Ronan – Capítulo 51 – O Rei do Sul – Parte I



Com um sorriso estampado no rosto e uma coroa sobre a cabeça, Henrique Belfort cavalgava seu alazão.

Após uma semana e meia em marcha, a comitiva real alcançou à fronteira do reino com os Principados do Oriente. Em breve, toda essa região pertenceria ao futuro Império de Antares.

Ao lado do rei cavalgava Patrique Belfort, seu primogênito e futuro representante do império na região sul, nas terras que outrora herdaria do pai.

O acordo celebrado na conferencia o deixou um tanto amargurado. Afinal, não herdar um território soberano era o terror de qualquer megalomaníaco, mas aos poucos, Patrique vinha se convencendo de que assim, talvez, teria a chance de trazer prosperidade e paz às terras do reino moribundo de seu pai.

Para a ocasião o rei fizera questão de embelezar seus cavaleiros. Todos trajavam armaduras polidas, reluzentes, com um aspecto recém-forjado enquanto as armas foram adornadas com joias. As pontas de lanças tremulando nas mãos de seus portadores reluziam o brilho do sol.

Os estandartes recém-costurados ostentavam as três espadas longas dos três Cavaleiros de Belfort, aqueles que juraram proteger a vila que futuramente tornou-se a capital do reino. O símbolo era composto por duas espadas cruzadas em diagonal, apontando para cima, simbolizando os dois filhos do terceiro, este eternizado pela espada cruzando as duas, de cima para baixo.

Toda essa pompa ostentada pelos orgulhosos membros da comitiva havia custado uma fortuna aos cofres reais, mas Henrique não se permitiria chegar ao palácio de sua prometida com seus cavaleiros decadentes como estavam.

Antes de esbanjar seu tesouro, nem sua guarda pessoal trajava todas as peças da armadura e os recrutas, tinham de vestir cotas de malhas com elos enferrujados e peças metálicas de segunda mão, largadas no arsenal pelos oficiais.

A trilha que a comitiva seguia vinha estreitando. A gradativa abundância de rochas e cascalho atrapalhou a passagem das carroças abarrotadas de suprimentos. As laterais do caminho foram afunilando devido às inúmeras árvores sufocando a entrada dos raios do sol da tarde abafada.

A velocidade do progresso caira drasticamente. Na ponta da formação, Henrique bradava comandos, ordenando seus vassalos a tomarem cuidado com seus pertences. Não muito longe, um soldado desmontou do cavalo e optou por trespassar as rochas a pé, avançando até próximo do rei, para informá-lo da situação:

— Vossa majestade! — anuncio sem fôlego. — Uma das carroças lá detrás perdeu uma das rodas.

— Perdeu? Como um veículo perde uma roda assim do nada?

— Ela quebrou meu senhor, eu acho que é por causa da trilha ter “muita pedra”.

O rei quase enlouqueceu ao ouvir aquilo.

Atento à conversa, Patrique Belfort aproximou-se dos dois e tomou as rédeas da situação para si.

— Tudo bem, tudo bem. Faremos uma breve parada para checar à condição dos transportes e dos cavalos. Enquanto a você — disse ao mensageiro que enlouqueceu o rei. — Vá e ajude o pessoal a trocar a roda, devemos ter algumas sobrando, justamente para situações como essa.

— É claro vossa alteza, é pra já — disse o coitado disparando com cautela.          Ajeitando a suntuosa capa, Henrique conduziu o cavalo até emparelhar com Patrique.

— Tu és muito bonzinho com eles, meu filho. Assim ficarão moles e deixarão de fazer aquilo que os comandar. Tu serás o futuro representante do sul do nosso futuro império, devias ouvir as lições de seu pai de vez em quando.

— Você passou seu reinado inteiro gritando com seus súditos, e olha onde isso nos levou. Ignoraste o poder que a manipulação arcana poderia trazer ao nosso reino. Preferiste investir no teu exército em vez de desenvolver a economia do teu reinado. Tu és um exemplo do que não fazer, e sabes muito bem disso.

Patrique odiava adotar esse tom demasiado formal, mas adorava ver o pai perder as estribeiras.

— Pivete insolente. Não ouse me difamar desse jeito. Você deve tudo que tem a mim. E eu farei o que bem entender e gritarei com quem eu quiser, incluindo você!

Patrique não se importou, já estava acostumado com a teimosia e o orgulho inflado do pai já fazia anos. Decidiu então por algo mais produtivo, seguiu o exemplo do mensageiro, desmontou da égua negra e partiu em busca da carruagem quebrada. Levou alguns minutos, mas encontrou o rapaz que viera informar o rei da situação.

