não é um conjurador? Ou aquela lança arcana que disparou contra mim mês passado não passou de um truque?

— Eu sei conjurar, é verdade, mas não me considero um conjurador como vocês.

— Ah… entendi. Você prefere o termo manipulador, não é verdade?

— Muito menos, senhorita.

— Mago?

Ele arqueou as sobrancelhas, mas permaneceu em silêncio. Nathalia persistiu:

— Você se acha um bruxo? — ela arregalou seus olhos azulados. — Já sei! —— Apontou o indicador para a cara dele — Você se considera um feiticeiro, nossa, que termo fora de moda! — zombou balançando o indicador na altura do rosto.

— Deixa de palhaçada. Você parece uma criança chata, e não a herdeira de uma dinastia, ou a filha do próprio Arquimago.

— Cala a boca…

O segundo Procurador, um jovem de cabelo escuro, apenas observou a cena sem demonstrar qualquer interesse por seu chefe ou pela garota irritante. Menosprezando o trabalho, ele inquiriu:

— Se as aulas terminaram, por que precisamos acompanhá-la até aqui?

— Meu filho — começou Ronaldo. — Não estamos aqui para questionar as decisões da senhora Leonhart. Se ela quiser mandar a filha pra cá, é pra cá que nós viremos.

            Este é o mesmo Ronaldo Rodrigues? Perguntou-se Nathalia, mas na verdade pouco se importava com a súbita mudança no humor daquele monstro transformado em gente.

— Vamos indo. Vocês dois podem me esperar aonde quiserem, mas não quero vocês me seguindo por ai, entenderam?

— Mas… — começou o rapaz.

— Mas não tem problema. Ninguém vai ser louco de se insurgir num ambiente lotado de Procurados e guardas.

— Tanto faz — ele respondeu num dar de ombros.

Os três adentraram no campus. Ao alcançarem a fonte do pátio frontal, Nathalia se despediu e seguiu o seu próprio caminho em direção à sala A-102 uma última vez.

Encontrar aquele trio foi mais fácil do que imaginava. Anna, Dario e Ronan se amontoaram junto a uma multidão em frente ao mural onde os avisos eram fixados, ou pelo menos deveriam, pois não dava para enxergar absolutamente nada devido ao tumulto.

Nathalia embrenhou-se no mar de gente.

— Nat! — sua amiga saudou enérgica e recebeu-a com um abraço.

— O que todo esse pessoal faz aqui? — perguntou enquanto sentia os braços de Anna a esmagar.

— As atividades de fim de ano já foram divulgadas.

— Ah. É verdade, mas os professores vão passar tudo em sala depois.

— Sim, mas é bom já se adiantar para conseguirmos pegar os melhores.

— Você quer mesmo perder o feriado?

— Perder é uma palavra muito forte, mas eu não quero ficar em casa sem fazer nada, ou vai dizer que planeja vadiar por dois meses inteiro?

Envergonhada, Nathalia coçou a nuca.

— Não planejei nada — revelou arqueando as sobrancelhas.

— Francamente, você é genial só quando convém mesmo.

Um homem surgiu no corredor do térreo do Prédio A. Anna e Nathalia reconheceram o robe cinzento preso por um cinto de couro preto característicos do professor Felix Fitz, que coçou a garganta e anunciou aos incautos:

— Alunos da turma A-102, dirijam-se à sala A-102, agora.

Como um rebanho fora de ordem, os alunos obedeceram à vontade do professor. Ao subir as escadas, Nathalia sentiu uma puxada em seu casaco. Curiosa, virou-se para ver do que se tratava, mas foi recebida pelo sorriso da amiga de longos cabelos negros.

— Oi Nat, há quanto tempo, não é mesmo?

— Oi Ka, pois é.

As duas se entreolharam em silêncio.

— Vamos ficar aqui, paradas no meio da escadaria?

— Não, claro que não.

As duas subiram lado a lado até alcançarem o primeiro andar. Elas viraram de frente à outra e se encararam em silêncio, mais uma vez.

— Como vão os amigos? — Karen perguntou alisando uma mecha do cabelo.

— Amigos? Ah, vão bem. E com você amiga, como vai a vida?

            Que pergunta mais genérica.

— Vai bem, obrigada, apesar de não ser tão interessante quanto a do quarteto.

            Quarteto? Nathalia se perguntou, logo percebeu do que se tratava.

— Entendi, peço desculpas por ter me afastado. Se quiser, pode vir com a gente.

— Vir com vocês? — A feição da garota se contraiu em incredulidade. — Eu esperava algo do tipo vindo da Anna, mas não de você, Nathalia.

— Algum problema?

— Não tenho problema algum, só estou um pouco abalada.

— Decepcionada?

— Talvez. É, que sabe, para alguém que dizia odiar tanto os Zeppelis, você até passa tempo demais com um deles. Até passou a chamá-lo de amigo não faz muito tempo. — Karen sacudiu a cabeça para os lados. — Você mudou Nathalia.

Antes que pudesse contra argumentar, uma garota abriu a porta da sala onde as duas já deveriam ter entrado minutos atrás.

— Você tá aqui Nat. — Anna constatou aliviada. — Oi Ka — cumprimentou-a um tanto sem graça. — Vamos? O professor Felix vai começar a aula.

— Vamos sim, nós já terminamos, não é mesmo Nat?

Nathalia encarou-a com impassividade e concordou com um melancólico aceno.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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