Ronan – Capítulo 63 – A Ira da Loba Prateada – Parte I



Pela larga e bem conservada estrada de tijolos, a comitiva vinda do oriente se aproximava do portão leste da Cidade Livre. Não fazia muito tempo que o líder da expedição testemunhou aquela paisagem, mas Ivan detestava a disposição circular da muralha, pois desperdiçava um espaço precioso.

Quantas residências, prédios comerciais ou repartições não foram sacrificados para que os limites da cidade formassem um círculo como o vale que a envolvia, quanta frescura, quanta pompa, tudo para nada, Ivan lamentou do alto do seu cavalo.

Ao lado do governador cavalgava Oliver, o líder da companhia mercenária que o ajudou a desbancar o rei do Sul. Para a longa viagem, o sujeito havia guardado seu arco longo no maior dos alforjes de couro preso ao cavalo.

Atrás deles, os trajes brancos da companhia ostentavam o fundo branco e os detalhes vermelhos do Império de Leon, com o grifo estampado no peitoral.

Ivan também trocara suas vestes para viagem, optando por uma camisa branca de botões por baixo de um sobretudo avermelhado como a boina que escondia parte do seu cabelo, ambos ornados por joias esbranquiçadas.

Desperto de seus devaneios, ele perguntou:

— Oliver, vocês perderam quantos homens durante o cerco ao rei Henrique? —

— Sua memória é uma merda. Eu já te falei, foram duzentos na primeira emboscada e quinhentos na segunda. Falando nisso, não sabemos se o filho do miserável ainda respira.

— É muito tarde para ficar se lamentando. Os desgraçados de Lince chegaram a tempo de cagar nosso ataque, mas por sorte, a morte do rei foi confirmada por um dos nossos agentes.

— Tá, mas, e agora?

— Agora nós iremos arranjar uma boa estalagem para passar a noite, ou queres invadir o quarto do embaixador e esperar enquanto ele dorme?

— Quer saber? Uma toupeira é uma companhia melhor que você — disse Oliver em meio a risos.

Acompanhando as risadas, Ivan respondeu a provocação:

— Aposto que uma companhia de toupeiras mercenárias não apanharia contra uma dúzia de camponeses. Mas devo dar o braço a torcer, mesmo levando uma surra das feias, vocês lutaram, e conseguiram cumprir a missão.

— Agradeça aos malditos, sem nenhum bruxo para incomodar, as coisas ficaram mais fáceis para a gente.

A comitiva chegou a seu destino, uma das grandes estalagens do setor leste. Cientes do que precisava ser feito, os cavaleiros amarram seus cavalos nos palanques da lateral do estabelecimento. Os soldados que marcharam à manhã e a tarde inteira permaneceram em pé, sob o sol do fim da tarde.

Acompanhados por três guardas, Ivan e Oliver adentraram no estabelecimento. Um sorriso se formou nos lábios do líder mercenário ao ver as dezenas de clientes, homens e mulheres, se divertindo ao som de uma canção popular tocada por um quarteto.

Tochas e velas foram acessas pelos funcionários, indicando o horário de pico que se aproximava. Ivan adiantou-se e pediu pelo dono da estalagem. Uma senhorita o atendeu e pediu com educação para que ele esperasse um momento, pois iria chamá-lo.

Oliver se aproximou do amigo e sentou no banquinho em frente ao balcão.

— Uma bela espelunca que você arranjou para gente.

— Já vai começar a reclamar?

— De forma alguma. Eu estava elogiando.

— Sua maneira de elogiar… me intriga.

Um murro no balcão assustou os distraídos.

— Cadê a porra do taverneiro? — esbravejou Oliver.

— Me desculpe — respondeu o rapaz que atendia o balcão.

— Traga-me algo para beber, moleque! — disse apontando o indicador para ele.

— É pra já senhor.

Oliver e Ivan se entreolharam.

— Ele nem esperou para saber o que eu queria.

Ivan decidiu se juntar ao amigo e também ocupou um banquinho do balcão. O jovem taverneiro retornou com uma ânfora aberta, transbordando cerveja, e com ela, encheu um dos canecos de cerâmica.

— Quem disse que eu queria essa cerveja aguada? Eu ia pedir vinho, seu imbecil.

O rosto do coitado enrubesceu. O nervosismo cedeu ao terror da incompetência. Ele precisava remediar a situação o quanto antes.

