Ronan – Capítulo 56 – A Primeira Semana – Parte I



Uma turba de alunos dos mais variados semestres se aglomerava em frente ao mural de avisos da universidade. A presença masculina era massiva.

As pouquíssimas garotas foram relegadas aos cantos para não serem acotoveladas pelos garotos mais entusiasmados, que fixavam seus olhares em um cartaz se destacando entre os demais atarraxados no quadro cujas bordas eram vermelhas.

Aquele cobiçado cartaz anunciava um dos maiores eventos sediado pela instituição: o Torneio de Esgrima, uma disputa oficial entre alunos, organizada pelo Clube Esgrima para o começo do próximo mês.

Se apertando em meio à aglomeração de curiosos, Ronan virou-se para o amigo e perguntou:

— Vamos participar?

Incrédulo, Dario o encarou.

— Tá louco? Essa é uma competição para almofadinhas. Só filhinhos de papai que treinaram com professores particulares vão participar dessa palhaçada.

Mas Ronan sabia como persuadi-lo.

— Mas você não é o campeão da humildade? Não seria uma oportunidade de ouro para mostrar o caminho da modéstia aos filhinhos de papai?

Dario levou a mão à face e coçou o queixo numa reflexão prolongada.

— É… você tem razão! — respondeu sorridente. — mas onde fazemos a inscrição?

— Na sala do Clube de Esgrima.

— Vamos lá? — Dario já havia se empolgado.

Ronan estremeceu, pois seu segredo poderia estar prestes a ser revelado caso não fizesse alguma coisa. Poucos segundos foram gastos para formular a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Entre pausas, ele respondeu:

— É que. Bem. Eu já, me inscrevi.

Dario o encarou com os olhos entreabertos.

— É mesmo é?

Confirmou com um aceno, mas ele não tinha acabado.

— Não tem problema, você pode me acompanhar pelo menos.

O coração disparou. Ronan engoliu o nervosismo e tentou se justificar:

— Eu… tenho… que… falar com a Anna!

— É mesmo? — Dario indagou satisfeito. — Pode ser então. Eu espero aqui.

Ronan ficou confuso com a resposta. Como assim ele me espera aqui? A Anna nem deve ter chegado ainda.

Mas percebeu o plano dele quando uma voz feminina se anunciou por trás de si:

— Olá rapazes. Prontos para o segundo semestre?

Seu coração quase parou. A desculpinha estava para ser comprometida. Precisava improvisar algo ou Dario poderia descobrir seu treinamento ultrassecreto.

— Caralho Anna, você quis me matar do coração? — Tentou ganhar tempo.

— Nossa! Desculpa se eu te assustei.

— Ele tinha acabado de mencionar o seu nome — Dario o denunciou. — Ele precisa falar com você.

Um sorriso de animação contagiou Anna, que se virou para Ronan, e perguntou:

— É mesmo? Sobre o que você quer falar comigo?

Ele suou frio. As palpitações aceleradas agora também batiam com mais intensidade.

— É… sobre… — ruminou tentando ganhar tempo — nossa pesquisa!

— Que ótimo! Eu também precisava falar com você sobre isso.

            Obrigado Anna por tudo que é de mais valioso nesse mundo que sua felicidade nunca acabe e que você conquiste todos os seus sonhos, Ronan agradeceu a obra do destino.

— Vou fazer minha inscrição, vejo vocês na sala — Dario se despediu.

Anna ficou intrigada com a situação, mas Ronan explicou sobre o torneio agendado para o próximo mês enquanto ambos subiam as escadas.

Por fim chegaram à sala A-102 e contemplaram o novo ambiente, tão semelhante ao antigo, mas virado para o outro lado.

As mesmas três colunas de bancadas eram sucedidas por quatro fileiras separadas em níveis de altura crescentes ao se afastarem da mesa do professor. Alguns alunos haviam se espalhado pelos assentos disponíveis.

Ronan optou por ocupar o local equivalente ao escolhido no semestre passado. Caminhou em direção à coluna do meio, subiu os níveis e largou sua mochila na penúltima bancada, mas escolheu o assento do meio, roubando o lugar de Dario.

Quando se sentou, surpreendeu-se ao ver que Anna o seguira e optara pelo lugar do meio da bancada em frente a sua.

Ela o cumprimentou com um sorriso:

— Olá vizinho.

O garoto ficou acanhado, mas retribuiu a brincadeira.

— Olá vizinha da frente.

— Então Ronan… sobre o que você queria falar comigo?

Por sorte já tinha pensado em algo durante o caminho até a sala.

— Vamos continuar pesquisando sobre os mistérios da manipulação curativa?

Anna tentou esconder seu entusiasmo.

— Mas é o começo do semestre, você não se importa? Suas notas podem cair e…

— Não se nos reunirmos duas vezes por semana em vez de todos os dias.

— Fechado. — Anna estendeu a mão. — Parceiros de estudos?

Ronan estendeu a sua e os dois se cumprimentaram num aperto de mãos.

