Ronan – Capítulo 61 – História Arcana – Parte II



Após o escândalo da manhã, a professora Catarina Grivaldo desculpou-se com Nathalia por não tê-la ajudado quando a turma a repreendia.

As desculpas foram aceitas e a professora implorou para que ela comparecesse à aula da tarde. Ainda ressentida, Nathalia confirmou a presença e Catarina despediu-se.

Após ela irromper aos prantos para fora da sala, Anna e Karen a encontraram no pátio de trás da universidade, e após ouvirem a amiga desabafar, as duas levaram-na para perto de uma árvore de folhagem abundante que impedia o sol escaldante de atingi-las.

Karen sentou-se em um dos banquinhos de frente à árvore e em seu colo repousou a cabeça de Nathalia. Já Anna preferiu ficar em pé de frente a elas.

— Nat, você vai pra aula da tarde né? — Karen perguntou. — Fiquei sabendo que já arrumaram a bancada — disse relembrando das chamas consumindo a madeira.

— Acho que vou, mas vai ser um clima de bosta quando entrar por aquela porta.

— Lava essa boca, amiga.

— Como se você não soltasse uns palavrões de vez em quando, né Anna?

Ela sorriu.

— Ficaram sabendo? O Dario deu o maior esporro na professora depois que a gente saiu.

— É a cara dele, sempre que vê uma oportunidade ele faz alguma palhaçada. — disse Karen brincando com o cabelo loiro da amiga.

Essas palavras colocaram Nathalia para refletir.

— A aula já vai começar, vamos indo? — Anna perguntou.

— Vamos — respondeu Karen, já se levantando.

— Podem ir. Eu preciso reunir coragem para entrar lá. Depois de tudo que aconteceu…

— Só não vai demorar muito ouviu? Quanto mais você pensar, mais hesitará.

— Tá bom mãe. Eu prometo — Nathalia respondeu com um sorriso.

Juntas, Anna e Karen cruzaram o pátio em direção ao Prédio A.

Nathalia enfim estava sozinha, pôde finalmente parar de fingir estar bem. Inundada pela tristeza ela rendeu-se aos prantos. Por minutos a fio ela chorou, pôs para fora tudo que sentia, até alguém se intrometer.

— O que lhe aflige Leonhart?

Nathalia desenterrou o rosto das mãos e vislumbrou com os olhos marejados o cabelo castanho e ondulado do garoto metido.

— O que você quer Zeppeli? — sua voz saiu chorosa

— Não precisa ficar me chamando pelo sobrenome.

Ela enxugou seus olhos com a manga do casaco.

— Mas foi você quem me chamou pelo sobrenome primeiro.

— É verdade, acho que eu deveria dar o exemplo, não é mesmo?

Ignorando o comentário ela perguntou:

— O que você quer?

— Escutei seus lamentos de longe e decidi ver o que estaria perturbando você… — Respirou fundo, engoliu seu orgulho e tomou a iniciativa. — Na-tha-lia.

Ela o encarou por um tempo, mas a seriedade sumiu do rosto quando um riso contido escapou de seus lábios. Acanhado, Dario se rendeu e ambos riram num lampejo inocente enquanto ao longe os alunos retornavam para as salas.

Quando eles terminaram, Dario largou sua bolsa no banco onde ela sentava.

— Eu não gosto do seu pai, ou da sua família em geral, mas é injusto querer descontar nossa raiva em você, por mais Leonhart que seja, por mais parecida que seja com ele e por mais que seu cabelo seja dourado, loiro, amarelo, sei lá…

Nathalia apertou as coxas com suas mãos, e olhando para o chão, agradeceu:

— Obrigada, Dario. — Não achou tão difícil falar o nome. — Me contaram que você deu uma bronca na professora, sou grata por isso.

Ele sentiu que deveria sentar-se no banco.

— Mas é claro. A professora ficou quieta enquanto a turma fazia a maior bagunça. Por um minuto eu achei que a sala iria pegar fogo. Ela não fez absolutamente nada!

Nathalia mirou seu olhar nos olhos dele.

— Eu não me importo com a professora, não muito. O que me incomoda é meu pai. Desde pequena eu tentava descobrir qual era o trabalho dele. Perguntava para minha mãe, para o Joff, pras visitas, pros guardas, para os soldados, para quem quer que fosse. Tudo que me falavam eram variações de “ele é um aristocrata muito importante e serve o imperador como sua mão direita”. E foi então que eu descobri o que significa ser um aristocrata. Aprendi que estávamos acima dos outros, e até hoje eu sinto esse peso em minhas costas.

Dario empurrou sua bolsa largada no banco e sentou-se no espaço aberto. Olhando nos olhos dela ele disse a verdade:

— Ninguém vai se importar com essa sua história, por mais triste que seja. Se você quer ser respeitada, deve fazer por merecer. Seu pai pode ser um desgraçado, as pessoas podem querer descontar o ódio em você, mas você precisa lembrar que eles estão errados e é o seu dever mostrar a verdade a eles.

Nathalia o encarou com o cenho franzido.

— Nossa! Você é um mestre na arte de consolar garotas.

— Não estou te consolando. Você precisa ouvir a verdade. A Anna pode ser uma boa amiga. Ela é alguém que diz a verdade na sua cara de vez em quando. Em contrapartida, aquela de cabelos negros costuma dizer o que você quer ouvir, mesmo quando você acusa alguém inocente de algo que não fez.

Nathalia sentiu seu orgulho despedaçar, aquelas palavras arderam em seu peito, queimando as ilusões que alimentava. Uma última lágrima escorreu em seu rosto e quando caiu de seu queixo, ela aparou a queda da gota com o dedo indicador.

— Obrigada — ela agradeceu olhando para o dedo umedecido, que brilhou quando um raio luminoso trespassou a folhagem da árvore e atingiu sua mão.


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Autor: Raphael Fiamoncini | Revisora: Marina



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