Ronan – Capítulo 62 – Semana de Estudos



Ronan aproveitou a chegada do fim de semana para treinar esgrima com seu amigo ferreiro. Para a ocasião Ian trouxera dois trajes de couro, leves o suficiente para não atrapalharem os movimentos, mas resistentes o bastante para absorverem o impacto das espadas sem fio.

Por horas a fio os dois praticaram no alto de uma pequena ponte de madeira em forma de arco, parando poucas vezes para saciarem a sede com a água do córrego cristalino fluindo por baixo da madeira marrom escura da estrutura.

Quando enfim não conseguiam mais sequer levantar suas armas, eles pararam e apreciaram a visão do sol que se punha por detrás da silhueta escura da capital, tão pequena e insignificante quando vista de tão longe.

Recostado na mureta de madeira, o ferreiro perguntou:

— Você me disse que tinha feito um amigo naquela escola, ele também decidiu participar do torneio?

— Sim, mas ele não sabe daquilo.

— Então por que não o convidou para treinar conosco?

— Eu convidei, mas ele disse estar ocupado neste fim de semana. Para falar a verdade, eu fiquei aliviado quando ele disse que não poderia vir. Não quero que vejam do que sou capaz.

Ian sorriu.

— Você sempre levou jeito para a coisa. Os ensinamentos do seu pai lhe darão uma vantagem, pode ter certeza.

— Será mesmo? Muitos dos alunos inscritos devem treinar com mestres das armas ou profissionais do tipo.

— Ronan, você aprendeu com um soldado de verdade e não com um dançarino armado, seu pai passou anos em longas campanhas, combatendo todo o tipo de oponente — Ian disse repousando a espada de treino em seu ombro.

— Tomara que esteja certo — Ronan respondeu com um sorriso de satisfação.  — Mudando de assunto, esses trajes de couro, você poderia ganhar uma fortuna com eles, são ótimos para soldados em treinamento.

— Na verdade não fui eu que fiz. Peguei emprestado de um artesão. Eu não faço ideia de como trabalhar o couro. O meu negócio é o metal.

— É verdade. É melhor que cada um se especialize numa coisa. Falando nisso, Como vai a forja, muito ocupada?

— Eu já consegui aprender algumas coisas com aquele livro maluco. As minhas pontas de flechas se tornaram as mais mortais do bairro, tudo graças ao seu presente.

— Fico feliz em saber que pude ajudá-lo de alguma forma.

— Eu não te contei, não é? Eu me inscrevi numa competição de forja, todos os grandes ferreiros da capital vão participar. Essa é a chance perfeita para testar o meu mais novo e ambicioso projeto, o Florete de Leon.

Ronan achou aquele nome um tanto esquisito, mas ficou feliz pela forja do amigo estar decolando, não literalmente, é claro.

Na segunda feira Ronan teve uma agradável surpresa quando Anna o abordou antes de entrar na sala. Ela pediu para que pudessem conversar rapidinho num dos cantos menos abarrotados de calouros. Quando conseguiram um pouco de privacidade, ela começou:

— Quero me desculpar por ter sido grosseira com você na semana passada. Eu me descontrolei um pouco e fiquei frustrada com algumas coisas. — Anna estendeu a mão. — Parceiros de estudos?

Ronan estendeu a sua e eles selaram a parceria num aperto de mãos, mais uma vez.

— Mas eu ainda estou curioso, por que você ficou braba comigo lá na biblioteca? Por que você disse que eu não fiz nada? E por que isso é um problema?

— Escuta… — ela suspirou. — É melhor para nós dois que não falemos mais disso.

— Mas eu preciso saber. Se eu fiz algo que te incomodou, eu posso consertar.

— Ronan! — começou impaciente. — Eu já te pedi desculpas, não me faça ser grosseira com você mais uma vez. Apenas esqueça tudo que eu te falei semana passada. Nunca mais mencione aquilo, pelo menos não para mim, promete?

Com o rosto corado, a voz trêmula e o olhar mirando o chão, ele respondeu:

— Eu prometo.

— Desculpa ter sido grosseira mais uma vez. Por favor, faça isso por mim. — A seriedade no rosto dela deu lugar a um sorriso meigo e um olhar convidativo — Vamos pra aula?

— Vamos, é claro — respondeu aliviado.

Com todos os seus alunos presentes o professor Felix não perdeu tempo. Após largar suas tranqueiras sobre a mesa ele lecionou sobre as formas de como a manipulação arcana pura poderia ser utilizada. Ele mostrou que em sua forma natural e exteriorizada ela adquiria uma propriedade maleável, podendo: solidificar, liquefazer e até gaseificar.

