Ronan – Capítulo 68 – Duelos – Parte IV



Os três se viraram juntos. Um era o rapaz que sentou atrás das garotas durante o torneio e contou a elas quem era o misterioso competidor enfrentando Ronan. Ele deu dois passos para frente, e os cumprimentou:

— Olha só… é a turminha do segundo semestre. — O deboche sutil na voz oscilante fez as feições de Dario e Nathalia contraírem.

— Para vocês é “Lorde” Reiner… — ele disse mostrando o prêmio que ganhou do torneio, um florete prateado com o cabo ornado em detalhes minuciosos e circulares.

— Vocês estão bêbados? — Anna arqueou as sobrancelhas.

— Não tanto, só um pouco. — Mas o suficiente para sua entonação oscilar.

Reiner empunhou o seu prêmio e assumiu a posição de guarda alta.

— Bela espada não é mesmo, campeão? — disse apontando a lâmina para Ronan.

— É mesmo.

— Sabe… — Reiner começou. — Se você se empenhar bastante você pode ganhar na próxima vez… Se bem que, talvez não na próxima, pois irei participar já que será meu último ano, mas no próximo você talvez consiga.

Nathalia interveio no papo entre os espadachins.

— Vamos embora! Isso vai nos levar a lugar nenhum.

O quarteto estava para sair quando uma provocação atiçou os nervos da garota.

— Você não é a filha do novo Arquimago? — perguntou o capacho desconhecido de Reiner. — É sim. Você está no segundo semestre, cabelo dourado e olhos azuis. Você é uma Leonhart, não tem erro.

Nathalia parou, virou-se e o encarou com fogo nos olhos.

— Sou eu mesma. Tem algum problema comigo?

Baixando a espada, Reiner se aproximou.

— Se também é de família tradicional, então por que anda com esses pés rapados?

— Porque eles não trapaceiam!

Ele ergueu a espada.

— O que você quer dizer com isso?

— Acha que me engana? Você pode até enganar a multidão e os professores, mas aquela manipulação do vento não passou batido por mim.

— Do que você está falando garota? De onde você tirou isso?

Anna aproximou-se da amiga, para sussurrar no ouvido dela:

— Nat, o que você pensa que está fazendo?

— Vou tirar essa palhaçada a limpo. — Ela virou-se para o grupo.  — Ronan, você perdeu porque ele conjurou uma rajada de vento em seus olhos, discreta o bastante para que ninguém notasse, mas forte o suficiente para ter-lhe cegado.

O garoto fitou seu antigo oponente com pesar e incerteza.

— Isso é verdade?

— É claro que não, vocês não tem como provar nada — Reiner respondeu categórico.

Dario então decidiu se intrometer.

— Mas não é esquisito que você tenha perdido a visão durante o avanço dele?

— É claro que sim, eu senti algo atingir os meus olhos.

Nathalia apontou para o tronco da árvore onde Reiner direcionava sua manipulação até eles chegarem.

— Aposto que sóbrio você consegue disparar uma rajada ainda mais discreta.

Após uma risada debochada, a resposta veio.

— Posso sim, mas isso não quer dizer nada.

— Quer dizer que você é um trapaceiro.

Anna voltou-se para a amiga e tentou persuadi-la:

— Para com isso Nat.

— Deixa ela — Reiner interveio, entretido com a situação.

Nathalia levantou seu punho em desafio.

— Confesse! Admita que trapaceasse para vencer.

— O que eu ganharia com isso?

— A devida punição.

A seriedade na voz de Nathalia assustou os três atrás dela. Ronan permaneceu apreensivo com o desenrolar do conflito. Dario postou-se ao seu lado, apesar da perna machucada, conseguia andar sem grande dificuldade. Vendo seus esforços em persuadir a amiga não servir de nada, Anna decidiu apoiá-la, e disse a si mesma: que eu não me arrependa de confiar nela, por favor.

Os três veteranos deixaram de achar graça naquela brincadeira.

— O que aconteceu é passado, não adianta em nada querer me acusar agora, ainda mais sem provar coisa alguma.

— Se você tem um pingo de vergonha nessa cara horrorosa, pelo menos devolva o prêmio que não te pertence. Sua confissão pode não fazer Ronan voltar ao torneio, mas tenha a decência de compensá-lo de alguma forma.

— Você perdeu a noção Leonhart. Tá querendo arranjar problema? — Reiner brandiu sua espada.

A mão direita dela foi envolvida em chamas.

