Ronan – Capítulo 77 – Renegados – Parte I



Na penúltima quarta feira de outubro, tão cedo que o sol mal havia começado a nascer, Ronan   sentiu o corpo ser envolvido por uma aura azulada. Tamanha sensação gratificante parecia justificar as dezenas de horas investidas em treinamento. Com olhos fechados, ele permaneceu sentado com as pernas cruzadas em meio ao gramado do Campo de Práticas Arcanas. Em sua frente, de pé, o professor Fernando Valadar observava seu desempenho em silêncio. E quando julgou ter visto o bastante, perguntou ao aluno:

— Isso é tudo?

— Por enquanto sim — admitiu Ronan. — Estou reprovado?

— Pelo contrário, seu baixo desempenho é um tanto… compreensível, por isso vou te aprovar. Pode se levantar agora.

Abriu os olhos, contemplou o pequeno campo vazio, esticou as pernas e levantou-se num impulso.

— Compreensível? Mas eu ainda não consigo fazer nada com essa energia.

— Você está apenas atrasado comparado ao resto da turma. Até agora, apenas um estudante conseguiu manipular essa energia.

— Uma estudante — Ronan o corrigiu.

Fernando Valadar assentiu e alisou a careca antes de prosseguir:

— Normalmente eu reprovaria alguém tão atrasado, mas como você entende bem os conceitos e a teoria por trás da manipulação, eu deixarei passar. Além do mais, seria um crime reprovar um criador de runas como você.

— Isso já aconteceu antes?

— Isso acontece com frequência. Criadores de Runas com dificuldade em manipular é tão comum quanto manipuladores geniais com problemas na criação de runas. Se o seu caso fosse o inverso, tenho certeza que o ex-professor Ronaldo te passaria. — Fernando parou, ajeitou a corcunda e reavaliou o seu comentário. — Pensando bem, eu acho que ele não seria assim tão compreensivo, mas basta, vamos indo?

Ronan não respondeu, pois se distraiu ao observar os muros que cercavam o pequeno campo. Vez ou outra podia ouvir o som ou ver partes das conjurações lançadas nos campos adjacentes. Imaginou que tipo de manipulações os alunos dos últimos semestres já eram capazes de produzir, e com pesar, lembrou-se da última conjuração a ser proibida pelo novo Arquimago, justamente aquela que mais ansiava em aprender, a temida por muitos: manipulação do fogo.

— Vai ficar por aqui? — chamou o professor. Com a distância que estavam um do outro ele parecia ainda menor, e ainda mais corcunda. — Você vai perder a minha aula, senhor Ronan. — Fernando apoiou-se na mureta com a mão direita.

— Ah, sim… quero dizer, não! Perdão, vamos indo. — atrapalhou-se e cambaleou numa corrida torta até a entrada do campo.

Uma hora e tantos minutos depois, em meio à aula oficial do professor Fernando Valadar, uma fofoca em particular fez-se ouvir.

— O quê? Você passou? Não acredito numa coisa dessas!

Dario surpreendeu-se a ponto de ofender o amigo. Segundos depois, os fios do cabelo de Nathalia esvoaçaram a centímetros do seu nariz quando ela virou-se para trás, num impulso.

— Fala baixo Zeppeli, você às vezes parece uma senhora histérica!

— Blá, blá, blá, me chamo Nathalia, eu só sei reclamar.

— Retiro o que disse. Você está mais é para uma criança.

Os dois se encararam em desafio até o professor Valadar intervir.

— Algum problema ali atrás?

Ambos estremeceram e viraram para frente. Com o coração na mão, Nathalia pensou mais rápido que seu arquirrival.

— É o Dario… professor — Ela virou-se devagarinho para encará-lo com malícia. — Ele disse que estava com dificuldade nessa parte e precisava de ajuda.

Fernando se aproximou do limiar do degrau do primeiro nível, para responder com uma paciência quase transcendental.

— Se tiver alguma dúvida, pode me perguntar diretamente, por mais simples ou estúpida que a pergunta pareça, eu juro que não vou me zangar. — E voltou para perto da mesa reservada aos professores.

Dario debruçou-se sobre a bancada e sussurrou no ouvido da garota em sua frente:

— Você me paga sua Leonhart.

Nathalia olhou para a esquerda, para a amiga que testemunhou toda a cena. As duas se entreolharam e abafaram um risinho com as mãos. Após recuperar a compostura, Anna olhou para trás, para o seu amigo de estudos.

— Ronan — chamou baixinho.

— Fala. — Ele esticou o pescoço.

— Podemos nos reunir hoje? Faltam poucos livros para investigarmos. Acho que dá para terminarmos ainda amanhã.

— Ótimo. Então tá combinado.