O livro presenteado aos alunos demonstrava algumas formas criativas de aproveitar essa flexibilidade, o usuário poderia solidificá-la para criar um escudo, liquefazê-la para tornar uma superfície escorregadia e gaseificá-la para criar uma cortina de fumaça.

Uma nota de rodapé assinalava que tamanho domínio era comumente alcançado pelos magos do nível Sábio na Fundação Arcana. Todos os alunos que leram aquele trecho foram tomados por um sentimento de futilidade, que os fez repensar por um momento suas carreiras de manipuladores.

Exceto Nathalia e Ronan, que tomaram aquele aviso como um desafio pessoal.

Na terça-feira, durante a aula de Manipulação Defensiva, os alunos sob a tutela do professor Felix foram aperfeiçoar seus escudo de ar em um dos campos do Centro de Práticas Arcanas.

Dario, como o bom manipulador do vento que era, já conseguia projetar a barreira com precisão, superando por pouco a sua rival de olhos azuis.

Nathalia permanecia a poucos metros. Ela o encarou com curiosidade, até um sorriso malicioso transparecer.

Dario ficou confuso, e percebeu tarde demais o sinal silencioso.

Nathalia levantou os dois braços e rapidamente conjurou uma rajada concentrada contra o colega.

Dario conseguiu formar um escudo improvisado, mas não foi o bastante para conter a conjuração da garota.

Foi como uma marreta acertando uma caixa de madeira. Dario voou dois metros para trás, fazendo Nathalia gargalhar a ponto dela se ajoelhar no chão com uma mão na barriga e outra na boca, tentando abafar suas risadas descontroladas.

A turma se divertiu com a brincadeira, até o professor irromper.

— O que eu avisei no primeiro dia? Eu não quero ver vocês mirando em seus colegas! Os dois gostariam de ficar mais uma semana suspensos?

Levantando-se e recuperando a postura, Nathalia se justificou:

— Desculpa professor. É que o Dario queria testar a força da sua barreira. — Ela virou-se para ele — Não é verdade? — E piscou de um olho.

— É verdade — ele respondeu já de pé. — Eu queria testar o quanto meu escudo conseguia aguentar, parece que preciso treinar mais.

Com os olhos exprimidos, o professor os encarou por demorados segundos.

— Tá certo! Mas de qualquer forma eu não quero que isso se repita. — Ele inspirou antes de levantar a voz. — Pessoal. Mesmo que um colega peça para ser alvo de alguma conjuração, eu os proíbo, sobre qualquer circunstância, me ouviram?

Em uníssono a turma A-102 respondeu:

— Sim professor…

—… Morto vivo. — Jonas deixou escapar. E encolhido de vergonha, ele já se adiantou:  — Tchau pessoal, até amanhã.

— Você estará suspenso amanhã também, Jonas Brando.

— Então… até depois de amanhã.

O restante da turma se despediu do colega suspenso e retornaram a praticar suas barreiras. Entre uma conversa e outra Ronan pôde ouvir os seus colegas reclamando da aula de Criação de Runas. Todos permaneciam aflitos com a possibilidade de terem que aturar aquele professor mais uma vez.

A quinta-feira tornou-se um dia maldito, mas nem tanto para Ronan.

Indignados, mas motivados pelas chamas da justiça, Dario e Nathalia abordaram cada um dos colegas para persuadi-los a se revoltarem contra Ronaldo.

O medo que todos nutriam por ele precisava se converter em ressentimento, para uma ânsia por justiça, para um ímpeto de desobediência contra as exigências descabíveis dele, mas principalmente: a uma cólera capaz de retribuir suas injustiças.

Como quem não queria nada, Dario e Nathalia iam e vinham pelo gramado abordando cada aluno treinando sozinho, intrometendo-se em cada grupo de estudantes e espalhando suas insatisfações com Ronaldo até um sentimento de revolta unir toda a turma da sala A-102.

Apesar do movimento insurgente encabeçado por Dario e Nathalia, o restante da semana correu sobre relativa paz.

Na quarta-feira o professor e ex-general Fernando Valadar levou os seus alunos até o Centro de Práticas, onde prometeu ensiná-los como exteriorizar a energia arcana em sua forma pura.

Após uma aula teórica com o professor Felix na segunda-feira, a turma prestou atenção nas instruções dadas.

