Ronan – Capítulo 52 – O Rei do Sul – Parte II



Após sofrerem perdas terríveis, a moral da comitiva ficou abalada e uma dúvida pairou no ar: o ataque foi promovido por simples bandidos e foras da lei? Ou por algum bando mercenário? Para o desgosto do rei e de seu filho, eles não tinham como saber.

Nenhum dos mortos do outro lado deixara alguma pista sobre sua origem, as vestes pareciam comuns demais, trajes de couro, cotas de malha e armaduras lamelares diferiam umas das outras, sem nenhum padrão ou assinatura do ferreiro que as forjou.

A única boa notícia era: nenhuma carruagem fora roubada, destruída ou inutilizada.

Em ritmo fúnebre a comitiva venceu a trilha infernal e alcançou as terras do oriente. Após alguns dias, avistaram uma grande cidade, onde as construções eram erguidas com pedras de cor clara, enfeitadas por uma vegetação rasteira e florida.

Liderando a expedição, ao lado dos seus cavaleiros, o rei anunciou que eles passariam a noite ali e aproveitariam para reabastecer os suprimentos. Ao se aproximarem do portão a comitiva foi recebida.

O governante local viera em pessoa para lhes oferecer o campo do lado de fora para que os homens de Henrique erguessem o acampamento. Além do terreno oferecido, o governador lhes concedeu passe livre pelos portões da cidade.

As tavernas e estalagens despidas de receio receberam os novos convidados de braços abertos. E no alto de uma desses estabelecimentos, Patrique conversava com seu novo amigo, o sargento que o ajudara na emboscada.

— Cento e vinte homens, dá pra acreditar? — Daniel questionou se encostando ao parapeito.

— É difícil, eu sei — Patrique suspirou. — Alguns dos seus entre eles?

— Perdi dois bons amigos durante a perseguição na floresta. Os malditos carregavam lanças finas e afiadas. Os coitados não tiveram chance de vê-las vindo em sua direção.

Patrique recebeu com amargura as perdas do novo amigo. Ali, do alto da taberna, era possível ver as dezenas de tendas que se estendiam para fora das muralhas da cidade. No meio do acampamento, uma barraca grande e luxuosa se destacava, era mais luxuosa que muitas residências da própria cidade. E era lá que seu orgulhoso e inconsequente pai passaria a noite desfrutando do conforto não merecido.

O ressoar de passos denunciaram alguém vindo para a cobertura onde os dois conversavam. Virando para trás, Patrique e Daniel aguardaram alguém surgir pelo alçapão de onde vieram.

Uma boina brotou do vão, escondendo o cabelo do rapaz que subia os degraus com uma calma de outro mundo.

— Vocês são amigos do rei? — ele perguntou após pôr o último pé na cobertura.

— Tá querendo arranjar problema, hein colega? — interveio Daniel, enérgico.

O rapaz de boina levantou as mãos até a altura dos ombros.

— Vim em paz, camaradas. Eu me chamo Ivan e acabei de vir de lá — disse apontando para a suntuosa barraca que Patrique contemplou minutos atrás.  — Tive uma agradável conversa com o rei Henrique Belfort do reino de Belfort, fiquei sabendo que foram atacados no caminho.

Os dois ainda o olhavam com desconfiança.

Patrique recostou-se no parapeito, cruzou os braços e entrou no jogo.

— Sabe de alguma coisa sobre quem eram os invasores?

Ivan retirou a boina, revelando seu cabelo liso e amendoado,

— Eles são um grupo mercenário que operam na região, famosos por aceitarem qualquer tipo de trabalho. E quando eu digo qualquer trabalho, é qualquer um mesmo.

— Por um minuto eu acreditei que fossem seus amigos.

— Longe disso, eles são uma constante dor de cabeça para mim, vivem atacando minhas caravanas e roubando meus estabelecimentos. Posso ser o governante do oriente, mesmo assim, mantenho meus investimentos trabalhando para mim até hoje.

— É isso mesmo! — disse Patrique, surpreso. — Você esteve na Conferência de Antares, você é o antigo Príncipe de um…

— Principado, é assim que chamamos as antigas monarquias aqui do oriente. Aliás, eu quase não te reconheci…

— Patrique — apresentou-se com um “que” de satisfação.

Daniel, o sargento, se perdera no papo entre os dois.

— Você deve estar feliz. — Ivan apontou. — Será o governador do sul, verá seu antigo reino decadente florescer com nossa ajuda. Aguardo ansioso pelos frutos de nossa cooperação e rezo para que possamos enriquecer juntos.

— O que me intriga… príncipe Ivan é como os outros dois príncipes aceitaram ceder seus domínios a você, assim, de bom grado.

Ele soltou um riso bem humorado.