Junto do camponês transforado em soldado havia uma dúzia de sujeitos como ele. Não eram os cavaleiros em armaduras brilhantes, mas coitados trajando sobras de cotas de malha por baixo do tabardo com o símbolo do reino, enquanto em suas cabeças repousavam os meios elmos aposentados pelos cavaleiros presenteados com equipamentos reluzentes.

Maltrapilhos como estavam, eles tentavam de forma bruta e ineficiente erguer a carroça.

Patrique se aproximou a passos vagarosos. Quando os homens o viram, saudaram o antigo príncipe com a pouca cordialidade que lhes foi ensinada.

— Rapazes! Afastem-se, vamos tentar algo diferente.

A carroça estava abarrotada de bugigangas e pendia para o lado devido à falta da roda. O primogênito do rei subiu nela com todo o cuidado do mundo. Dentro da caçamba havia diversos baús trancafiados. Patrique tentou puxar um, mas foi sobrepujado por um peso inesperado. Para contornar o problema, chamou dois rapazes ali perto.

— Ei, vocês dois! — apontou para os mais fortes do bando. — Me ajudem a tirar esses baús daqui de cima.

Eles se entreolharam. O mais alto respondeu:

— Um cavaleiro pomposo disse para nóis não toca nisso ai não.

— Bobagem. Subam aqui e me ajudem.

Assim eles fizeram. Com muito esforço os três conseguiram retirar o primeiro baú, depois o segundo, o terceiro, o quarto e o quinto. Agora a carroça parecia leve o suficiente. Patrique pediu para eles tentarem erguê-la mais uma vez. E na primeira tentativa, conseguiram. Três camponeses vieram e instalaram a nova roda enquanto os outros nove seguravam a carroça.

Sorrateiro, Patrique aproveitou da situação para arrombar um dos baús antes que um soldado de verdade viesse buscá-la para pô-la de volta na carroça.

Um pequeno saco fora surrupiado. Avaliando o peso com a mão que a segurava, o nobre ladrão julgou ter por volta dos dois quilos. Com um olhar capcioso espiou o conteúdo guardado pelo invólucro cor casca de noz, eram moedas douradas. Sem que ninguém visse, retirou um punhado delas, o bastante para não fazer diferença no montante final.

— Aproximem-se rapazes — ele anunciou.

Os doze maltrapilhos chegaram perto para ouvir o que Patrique tinha a dizer. Ele tirou do bolso do casaco as moedas surrupiadas e estendeu para que eles conferissem. Olhares de cobiça foram direcionados para o montante dourado em suas mãos.

— Façam uma fila — ordenou educado.

Quando ela se formou, cada um ganhou uma moeda, apesar de pouco em quantidade, uma simples peça reluzente seria capaz de trazer algum alívio para a vida sofrida daqueles rapazes. No fim acabou sobrando uma moeda, mas Patrique tinha uma brincadeira para sorteá-la, então lançou um desafio a eles.

— Quando alguém desconfiar e perguntar a vocês quem lhes deu essa moeda, o que vocês devem dizer?

— Foi o príncipe Patrique — anunciou um homem quase banguela.

— Não sou mais um príncipe, rapazes.

— Foi o rei — anunciou um velho corpulento.

Patrique negou com um aceno.

— Foi a imperadora — arriscou um rapaz magérrimo.

— Vou repetir. Se alguém “desconfiar”, o que vocês dirão a ele? — perguntou de forma pausada, alongando cada sílaba.

Por um tempo os camponeses vestidos de soldados colocaram os neurônios fora de forma para funcionar. Até que alguém pulou em excitação.

— Ninguém! — gritou um rapaz, como se ganhasse uma herança de um parente rico que nunca conheceu em vida.

— Exato! — exclamou Patrique, jogando a moeda que sobrara para o ganhador. — E mais… Se eu ficar sabendo que vocês estão brigando entre si por causa dessas moedas. Eu mesmo irei torturá-los no calabouço — terminou aterrorizando os coitados.

No caminho de volta para frente da companhia, Patrique ouviu um barulho vindo de lá. Eram vozes abafadas, gritos, berros de dor e tilintares metálicos que ecoavam entre as árvores que limitavam a trilha estreita e de difícil passagem.

O seu coração acelerou, Patrique puxou a espada da bainha e se apressou como pôde pela trilha pedregosa. Diversos soldados vinham ao seu encontro, pareciam desertores. Não demorou muito para arautos anunciaram a emboscada.

— Estamos sob ataque! Seus inúteis imprestáveis… vamos, corram para defender o rei! — bradou um sargento corajoso, reunindo seus homens como podia.