Deixando a passividade de lado, Ronan pôs-se entre os dois.

— Parem com isso.

— Escute seu amigo, Leonhart, ele parece saber onde está se metendo.

Os olhos de Nathalia pareciam prontos para faiscar em frustração.

— Você vai deixar por isso mesmo? — Ela encarou Ronan. — Depois de tudo que ele fez?

— Brigar aqui não vai me tornar campeão. Baixe essas chamas antes que alguém te veja manipulando algo proibido.

— Então vamos embora, como os bons covardes que somos. — Com o corte da canalização arcana, as chamas se dissiparam no ar, envolvendo o arredor de volta à escuridão.

E sob as chacotas dos três patetas, Ronan, Dario, Nathalia e Anna foram embora sem mais nada a dizer. Rumo as suas respectivas casas.

Caminhando pela rua pontilhada de janelas iluminadas por tochas, velas e lampiões, o jovem garoto ria para si mesmo. A satisfação de vencer mais uma vez não lhe trouxera a mesma gratificação proporcionada por seu primeiro título, conquistado de forma justa. Mesmo assim, tornar-se bicampeão foi uma experiência sublime apesar do custo necessário.

Mesmo ébrio conseguia caminhar com relativa estabilidade. Vez ou outra tropeçava e cambaleava nos paralelepípedos retangulares, resultando em saudações zombeteiras dos guardas do bairro onde morava. Lugar onde mansões imponentes atiçavam inveja aos menos favorecidos que ousassem vislumbrá-las. Em frente a maior delas, recostada no muro de três metros, uma garota o encarava. Alguém que encontrara naquele mesmo dia, horas atrás. O ébrio rapaz não disse nada, apenas se aproximou com um sorriso desenhado em seu rosto, mas ao passar, ouviu as seguintes palavras:

— Eu tinha me esquecido que moramos na mesma rua, “Lorde Reiner”. — O sarcasmo era nítido. — Este título. Você o fez por merecer? Ou num dia qualquer você obrigou seus criados a chamá-lo desse jeito?

— Você deveria dar ouvidos ao seu amigo medroso, senhorita Leonhart.

Os olhos dela percorreram os dois lados da rua. Reiner fez o mesmo. Apenas dois guardas faziam a vigila do lado de fora das propriedades, mas como de costume, uma guarda inteira deveria rondar as residências por dentro de cada uma.

— Ficasse aqui em pé me esperando?

— Sim — ela respondeu com rispidez.

— Mas por quê? Quer me convidar para sair?

— Eu quero isso. — Ela apontou para a espada embainhada e presa em seu cinto.

A mão de Reiner exalou um brilho azulado.

— Vai me ameaçar com suas chamas mais uma vez?

— Não preciso. — Ela sacudiu os ombros.

— Então?

— Eu vou denunciar sua trapaça à Fundação Arcana, ao Arquimago em pessoa.

— Como se ele não tivesse mais o que fazer.

— Ele vive ocupado, isso é verdade, mas sempre abre um espaço para mim.

— Você não tem co…

— Não importa! — Nathalia esbravejou. — Não preciso de provas para ferrar com você. Meu pai é o braço direito do império, enquanto o seu é um mero porta bandeira com uma casa grande.

— Vadia! — vociferou irado.

— Trapaceiro! — retrucou no mesmo tom.

O ressoar das botas metálicas reverberavam pelos altos muros da rua. Dois pares de guardas surgiram para questioná-la:

— Algum problema senhorita?

— Não se preocupem, está tudo bem.

— Então ficaremos aqui por perto, tudo bem para a senhorita?

— É claro. Fiquem a vontade.

O ressoar do metal das grevas foi se afastando. Reiner rangeu os dentes, bufou sua frustração para fora e a encarou com derrota em seu olhar.

— Pega essa merda! — Desengatou a bainha presa no cinto de couro negro. Estendeu o braço e ofereceu a espada. — E não me encha mais o saco, sua vadia de merda.

— Isso não é jeito de falar com uma dama, Lorde Reiner.

— Dama é o meu ovo.

Ele deu meia-volta e iniciou uma rígida marcha até sua casa. Nem fez questão de evitar as poças d’água no meio do caminho. Passando pelos guardas intrometidos, os uniformes deles foram marcados pelos respingos da lama que pisou deliberadamente.

— Vai sujar a sua mãe seu trombadinha de bosta! — os guardas vociferaram em uníssono.


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    Autor: Raphael Fiamoncini



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