— Eu não diria que foi assim de boa vontade, nossa! Eu me lembro de quando ficaram sabendo, eles queriam minha cabeça numa bandeja de prata. — Ivan sorriu confiante. — Mas eles fizeram suas escolhas no momento em que anunciei: ou entreguem suas terras ou as vejam serem tomadas a força.

— E eles cederam as suas ameaças?

— Ah! Claro que não, mas seus filhos sim, nem pensaram duas vezes. — Seu sorriso confiante se converteu em malícia. — Por que não descemos e tomamos alguma coisa? Aqui é muito frio para o meu gosto.

Patrique e Daniel se entreolharam, mas aceitaram o convite.

Juntos os três desceram as escadas, adentraram na taberna, sentaram-se perto da lareira e se embebedaram com os soldados do sargento. Foi uma noite divertida, ouviram as histórias de Ivan e contaram algumas das suas aventuras e desventuras.

Perceberam ao longo da noite que o novo governador era um rapaz ambicioso, mas simpático na mesma proporção.

No final, já na madrugada, Daniel sentiu-se deslocado, Ivan, o mercador-governador conversava sobre política com o filho do rei Henrique, e por isso, decidiu deixá-los planejando o futuro em paz.

O sargento despediu-se dos dois e foi sentar-se com seus camaradas de guerra em outra mesa. Patrique e Ivan então debateram sobre preços, rotas comerciais, impostos e logística. Toda aquela conversa fez o filho do rei sentir uma próspera aliança desabrochar entre dois governadores do futuro Império de Antares.

Patrique sentia que estava prestes a fazer história.

Amanheceu.

Os raios do sol das onze horas trespassaram o vidro da janela e esquentaram o rosto do rapaz. Patrique tentou se levantar, mas uma súbita dor de cabeça o fez cambalear de volta à pilha de lençóis onde dormira.

Havia passado a noite num quarto improvisado da taberna. Não recordava de muita coisa, mas isso não importava no momento. Tentou não se desesperar. Subiu a escadaria até alcançar o terraço do estabelecimento, correu até o parapeito e a vista lhe trouxe o alívio que precisava.

O campo fora das muralhas da cidade não estava vazio, havia tentas ainda em pé.

Patrique não foi deixado para trás.

Mesmo assim ele se apressou. Desceu a escadaria. Cruzou os cômodos da estalagem e atirou uma moeda de prata sobre o balcão. Percorreu num passo apressado as ruas da cidade. Atravessou o portão. Pulou a mureta de pedra e percorreu o gramado até alcançar o acampamento real, onde poucas tendas restavam erguidas.

Patrique avistou o sargento Daniel e seus homens, eles transportavam o armamento de volta a uma carroça. Os dois se cumprimentaram e o recém-chegado os ajudou a terminar o serviço.

A companhia estava quase pronta, as carroças foram encaminhadas de volta à estrada. Os soldados restantes se preparavam, eles vestiam suas armaduras, pegavam em armas e quando prontos, colocavam-se aos lados dos transportes para aguardar futuras instruções.

Patrique despediu-se do amigo. Agora precisava encontrar sua montaria. Encontrou-a amarrada num curral improvisado. Selou sua égua com o que tinha disponível, montou nela e trotou para frente da formação, onde o pai deveria estar aguardando o sinal de ida com sua impaciência costumeira.

Quando alcançou a frente do comboio, foi aquilo mesmo que encontrou, seu pai rilhava os dentes em nervosismo enquanto dirigia sua insatisfação a seus cavaleiros.

— Bom dia papai — cumprimentou sarcástico, ainda sentia o efeito da ressaca.

— Por onde andou? Você parece um morto-vivo.

— Estive fazendo contatos. Algo que deverias fazer também, assim, de vez em quando, sabe?

— Fazendo contatos! — Henrique praguejou. — O único contato que você precisa é o de uma herdeira rica e o das lâminas afiadas de seus soldados.

Um selvagem disfarçado de rei, esse é o meu pai, refletiu para si mesmo.

Um cavaleiro cavalgou apressado até onde eles aguardavam. Era um dos portadores das novas armaduras, ele carregava um dos longos estandartes com as três espadas bordadas.

— Tudo pronto vossa majestade. Podemos retomar nossa jornada.

— Finalmente! — urrou Henrique em satisfação — Avise o resto do comboio, partimos agora mesmo.

O cavaleiro acatou a ordem, e no mesmo trote apressado em que veio ele espalhou a ordens do rei para a companhia:

— Estamos partindo, retomem a marcha — gritou com a mão livre ao lado da boca.

Uma a uma as carroças se deslocaram pela estrada de terra, e nesse ritmo, o comboio se pôs em marcha em direção à Lincevall, onde Henrique se casaria com uma linda esposa, a futura imperadora de Antares.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina


 


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