Ronan – Capítulo 50 – Irmãos Faisca



A repercussão da invasão à Cidade Livre deixou os habitantes de Lince em polvorosa. A notícia tornou-se um mau agouro capaz de privar o mais alheio camponês do merecido sono após um longo dia no campo.

Por outro lado, na capital de um novo império, a pressão sobre Triss Loboprata vinha sufocando-a, obrigando-a a se trancar em seus aposentos para evitar esbarrar com algum nobre ou conselheiro.

Precisava de espaço para racionar e traçar algum plano, mas nada vinha em mente, ao contrário dos inúmeros indivíduos com inúmeras soluções para seus inúmeros problemas.

Nos aposentos imperiais, quilos e mais quilos de papéis rabiscados espalhados por todos os cantos criaram uma decoração caótica, digna dos quartos dos excêntricos estudiosos da Ordem dos Magos, agora nas garras do leão, o leal servo do grifo vermelho de Alexandre.

Bufando enquanto deitada sobre a suntuosa cama coberta por papeis, Triss fritava seus neurônios em busca do próximo passo a ser dado. E ele veio como um raio. Era óbvio demais. A monarca de cabelo cinza prateado espantou-se por demorar tanto em bolar algo tão simples.

— Vou delegar essa porcaria para meus conselheiros sabichões resolverem entre eles — disse entusiasmada, enterrando o rosto no travesseiro que agarrava com afinco.

Estava na hora de reunir o conselho. Triss levantou-se da cama num impulso. Ignorando o amassado em suas vestes ela destrancou a porta e chamou os guardas montando vigila em frente aos seus aposentos.

— Procurem os conselheiros e os ordenem a me encontrar no Salão do Lince.

Sem proferir um ruído sequer eles curvaram em respeito, levantaram e partiram em busca das figuras requisitadas. Triss não ficaria mais trancafiada naquele cômodo.

Devia ter pedido para eles buscarem alguém para limpar minha bagunça, deixando tal devaneio para trás, a imperadora pôs-se a percorrer o palácio de Lincevall num passo que exalava uma nova motivação: jogar sua responsabilidade para terceiros.

Como o quarto imperial ficava nos fundos do palácio, Triss chegaria pelos fundos do salão, por um acesso exclusivo da monarca vigente.

Próxima do destino ela já avistava a traseira cinzenta da estátua de um grande lince sentado olhando em direção à entrada frontal do salão. Atrás dele, o caminho por que Triss viera dividia-se em duas escadarias descendo rente a cada flanco da estátua com quatro metros de altura e comprimento, contabilizando a cauda virada à direita, rente à escadaria escolhida.

Triss desceu o último degrau e pôs os pés no Salão do Lince, um cômodo espaçoso, decorado nas cores azul e cinza do antigo reino cujos símbolos ainda decoravam o ambiente. Diversas bandeiras e estandartes portavam o felino cinzento num fundo azul.

Ela ignorou seu trono e foi sentar-se no meio da longa mesa retangular disposta no centro do salão, para assim ouvir os demais integrantes com facilidade.

Os dois guardas presentes, como de costume, vieram e retiraram as cadeiras ao lado dela para que eles permanecessem em pé, protegendo a soberana de qualquer ameaça.

O olhar âmbar e pesaroso de Triss mirou a ponta direita da superfície, onde Tricia, sua feiticeira costumava ficar até Edmundo, o antigo capitão da guarda, assassiná-la. O traidor costumava sentar na ponta esquerda, onde Triss encarou enojada para o assento vazio.

O primeiro integrante chegou.

Um leve ranger metálico cativou a atenção dos presentes.

As duas chapas da porta de madeira reforçada se abriram graciosas para o interior do salão. A criatura vestia um sobretudo preto-carvão que estendia-se até os joelhos. Por baixo Triss pôde ver uma camiseta de couro resistente. Apesar da fartura de tecido, a constituição avantajada da figura transpirava por baixo das camadas, porém, não rivalizava com a do irmão. Entretanto a figura gabava-se por ser mais belo que Eric, graças ao cabelo negro que roçava em seus ombros.

