Ronan – Capítulo 64 – A Ira da Loba Prateada – Parte II



— Que porra é essa? Eu estou aqui a mando do imperador Alexandre, vocês não podem fazer isso comigo.

— Para falar a verdade, nós podemos — respondeu um recém-chegado.

Aquele rosto era familiar para Ivan, mas era a arma em sua mão que o entregava, um machado de aço com runas talhadas.

— Você! Você é aquele… aquele capacho da vadia que se acha imperadora.

— Disse o homem que idealizou a criação desse império. Para depois traí-lo na primeira oferta de outro imperador.

— Mentira! — esbravejou furioso. — Quem você pensa que é para fazer acusações infundadas?

— Sou Eric Tormensson, Chefe Guerreiro de Lince e líder dos Corvos da Tormenta. — Virou-se para os soldados em pé antes disfarçados como clientes. — Não é mesmo rapazes? — seu brado ecoou retumbante.

Todos os seus companheiros levantaram e o saudaram com urros e batidas ritmadas de suas armas contra as mesas do estabelecimento. Porém, a euforia logo terminou devido à seriedade da missão.

Eric precisava terminar o mais rápido possível, mas também tinha de confirmar algumas suspeitas, então inquiriu:

— Acusações infundadas, você diz, mas esse ai — apontou para Oliver. — Não é líder de um famigerado grupo mercenário que opera nas terras do leste? O mesmo grupo que atacou a comitiva do rei Henrique?

Oliver levantou-se. Até o momento não sentira surpresa ou preocupação com o desenrolar da emboscada, pois confiava em sua lábia e em seus homens, mas perante aquelas acusações, precisava se defender.

— Como você sabe que fomos nós que atacamos? E não outro bando qualquer?

Eric aproximou-se do embaixador.

— Ivar, pode deixar essa fantasia de lado.

— É pra já — disse despindo-se do grosso gibão carmesim.

Ivan bufou com os dentes à mostra e os músculos faciais contraídos em frustração.

— É bom que saiba o que você está fazendo amigo, ou vai pagar caro por essa palhaçada. Espere até Alexandre saber que você está aqui, logo logo essa pocilga vai lotar de gente querendo a sua cabeça.

— Alexandre? Mas que intimidade é essa entre você e o imperador de Leon?

— Oliver! — Ivan chamou num sobressalto. — Vá chamar nossos homens!

Eric se pôs no caminho do líder mercenário.

— Pode parar colega, ninguém te deu permissão para sair.

O mercenário moveu o braço num veloz arco vertical. Um tilintar metálico causado pelo choque da lâmina oculta contra a manopla de Eric ressoou pela estalagem.

— Não me tome por um garoto, seu mercenário de merda!

O líder dos Corvos puxou para si o braço aparado e contra-atacou com uma joelhada no estômago do mercenário. Com um sorriso sádico no rosto, puxou seu machado do cinto bem devagarinho, mas mudou de postura, levantou a arma com uma velocidade espantosa e a desferiu de cima para baixo, abrindo uma fissura no crânio do mercenário cambaleante.

Após um longo suspiro, ele anunciou aos presentes:

— Mais alguém com segundas intenções?

Os soldados rendidos que observaram a cena desviaram o olhar.

— Como ousa matar um de meus homens?

— Ele que começou. — Eric apontou o machado para o cadáver que sangrava em sua frente. — Nós viemos leva-lo à justiça, governador Ivan.

— Era o que me faltava mesmo, vou ser julgado por um tribunal? Você não sabe o quão ridículo suas palavras soam, meu amigo — zombou.

Eric o encarou, Ivan pôde sentir a seriedade do olhar o trespassando.

— Você está certo. Soou ridículo porque eu me expressei mal. Na verdade não iremos lhe levar à justiça, pois nós a trouxemos conosco — disse limpando a lâmina do machado rúnico com a capa do falecido mercenário.

Ivan estremeceu.

— Pare! Você não tem como provar nada.

— Nós não temos, é verdade, mas sabemos que foram vocês dois que planejaram a emboscada à comitiva do rei do sul.

— Se fizer isso, você começará uma guerra!

— Essa guerra já começou meu amigo. Você estava lá quando declaramos, eu, você e todos os presentes naquela maldita conferência. — A ponta gélida do machado encostou-se à ponta quente do nariz de Ivan, que tremia descontrolado. — Eu vou fazer uma pergunta, a sua vida dependerá dela, entendeu?

Ivan confirmou num aceno tremido.

— Por quê?

— E-e-e-eu na-não planejei trair vocês no-no… começo… eu queria ser governador, isso tudo é verdade, mas, mas Alexandre me-me prometeu o governo da, da, das terras d-do sul. Ta-também me avisou que já planejav-va isso há-há um t-tempo.

A seriedade de Eric não se alterou.

— O que mais você sabe que pode servir-me de alguma coisa?

O rosto de Ivan pingava de tanto suor.

— A-a-a-gente não co-conversou mais d-desde então.

Eric suspirou.

— Entendo… mas foram vocês que emboscaram o rei Henrique?