— Parceiro de estudos — disse com suas bochechas um tanto quentes.

Anna levou seu dedo indicador aos lábios e fitou o teto, pensativa.

— Terça e quinta?

— Terça e quinta — confirmou os dias sugeridos.

Não levou muito tempo para Dario entrar na sala. Ele observou o ambiente e olhou para Ronan com insatisfação exalando entre suas expirações prolongadas, subiu os níveis num passo apressado e sentou do lado direito do “amigo”.

— Vai ficar me devendo uma.

— Vou nada, você que quis se inscrever no primeiro dia. Poderia ter escolhido qualquer outro dessa semana.

Dario se deu por vencido e cedeu seu lugar a Ronan.

Os dois observaram a sala ir enchendo aos poucos. Jonas e César chegaram juntos e sentaram na última fileira da coluna do meio, ficando atrás de Ronan e Dario.

Os quatro amigos se juntaram e conversaram sobre o que fizeram durante o mês de recesso, Dario havia ajudado na pesquisa do pai, Jonas tocou a padaria da família, e César preferiu nem comentar. Quando chegou a vez de Ronan, ele apenas disse:

— Passei as tardes aqui na biblioteca.

Dario se adiantou, esticou a cabeça e tentou falar baixinho:

— Estudando juntinho da Anna.

Todos ali abafaram o riso.

Ronan teve vontade de se esconder embaixo da bancada. Sua face ficou vermelha como um pimentão, mas não disse nada tamanha à vergonha sentida.

— Algum problema rapazes? — Anna perguntou virando-se para trás, afinal, Dario era péssimo em fazer suas brincadeiras em voz baixa.

Os três se calaram e desviaram os olhares envergonhados e constrangidos. Ela olhou para a face enrubescida de Ronan, mas não disse nada, apenas sorriu e voltou para frente, retornando para as suas anotações no caderno.

Os quatro rapazes ficaram quietos até Ronan decidir quebrar o gelo.

— Foi nesta sala que fomos interrogados pelos Procuradores do Império após o incidente entre você e a Nathalia — contou em voz baixa para o amigo. — Parecia maior naquele dia.

— Já faz meses — Dario respondeu cabisbaixo.

— Relembrando o passado, vovô Zeppeli? — zombou uma voz feminina.

Dario levantou a cabeça para ver a recém-chegada.

— Olha só… é a filha do novo Arquimago.

Nathalia deu um passo para trás, hesitou, ignorou o comentário e sentou-se ao lado direito de Anna, permanecendo atrás do rival. Os dois garotos notaram a reação esquisita dela. Ronan esticou a cabeça para sussurrar no ouvido do vizinho.

— Acho que ela não gostou do seu comentário.

— Não me diga?

— Deixa de brincadeira. Eu estou falando sério, não faça mais isso.

Dario franziu o cenho e semicerrou os olhos, não sabia se deveria levar a sério, mas por fim, anuiu com um aceno. Ronan tirou de sua mochila um folheto, com ele em mãos, observou as disciplinas do segundo semestre mais uma vez.

— Viu as matérias que teremos?

— Dei uma olhada em casa, por quê?

— Teremos duas matérias de manipulação, finalmente vamos nos aprofundar de verdade — O entusiasmo era nítido em sua voz.

— Manipulação ofensiva e defensiva, não é?

— Exato! Espero que não fiquemos presos na conjuração do vento mais uma vez. — Algo veio a sua mente. — Dario, você sabe alguma outra conjuração?

— Sei sim, mas é segredo.

Ronan perdeu minutos da sua vida tentando fazê-lo revelar sua manipulação secreta. Todos sabiam que Dario era um excelente manipulador do vento, mas nunca o viram conjurando nada diferente. Ao contrário de Nathalia, que já havia demonstrado seu controle sobre as chamas, vento e até sangue, mas apenas ela, Anna, o pai de Anna e os envolvidos no acidente, sabiam sobre sua outra manipulação.

A porta da sala foi aberta e o professor adentrou.

A turma inteira se levantou para aplaudi-lo, alguns mais animados até urravam de animação. Com sua longa capa e cachecol negro, o professor Felix estacou imóvel enquanto era saudado com tanta alegria. Sua expressão impassível não se alterou, mas isso não impediu os alunos da sala A-102 de comemorarem.

A turma nem gostava tanto assim do professor morto-vivo, pois era serio demais e se vestia de forma exagerada, mas deixá-lo desconfortável era um passatempo para a nova geração de manipuladores.

Por outro lado, com o passar do tempo, graças ao prolongado convívio com aquelas criaturas, Felix aprendeu que repreender seus alunos apenas atiçava as chamas em suas almas, por isso adotou a metodologia de ignorar e seguir em diante.

O estrondo dos inúmeros livros e cadernos do professor sendo largados na mesa fez um sentimento nostálgico inundar os alunos, que relembraram do semestre passado como um vovô relembra sua infância.

Felix não demorou a iniciar um dos seus tradicionais monólogos.