— P-perdão se-senhor, eu trarei um de nossos melhores… po-por conta da-da c-casa.

— Esquece, vou ficar com essa porcaria mesmo, mas não irei pagar, ouviu bem?

— Mas é claro senhor. — Ele tentou disfarçar a frustração de precisar trabalhar a noite inteira para pagar uma ânfora desperdiçada.

Outro cliente chegou e o rapaz foi correndo atendê-lo. Ivan aproximou seu banquinho para ficar mais próximo do líder mercenário.

— Costuma sempre se aproveitar dos novatos?

Oliver gargalhou alto, expondo seus dentes tortos.

— Não tenho culpa de ser mais esperto que a maioria desses imbecis.

— Mais oportunista? Sim, eu até concordo, mas esperto? Ai talvez não.

— Disse o homem que deu as costas aos amiguinhos e fez amizade com o moleque durão do bairro onde mora.

Ivan refletiu sobre a provocação, mas ele não dizia nada além da verdade.

— Talvez o oportunismo seja uma forma de esperteza no fim das contas.

— E você só percebeu isso agora?

Ivan catou um caneco e o encheu de cerveja com a ânfora presenteada ao companheiro mercenário, levantou o recipiente em suas mãos, e saudou:

— Que os espertos se aproveitem dos imbecis.

— Que os espertos se aproveitem dos imbecis — repetiu o líder mercenário brindando à ocasião.

E eles beberam até a senhorita retornar com o dono da estalagem.

Ivan deixou o balcão e aproximou-se do recém-chegado para juntos organizarem a logística da estadia de toda a companhia. Abrindo o diálogo, descobriu que o responsável já havia deixado tudo em ordem.

Havia quartos de sobras para ele e aos oficiais de maior patente.

Os soldados de Ivan passariam a noite no estábulo. Já os homens de Oliver dormiriam numa taverna de quinta categoria, mas ao menos não se preocupariam com o fedor das fezes das dezenas de equinos.

Com tudo encaminhado, Ivan retornou ao balcão onde Oliver terminava o segundo caneco de cerveja.

Ao vê-lo puxar o banco, o mercenário questionou:

— Sobre esse embaixador, quando iremos encontrá-lo?

— Na verdade ele é que virá nos encontrar, afinal, foi ele quem pediu para nos reunir nessa “espelunca”, como você mesmo disse em suas doces palavras.

— Certo, mas você ainda não respondeu, eu perguntei por uma data.

— Ah, é verdade. Pelo horário eu acredito que ele não virá hoje, talvez amanhã durante a manhã.

— Você já o encontrou pessoalmente?

— O embaixador? Não. Eu posso ser um rico mercador, mas eu costumo apenas administrar meus negócios. A última vez que estive por aqui foi durante a conferência, nem planejava voltar assim tão cedo.

Oliver estava para soltar uma nova pergunta, mas foi interrompido quando um senhor se aproximou. Ele vestia um gibão vermelho de veludo carmesim. Assim como Ivan, usava uma boina, mas na tonalidade de suas vestes estapafúrdias, ornadas com rubis das mais diferentes formas.

— Governador Ivan? — perguntou o recém-chegado com uma voz embargada.

— Pois não? — Virou-se para o senhor bem vestido.

— Me chamo Ivaro, prazer em conhecê-lo, sou o embaixador de Leon, aqui, na Cidade Livre.

Cidade “Livre”.

— Mas que agradável surpresa — disse Ivan com um sorriso convidativo. — Não esperávamos por sua visita ainda hoje.

— Quando uma companhia tão grande como a sua chega à Avska, é difícil manter segredo. Falando nisso, eu não pedi para você vir com um grupo pequeno?

— Perdão, mas não me agrada viajar por estas estradas sem um exército para me acompanhar.

— Mas a discrição poderia evitar que as pessoas erradas soubessem de sua visita.

— Concordo, mas ninguém soube, não é mesmo?

— É ai que você se engana!

O embaixador levou a mão à boca e produziu um assubiu estridente. Em segundos, dezenas de clientes se levantam e puxaram espadas, machados de uma mão e maças de guerra.

Os soldados de Ivan e os mercenários de Oliver foram rendidos em instantes, sem chance alguma de reagirem ao levante.


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Autor: Raphael Fiamoncini | Revisora: Marina



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