Os mais perceptivos relembraram de como a manipulação a ser ensinada poderia ser útil, e além de tudo, poderosa quando conjuradas pelas mãos certas.

As instruções foram repassadas e Ronan concluiu que a manifestação da energia arcana não divergia muito da manipulação do vento. Em certo ponto eram iguais, mas para esta aula eles parariam na concentração. Não era necessário sincronizar a energia manifestada com algum elemento. Em contrapartida, a dificuldade residia na forma que ela se manifestaria, para isso, faz-se necessário uma concentração muito maior comparada à sincronização do vento, pois apenas assim a energia acumulada poderia manifestar-se de forma visível, geralmente num tom azulado e fantasmagórico.

Antes de deixar seus alunos praticarem, o professor pediu para cada um fazer uma conjuração simples para medir a proficiência de cada um. Ronan foi chamado por primeiro. Apesar de nervoso, conjurou uma barreira de vento, não era muita coisa, mas ao menos ele a manifestou num estágio satisfatório.

— Muito bom — concluiu o professor tomando notas na prancheta em mãos.

Fernando Valadar continuou o teste, os próximos conjuraram a mesma barreira, talvez por receio de demonstrarem inferioridade. Quando chegou sua vez Dário, ele não se conteve e conjurou uma barreira esférica girando ao seu redor.

Todos o observaram boquiaberto, apesar de já testemunharem algumas das suas demonstrações de poder, essa fora à primeira vez que contemplaram uma manipulação tão refinada vindo de um aluno.

Quando chegou a vez de Nathalia, todos se reuniram mais uma vez. A expectativa era grande, podia-se notar pelos olhos arregalados, bocas abertas e respirações profundas.

Nathalia Leonhart ajeitou o cabelo e jogou uma mecha para frente do ombro. Em seguida, ergueu uma mão e conjurou a mesma barreira côncava que todos fizeram antes dela, exceto Dario.

A decepção evaporou a expectativa nutrida por todos.

— Muito bom… muito bom. — Aplaudiu o professor. — Eu calculo então que levaremos uns três meses para que todos consigam exteriorizar a energia arcana de forma medíocre. Talvez leve o resto do semestre para conseguirem manipular alguma coisa com ela.

Tudo isso para talvez aprendermos algo útil? Impossível, pensou Ronan enquanto o resto da turma se entreolhava em espanto. Ele virou-se para Dario, e perguntou:

— Ouviu isso?

— É claro. Mas o que você esperava? Aprender a manipular o vento é apenas o começo. Daqui pra frente a dificuldade só irá aumentar.

Ronan não queria admitir a verdade. Depois de tudo que passou para manipular o vento, o que seria necessário para fazer o mesmo com chamas? Como Nathalia já conseguia? Estas perguntas latejavam em sua cabeça. Seu olhar foi à garota do cabelo dourado para admirar tamanha beleza, genialidade e poder.

Na temida aula de quinta-feira, dentro da Oficina de Criação, o professor Ronaldo fez a turma repetir a atividade da semana passada. Durante toda a manhã os alunos trabalharam com os cubos de madeira. Talhando neles o padrão da runa exposta no quadro, para em seguida, imbuí-los de energia enquanto torciam para tudo dar certo.

Mas o detestável estouro se repetiu inúmeras vezes, anunciando o fracasso em alto e bom tom. Sobre o olhar inquisitivo e comentários sádicos do professor, os alunos repetiram o processo à exaustão.

— Quantos bosques precisam cair para que vocês aprendam essa maldita runa? Heim? — Ronaldo esbravejou de frente à Karen, que quase chorou devido à pressão. — Ao menos tentem aprender com os erros, e não o repitam! — Ele virou-se para Jonas. — Você chama isso de runa? Isso me parece um retrato da sua cara, senhor Brando. — Jonas terminava sua nova runa na última das seis faces não queimadas pelo fracasso.

O professor a arrancou de suas mãos. Caminhou a passos largos até o caixote, tirou um novo cubo lá de dentro e o arremessou contra o seu aluno, assustando aqueles próximos da trajetória do bloco voador. Por sorte, Jonas conseguiu pegá-lo com as duas mãos.

Suspiros de alívio tomaram a sala da oficina até serem massacrados quando Karen soltou um grito ao ver o cubo manchado de sangue pelos ferimentos abertos nas mãos do rapaz, que entre caretas aguentava a dor para si.


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Autor: Raphael Fiamoncini | Revisora: Marina



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