— Fico moderadamente feliz por essa recepção acalorada. Alguns de vocês podem estar surpresos por me verem mais uma vez. Eu particularmente não esperava lecionar duas matérias para este semestre. Imaginava apenas dar continuidade à matéria introdutória aos Estudos Arcanos do semestre passado. Portando, nas segundas-feiras como esta, virei lecionar: Estudos Arcanos I. Enquanto nas terças, eu darei aula de: Manipulação Defensiva I, a primeira disciplina onde mostrarei algumas conjurações, como barreiras e afins.

A turma se animou com as palavras do professor. Ronan, em particular, mal pôde segurar sua empolgação. Dario chegou perto dele e disse em voz baixa:

— Não crie tanta expectativa.

Mas Ronan já tinha um contra-argumento engatilhado.

— Mas nós teremos Criação de Runas e mais uma aula de História com a professora Grivaldo. Esse pode ser o melhor semestre. Você também deveria estar animado.

Dario percebeu que ele dizia a verdade e permitiu-se criar um pouco de expectativa com as aulas por vir. Os dois voltaram sua atenção ao monólogo do professor, que ainda se arrastava.

— Peço também que vocês se comportem. Espero que tenham aprendido alguma coisa com os incidentes do semestre passado. Não quero ver ninguém disparando uma manipulação contra o colega ou perdendo a calma e conjurando algo proibido.

A esmagadora maioria da turma encarou de forma descarada tanto Dario quanto Nathalia, incluindo o próprio professor, que concluiu:

— Espero que as carapuças tenha servido a quem deveria.

Felix voltou para sua mesa e num esforço inútil tentou organizar aquela bagunça. Revirou suas tralhas e puxou um caderno de capa azul-marinho, abriu ele e o folheou até encontrar o que procurava: o plano de aula.

— É isso mesmo — murmurou baixinho. — Como as aulas de segunda são reservadas à disciplina de Estudos Arcanos I, nós desvendaremos alguns conceitos utilizados nas matérias de manipulação da terça, que vocês têm comigo; e quarta, com o professor… — ruminou até lembrar o nome do respectivo professor. —… Fernando, Fernando Valadar!

Desde então, por uma hora o professor repetiu prolixamente tudo que já havia ensinado: como a energia arcana reagia; como manipulá-la; como se concentrar e como sincronizar. Terminado a breve revisão ele abordou o novo assunto, o conceito da manipulação da energia arcana pura, sem sincronização externa.

— A manipulação do ar, como vista no semestre passado. É a mais simples de alcançar. O ar nos envolve a todo o momento. Nossa respiração é uma fonte de sincronização fácil para a energia arcana, que aprendemos a manifestar pela simples concentração. Mas para manipularmos em sua forma bruta, precisamos elevar nossa concentração a um nível ainda maior. Além do mais, é necessário conseguir visualizar o resultado de forma nítida. Uma vez que aprendam a manifestá-la fisicamente, vocês se tornarão manipuladores de verdade, pois a maleabilidade dessa energia é grande e as possibilidades… beiram ao infinito.

Assim como no semestre passado, a turma acabou se perdendo com tanta exposição. A explicação soava abstrata demais, mas parte da turma lembrou que teriam as aulas de manipulação para aprenderem tudo na prática, com mais calma.

O professor foi a sua mesa mais vez, empilhou uma dúzia de livros em seus braços e distribuiu-os para a primeira fileira. Pegou mais um montante e pediu para os que já receberam repassarem para os de trás, Felix repetiu o processo mais duas vezes, até todos da última fileira terem um exemplar em mãos.

Levantando sua cópia para que todos pudessem ver, ele começou:

— Este é um excelente livro introdutório à manipulação arcana em seu estado puro. Espero que cuidem dele como se fosse de vocês, pois a partir de agora, eles são. Considerem isso um presente por passarem de semestre. Caso percam ou rasurem, vocês terão de pagar por uma cópia nova.

Ronan contemplou seu presente, estava maravilhado como o restante da turma, o título: Lições da Manipulação Arcana; foi bordado com fios dourados na parte superior da capa de couro.

O professor deixou a turma se familiarizar com os presentes por algum tempo. Quando julgou suficiente, chamou a atenção da turma para dar inicio à aula. Pelo resto da manhã ele fez uma revisão mais ampla sobre o que já foi ensinado no semestre passado.

Para o período da tarde o professor abordou um conceito mais avançado da manipulação. Mostrou aos seus alunos como a canalização dessa energia misteriosa acontece ou como os sábios acreditavam acontecer.

Com muito esforço Ronan decifrava os garranchos e anotava as observações feitas no quadro pelo professor.

Apesar de ser um conteúdo um tanto teórico, o seu entendimento poderia ajudar quem buscava uma manipulação mais eficiente. O restante da aula da tarde continuou tão maçante quanto.

Conceitos eram cuspidos a cada minuto, seguidos de explicações rebuscadas demais para a turma entender de primeira, necessitando de um aprofundamento didático logo em seguida.

Tudo isso na primeira aula do segundo semestre.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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