Patrique o abordou entre o recuo de duas carroças.

— Algum manipulador entre eles?

— Um o quê?

— Um conjurador, mago, feiticeiro! — esbravejou apressado

— Não, não! São bandidos mesmo, da pra ver pelo jeito deles lutarem — respondeu o sargento.

Pelo menos isso, pensou aliviado. Patrique acompanhou o oficial e seus homens para o front da emboscada, onde seu pai deveria estar. Alguns soldados tropeçaram nas pedras ou deram um passo em falso e escorregaram no cascalho, não havia tempo para esperar os incautos, por isso prosseguiram. Os gritos tornaram-se nítidos, assim como o zunir das flechas perfurando o ar acima de suas cabeças.

No alto de seu cavalo, o rei Henrique recuava empunhando a espada limpa e reluzente em mãos enquanto berrava palavras de comando.

— Protejam o rei seus vermes malditos!

Quanto terminou de proferir, o cavalo relinchou em agonia, pois sua proteção, uma cota de malha adaptada para equinos, foi perfurada por três virotes disparados por poderosas bestas ocultas entre as folhagens que os cercavam.

O Rei agarrou-se como pôde, mas o garanhão relinchou e balançou, ignorando qualquer comando. Num coice lançado ao vento, Henrique perdeu o equilíbrio e caiu de sua montaria, por sorte, aterrissou no escasso gramado que separava as árvores da trilha arenosa salpicada de pedrinhas.

Ele gemeu de dor, ira e frustação, tudo de uma vez.

O sargento que Patrique acompanhou enviou seus homens para protegerem o rei. Mais reforços chegavam das linhas de trás. Pelotões de arqueiros e lanceiros se protegeram atrás de uma carroça ali perto.

Lanças, virotes, flechas e armas de arremesso sibilavam quando eram atirados contra seus inimigos enquanto o combate corporal ocorria lá na frente.

Os homens do sargento trouxeram seu pai para perto.

— Tem certeza que isso é obra de simples bandidos? — Patrique perguntou ao sargento.

Pegando um escudo redondo de madeira largado no chão para se proteger, ele respondeu:

— Tenho sim, mas esse bando parece mais organizado que bandidos comuns.

Algo naquela situação o incomodava.

— Tenho o pressentimento que lidamos com mercenários.

— É… — admitiu o sargento. — Pode ser…

— Bandidos não atacariam um comboio real assim do nada, sem mais nem menos.

Quando terminou de falar, notou figuras surgindo entre as árvores.

— Arqueiros! — bradou em atenção — Inimigos a nossa esquerda!

Obedientes, eles viraram para o local indicado e acataram as ordens dadas. Flechas foram disparadas contra o bosque, quebrando o avanço silencioso dos atacantes que tentaram revidar atirando suas lanças, não acertando nada além de rochas, corpos desfalecidos e caixotes de madeira.

— Sargento, mande seus homens os perseguirem, não deixe eles se reagruparem.

Ele acenou e seguiu as ordens, sumindo em meio aos troncos e folhagens.

Patrique e Henrique estavam protegidos por 40 soldados divididos entre 20 arqueiros e 20 lanceiros, todos trajando a cotas de malha por baixo do tabardo amarrado num cinto que prendia suas espadas curtas.

Patrique sabia que a linha de frente deveria receber reforços, mas como não dava para saber o tamanho da força invasora, decidiu enviar metade deles para lá. Porém, os reforços poderiam estar acabando e a retaguarda, abandonada ao acaso.

Cruzou os dedos e esperou que o número enviado fosse o suficiente para conter o ataque. Os gritos foram diminuindo. Cada vez menos projéteis sibilavam de um lado para o outro, até que um breve silêncio atiçou os nervos de todos ao limite.

Havia acabado.

Patrique se levantou, andou para a ponta da expedição e contemplou os corpos sangrentos que manchavam a trilha rochosa em vermelho. O cheiro da morte impregnou suas narinas, acostumando-as ao fedor.

Agora se ouvia apenas o choro dos feridos, dos soldados perfurados, cortados e daqueles prestes a morrer devido à perda excessiva de sangue.

Escudos estilhaçados, espadas tortas, desgastadas e cegas se juntavam as lanças sem ponta, os machados sem cabeça e as maças amassadas devido às inúmeras pancadas dadas nas armaduras dos guerreiros.

Elmos vazios, retalhos de cota e restos de armaduras manchadas de sangue compunham a cena funesta, onde a morte dançou e ceifou a vida de dezenas, centenas de guerreiros, soldados, cavaleiros e meros camponeses.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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