— Adiantado como sempre, senhor Tormensson.

Gustav respondeu com um sorriso que perdurou todo o caminhar até a mesa. O conselheiro escolheu a cadeira em frente à Imperadora para sentar, apoiou um dos braços na superfície de madeira e se manifestou:

— As primeiras ordens do novo Arquimago já foram sancionadas pelo Conselho dos Grão-mestres, eu as recebi pouco antes de ser comunicado para vir aqui.

As feições de Triss se contraíram.

— Guarde isso para quando o resto chegar, Gustav.

Uma nova figura entrou no Salão do Lince, era um cavaleiro trajando uma armadura completa cujas placas refletiam os raios do sol trespassando os vidros das janelas.

Gustav sorriu e encarou o cavaleiro.

— Não era seu dia de folga, Fred?

O cavaleiro retirou o elmo arredondado, revelando sua face adulta e cabelo curto e alvo. Retribuindo o sorriso, ele respondeu:

— Não existem férias para um Capitão da Guarda. — Apertou a mão do conselheiro, virou e saudou a soberana.  — Vossa majestade.

De forma burocrática, Triss apontou para a ponta esquerda da mesa, onde Fred, obediente, sentou-se e repousou o elmo arredondado com uma crista azul sobre a mesa.

— Gustav, agora resta apenas o seu irmão? — perguntou o novo capitão da guarda.

— Sim, ele deve estar em casa, pode levar um tempo.

Triss bufou, retirou sua coroa prateada e levou as mãos ao rosto.

Trinta minutos transcorreram até Eric adentrar no salão. Os presentes vislumbraram o guerreiro suado e esbaforido se aproximar. Eric Tormensson trajava uma cota de malha. Com a respiração pesada ele puxou a cadeira à direita do irmão para se sentar.

— Vim o mais rápido que pude, perdi alguma coisa? — perguntou entre arfadas

— Eric, porque está trajando a cota de malha? Você não é um guarda para andar com esse traje arrastando por ai — inquiriu Gustav.

— Eu estava treinando com os guardas, meu irmão.

Triss se levantou e vagou em torno de sua cadeira.

— Vocês já devem desconfiar do porque eu vos chamei. A Cidade Livre foi tomada por Alexandre. O Arquimago Nicolau foi deposto e uma marionete ocupa seu lugar no momento. Como se isso já não fosse ruim o bastante, ele é apoiando por um conselho de Grão-Mestres comprados. E isso põe em cheque a formação de nosso novo Império.

— Na verdade… ele já se manifestou quanto a isso — acrescentou Gustav.

— O que ele disse? — questionou o novo Capitão da Guarda.

Por um tempo o conselheiro aguardou a reação da Imperadora, que com o olhar permitiu que falasse. Gustav então interpretou a noticia do papel em suas mãos.

— Magnus Leonhart, o novo Arquimago, vetou a formação do Império de Antares com a aprovação unânime do Conselho. A justificativa é: se uma potencia dessa magnitude surgir em nosso continente, uma guerra de proporção continental pode nos arrastar num longo período de caos e sanguinolência.

— Se um capacho do império virou Arquimago, isso não torna a Ordem dos Magos polarizada? Isso não viola sua neutralidade? — perguntou Eric.

— A ordem perdeu sua neutralidade ao permitir que nosso novo império surgisse — acrescentou Fred. — Não que eu fosse contra essa união, que fique bem claro — justificou-se a tempo.

Triss voltou a ocupar sua cadeira, ela pensou, e respondeu com pesar na voz:

— O capitão da Guarda está certo — suspirou. — Pouco depois do Arquimago Nicolau assinar a ata da conferência meses atrás, Tricia logo veio me contar que aquilo poderia servir de pretexto para Alexandre retalhar de alguma forma.

Gustav acrescentou em tom categórico:

— Mas para nossa sorte, ou azar, o antigo Arquimago tinha ressentimentos contra Alexandre, por isso ele aceitou a formação de uma potência capaz de rivalizar com o imperador de Leon, assim, tão facilmente.