O professor vislumbrou o cochichar dos dois, mas não se manifestou ao perceber que eles conversavam sem incomodar os outros colegas, ao contrário da “dupla dinâmica”.

Dentro da silenciosa Biblioteca Universitária, ocupando o lugar de sempre, os dois se reuniram mais uma vez. Em uma longa mesa disposta entre duas estantes eles acumularam os volumes que foram sublinhados na lista presenteada pela professora Grivaldo.

Devido à rotina repetitiva, os olhos de Ronan percorreram os índices e páginas com uma velocidade e precisão semi-humana. Um a um os livros empilhados foram jogados para o lado, até sua companheira anunciar lhe entregando um extenso volume.

— Esse é o último.

— Quais são as chances desse ai ter algo que procuramos? Abaixo de um porcento? — perguntou sentindo a textura do couro da capa com os dedos.

Pouco antes de ele abrir o volume, Anna levantou-se, contornou a mesa e ocupou a cadeira ao seu lado. Ela aproximou-se para bem perto, levou uma mão à capa do último livro, em um tímido, mas íntimo contato entre as duas mãos de dois colegas que passaram quase um ano juntos.

Ronan sentiu-se a ponto de explodir de nervoso, mas não pôde hesitar. Da última vez que recuou, quase estragou a amizade entre eles. O contato do seu braço contra o dela era agradável, mas eram nas duas mãos unidas pela intenção de virar a primeira página do último livro, que residia os laços daquela amizade forjada e fortalecida pela vontade de superar os desafios que compartilhavam. Apesar de o nervosismo ter enrubescido o seu rosto, Ronan não se deixou intimidar pelo instinto covarde, e retribuiu o olhar admirado de Anna.

— Pronto? — ela perguntou com uma voz sedosa, mas confiante.

Ronan assentiu com um aceno vagaroso.

De dedos entrelaçados eles viraram a primeira pagina.

Ambos deixaram para trás toda a técnica absorvida durante os meses de pesquisa para ler cada capítulo por inteiro, devagarinho, saboreando cada frase, cada oração, cada palavra. Pouco importava o assunto não ter relevância alguma. Quem se importa que o primeiro rei de Leon fosse um sujeito careca de quarenta anos que adorava garotos de vinte? Tudo se tornou piada para que os dois rissem em conjunto. As horas passaram e o inevitável fim, enfim, os alcançou.

Pois se distraíram ante a ameaça que se aproximava pelas sombras.

Um baque ensurdecedor os fez se abraçarem em sobressaltos. Estudantes, copistas, atendentes e professores ali presentes se viraram para checar a origem do barulho.

— Assustei os pombinhos, é? — Nathalia jogou uma mecha dourada para trás do ouvido. Dois grossos livros repousavam na mesa, segurados pela recém-chegada.

Uma irritada atende se aproximou.

— Com licença, quem você pensa que é para assustar todo mundo desse jeito?

Nathalia não se deixou abalar, puxou a bolsa e mostrou o brasão leonino da família.

— Perdão, juro que não vai se repetir — desculpou-se sem perder a postura.

— Tudo bem. Mas cuidado com esses livros, eles valem uma fortuna, mesmo para gente como você.

Os olhos da recém-chegada semicerraram em birra, mas ela deixou essa passar e voltou-se aos amigos com o sorriso bem humorado de antes.

— Vocês são lindos juntos, sabiam?

— Cala a boca Nat, você me assustou de verdade.

Nathalia se aproximou de onde Anna sentava e começou a brincar com o cabelo dela, que deixou a amargura de lado para perguntar:

— O que você veio fazer aqui? Não me lembro de combinarmos ir para a sua casa.

— Não vim aqui por você minha querida, eu vim falar com o seu queridinho.

Anna virou-se para encará-la.

— Sobre o quê? — perguntou como quem não quer nada.

— Ronan, lembra que tempo atrás eu prometi contar a você o motivo por trás do ódio entre Leonharts e Zeppelis?

— Aquilo não foi uma promessa.

Ou será que foi?

— Não? Tem certeza? — Ela bateu no queixo três vezes com o indicador. — Agora é tarde né, vou te contar de qualquer jeito.

Ronan voltou sua atenção para Anna, mas ela estava absorvida na massagem que Nathalia fazia em seu cabelo.

— Nós já terminamos né?

Ela girou para trás, segurou na mão da amiga e respondeu:

— Sim, terminamos. Vocês podem conversar, deixa que eu guardo os livros.

Nathalia puxou Ronan pelo braço e despediu-se.

— Nós estaremos ali. — E apontou para uma mesa três estantes longe daí.

Anna confirmou com um aceno soturno.

— Tudo bem.


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Autor: Raphael Fiamoncini


 


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