Ronan – Capítulo 53 – O Rei do Sul – Parte III



Após outra longa e cansativa marcha, a comitiva acampou mais uma vez. Da cidade do oriente até ali o caminho foi generoso, não toparam com nenhuma trilha estreita e rochosa, em vez disso, uma larga e regular estrada de chão batido fez as carroças se moverem como nuvens empurradas por um vento inofensivo.

No alto de uma pequena elevação as barracas dos oficiais eram iluminadas pelas inúmeras fogueiras acesas, onde soldados cozinhavam seus jantares racionados enquanto entoavam canções da terra natal.

Patrique passava o tempo com seus novos amigos. Havia criado uma daquelas amizades que o mantinha com o pé no chão. Agora, sempre que conversava por um longo período de tempo sobre assuntos rebuscados com figuras elegantes, ele logo em seguida procurava o sargento Daniel para debater sobre as amenidades da vida, como os dias no campo, as longas secas e as belas damas que encontravam em suas viagens.

Ao redor da fogueira os rapazes conversavam superficialmente sobre a união dos reinos, fantasiando sobre a prosperidade que magicamente os tirariam da pobreza em que viviam. Uma pergunta foi levantada, vinda de um soldado sem alguns dentes.

— Mas como é que tudo isso ai vai deixar nós rico?

Patrique sofreu um baque emocional em seu peito, sentiu-se obrigado a desiludir o coitado.

— Não é bem assim que funciona pessoal. Essa unificação não vai trazer riquezas assim do dia pra noite. E mesmo que trouxesse, levaria alguns anos para alcançar a vila e as cidades onde vocês moram. E não há garantia alguma de que as coisas vão melhorar de verdade.

A felicidade se dissipou da face dos rapazes, fazendo Patrique se arrepender de acabar com as ilusões. No fim das contas, os coitados viviam para servir gente com ele, para morrer em suas batalhas e defender as suas convicções pueris. O mínimo que poderia fazer era deixá-los fantasiar com um mundo melhor, por mais sádico que parecesse.

Patrique partiu em silêncio, Daniel e seus homens o viram desaparecer em meio à escuridão. O clima não melhorou muito desde então. A infelicidade da realidade ainda abalava os pensamentos dos camponeses desiludidos.

Daniel também se levantou. Decidiu ver o que tinha acontecido com Patrique, mas no fim das contas, nem precisou se dar ao trabalho. Ele já voltava carregando um barril em seus braços.

Os olhos dos rapazes se arregalaram em expectativa.

Patrique soltou o volume no chão e suspirou aliviado antes de anunciar:

— Vocês podem não viver em castelos, mas podem encher a cara a vontade essa noite.

O ressoar de berros e palmas tomaram as proximidades. O espalhafatoso bando de Daniel acabou atraindo os olhares reprovadores, mas invejosos, dos colegas soldados mais próximos.

Quando a euforia chegou ao fim o sargento adentrou em sua barraca e retornou dela trazendo em seus braços uma pilha de canecos de madeira, que logo foram distribuídos entre seus subordinados.

Enquanto isso Patrique deitou o barril na mesa. Dois soldados se aproximaram e colocaram suportes de madeira ao lado do barril para que ele não rolasse. Patrique abriu um furo circular numa das extremidades e foi servindo os rapazes um por um. Quando terminou a primeira rodada, ele tapou o buraco com a rolha que lhe foi entregue.

— Assim que terminarem o primeiro caneco, fiquem à vontade para repetirem o quanto quiserem — anunciou para a empolgação de todos.

Daniel e seus homens curvaram-se perante ele. Patrique sentiu-se lisonjeado pela brincadeira.

— Que é isso rapazes, é só um barril de cerveja, não é pra tanto — disse em meio a risadas, feliz por reavivar as chamas do bom humor.

— Estive te procurando por um tempo… Patrique Belfort — disse uma voz conhecida, zangada, vinda de trás.

Patrique virou-se e estarreceu surpreso ao ver o pai acompanhado por dois cavaleiros. Todos preocupados.

— Fomos seguidos durante a viagem. Já ordenei os rapazes a se armarem sem fazerem barulho. Podemos já estar cercados, mas eles não saberão que estamos nos preparando.

Não demorou a Patrique notar que ao seu redor as unidades se armavam enquanto alguns corriam e espalhavam o aviso pelo acampamento. Ninguém berrava ordens ou gritava em desespero, mas apostaria toda a riqueza do mundo que eles sentiam o terror os corroer por dentro.

Daniel se adiantou e ordenou os rapazes a se arrumarem.

— Mais alguma coisa papai? — Patrique inquiriu sarcástico.

Henrique deu as costas para o filho e voltou por de onde veio. Mais cavaleiros juntavam-se ao rei conforme ele ordenava comandos de maneira incisiva, mas com uma calma destoante comparada a sua impaciência perante as coisas fúteis.

O relativo silêncio foi quebrado quando pontilhados amarelos e bruxuleantes cortaram o céu estrelado para descerem e alvejar o tecido das tendas e barracas erguidas nas imediações.

— Flechas incendiárias! — o sentinela berrou o óbvio do alto do seu posto de observação.

O desespero contido deu espaço ao terror exteriorizado. Soldados correram pelo acampamento como formigas em um formigueiro pisoteado. Oficiais berraram comandos aos subalternos, reunindo a defesa já preparada graças à antecipação planejada do rei. Um retumbar sísmico fez-se ouvir, atiçando o medo e a angústia dos defensores.

Era o estrondo conhecido de um avanço de cavalaria.

Os corredores do acampamento foram tomados por figuras montadas em cavalos, guiados pela luz refletida na lua, mas principalmente pelas chamas das fogueiras e tendas incendiadas.

Patrique notou que eles trajavam armaduras variadas, assim como as do bando mercenário que os assaltou durante a travessia da trilha rochosa dias atrás.

Um pelotão de lanceiros se reuniu e revidou com as hastes pontiagudas em mãos, surpreendendo os invasores com a velocidade do contra-ataque.

Enquanto isso, Daniel guiou seus homens em direção onde avistaram o rei pela última vez. Patrique ia segui-los, mas percebeu que não trajava nada além de tecido. Decidiu entrar na tenda reservada aos seus amigos. Iria vestir as primeiras peças que encontrasse.

Uma cota de malha estava estendida em uma das camas de palha. Patrique a trajou por cima da camiseta de lã e completou jogando um tabardo com as três espadas desenhadas no meio. Para finalizar, prendeu o manto com seu cinto de couro, que teve de recolocar para sua espada não ficar por baixo de tudo.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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