— Tá, mas… o que podemos fazer? — quis saber Eric.

Os quatro puseram-se a pensar. Por minutos a fio nada aconteceu, nenhum ruído se fez ouvir fora o ruminar reflexivo do Corvo da Tormenta e as batucadas nervosas de Fred na superfície da mesa. Contrariando sua pretensão inicial de delegar a solução a eles, Triss traçou um plano.

— Vamos aguardar por enquanto. A essa altura o rei Henrique deve ter partido em viagem para cá, então nós aguardaremos sua chegada. Uma vez que a celebração do nosso casamento tenha findado, reuniremos nossas tropas e tornaremos Lincevall a capital do Império de Antares. Então, por enquanto, vamos espalhar nosso repúdio aos vendidos que ocupam as cadeiras da Cidade Livre, e Eric. — chamou a atenção do Corvo da Tormenta. — Alguma sugestão de como movimentar as tropas?

Eric se levantou, ajeitou a cota de malha e pediu para alguém trazer um dos mapas do continente guardados numa das estantes. Uma criada que por ali passava obedeceu e foi buscar um volume enorme enrolado em duas hastes de madeira. O líder dos Corvos pegou o mapa e o estendeu na mesa com a ajuda de Fred.

Triss contornou a mesa junto de seus dois guardas e assim os três observaram com atenção as sugestões dadas por Eric, com a exceção dos dois guarda-costas da imperadora.

— No momento o Império de Leon se estende por todo o oeste de Antares. Com a Cidade Livre indiretamente tomada, eles retêm uma parte do centro em seus domínios. Henrique de Belfort está saindo da região sul. Para evitar as tropas de Alexandre ele terá de dar a volta pelo leste, que no momento é supervisionado pelo príncipe Ivan. Como Lince engloba a porção centro-norte, Eu e os demais corvos nos posicionaremos na cidadezinha de Verdigo, apesar de ser o local onde sofremos a traição de Edmundo, é a região intermediária entre a Cidade Livre e nossa fronteira a oeste. Dessa forma, conseguiremos rechaçar tanto um ataque vindo da fronteira com Leon quanto um avanço partindo da não tão neutra: Cidade Livre.

Triss sorriu em satisfação, Gustav e Fred contemplaram o mapa por mais um minuto, buscando encontrar alguma falha na estratégia. Infelizmente, eles se deram por vencidos.

— Então devemos reforçar a fronteira oeste e guarnecer os fortes ao sul.  — Pensou a Imperadora em voz alta. — Parece um bom plano, mas precisamos enviar algum reforço para Henrique, para garantir sua passagem pelo leste em segurança. A última coisa que precisamos é de mais agentes imperiais interferindo em nossos planos.

— Então envie os Corvos da Tormenta para escoltá-lo — Fred sugeriu.

— Não! — Triss negou na hora. — Eles não podem ficar muito longe, por enquanto eles fornecerão cobertura na cidade de Verdigo — analisou, preferindo a sugestão do líder dos corvos. — Eric! Envie um batalhão da cavalaria leve, eles precisam se encontrar com Henrique o mais rápido possível.

Eric assentiu com dois acenos. Triss voltou seu olhar para o mapa. Os três aguardaram ansiosos por algum pronunciamento ou adendo dela, mas por fim, a soberana deu-se por satisfeita.

— No momento é isso pessoal, agraço a vocês por terem vindo tão rapidamente.

— Foi uma honra, vossa alteza — saudou Fred.

O capitão da guarda retirou o elmo da mesa, o encaixou de volta em sua cabeça e, com a mão sobre o pomo da espada embainhada, saiu pomposo salão a fora. Enquanto isso, Triss virou-se para os irmãos Tormensson. Estava feliz com o progresso realizado na reunião.

— A inteligência e o talento de um, somado à logística e a força do outro… Vocês juntos são uma força da natureza, irmãos faíscas.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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