Ivan bufou. O machado de seu algoz ainda encostava em seu rosto.

— Sim… Vou ser decapitado? Ou meu crânio será aberto como o de Oliver?

— Não. — Ivan suspirou em alívio. — Para um rato como você eu tenho algo especial. — A runa da arma brilhou numa tonalidade violeta.

Ivan urrou uma lamúria agoniante. A eletricidade conduzida pela cabeça do machado o fez perder o controle de corpo. A calça umedeceu devido à urina liberada por sua bexiga.

Um cheiro de queimado tomou as narinas dos mais próximos.

Os mais distantes apenas testemunharam a execução, boquiabertos. Mesmo os antigos companheiros de Eric, que lutaram ao seu lado durante as últimas batalhas, fracassaram ao tentarem se familiarizar com a crueldade da manipulação elétrica que o machado possuía.

Ivar se aproximou com cautela até o líder.

— O que faremos com o resto da companhia dele?

Eric guardou o machado e virou-se para respondê-lo.

— Poupem os soldados de Ivan e matem os mercenários contratados por ele.

Ivar repassou a mensagem a seus colegas. Os mercenários dentro da estalagem foram executados em instantes, em seguida, dezenas de corvos partiram em direção à taberna onde o resto do bando de Oliver se hospedou.

Não demorou muito e um breve massacre tomou as ruas da Cidade Livre. Quando a confusão terminou, os clientes da estalagem se levantaram e aplaudiram os rapazes de Lince.

— Que porra é essa, chefe? — o confuso Ivar perguntou.

— Essa “porra”, é a alegria que só a vingança pode trazer meu caro amigo.

Coçando a nuca, respondeu:

— Não entendi é nada.

— É claro que não, o que esperar de um jogador trapaceiro como você?

— Eu já pedi desculpa, então dá pra parar de mencionar isso toda hora?

— Vou pensar no seu caso… ladrãozinho.

Ivar suspirou em desânimo.

Por detrás do balcão onde havia se escondido, o dono do estabelecimento agradeceu:

— Obrigado por trazer um pouco de justiça, senhor Chefe Guerreiro do norte.

Eric virou-se para ele.

— Talvez assim esses vermes de Leon aprendam a nos deixar em paz, não é mesmo camarada?

— Tem toda a razão. Depois que limparmos toda essa… bagunça, a bebida sairá por conta da casa.

— Infelizmente eu e os rapazes não podemos ficar por muito tempo. — Eric sentiu a dor de recusar bebida de graça queimando em seu peito. — Se algum agente do império souber do que aconteceu aqui, nós estamos fudidos.

— É uma pena, uma pena de verdade. Então tenham uma boa viagem rapazes.

— Obrigado pela hospitalidade e perdão pela bagunça que deixamos. Agradeça o governador por mim, se não fosse por ele, nada disso teria acontecido.

E nesse clima amigável, Eric e seus guerreiros saíram da estalagem. Ivar, com a sua boca grande, já tinha algo engatilhado em sua língua:

— Chefe, o que você quis dizer com o governador ter nos ajudado?

Eric retirou um papel amassado do bolso e o estendeu para o subordinado. Ivar pegou a mensagem e a leu para si.

 

Prezado oficial de Lince alocado na cidade de Verdigo. Venho por esta carta lhe repassar uma informação que chegou a mim através de um de seus oficiais, o sargento Daniel da divisão de Cavalaria Leve. Informou-me ele sobre a morte do Rei Henrique durante um ataque noturno a seu acampamento. Suspeita-se que o autor desta barbárie seja um famigerado grupo mercenário que opera na região. Informações coletadas pelo filho sobrevivente do Rei apontam uma conexão direta entre o bando e o atual Governador do Oriente, Ivan. Contou-me também este oficial que protegeu o herdeiro: Patrique Belfort, sobre o destino da comitiva de Ivan: a minha amada cidade.

 

Meus sinceros cumprimentos

Velasquez, Governador da Cidade Livre de Avska.

 

O inexistente hábito de leitura de Ivar fez seu chefe revirar os olhos devido à demora. Quando o braço-direito terminou, ele já tinha algo em mente:

— E agora chefe, como vão ficar os Reinos do Oriente?

— Principados, Ivar, são principados.

— E qual é a diferença?

— Perguntou para a pessoa errada — Eric admitiu. — Agora, sobre como vai ficar a situação por lá, até onde eu sei a imperadora deve estar negociando com os antigos príncipes que perderam suas terras ao acordo proposto por Ivan durante a conferência. Se tudo der certo, um novo governando será apontado e tudo voltará a ser como antes. O problema que me preocupa é a morte do rei, isso sim vai ser uma dor de cabeça de resolver.

— É nesses momentos que eu agradeço ser um simples soldado, não é chefe?

A simplicidade das palavras de Ivar soou infantil, e ao mesmo tempo, tão verdadeira.

Um riso inesperado escapou da boca de Eric.

— Com certeza Ivar, com certeza — ele concluiu bem humorado.


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Autor: Raphael Fiamoncini | Revisora: Marina



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