Ronan – Capítulo 5 – Felix Fitz



Dario Zeppeli, assim se chamava o rapaz que não tirava os olhos da garota do lustroso cabelo dourado. Após uma breve conversa, Ronan descobriu que ele não vinha de uma família tradicional, rica ou influente. E, apesar da gélida recepção, Dario demonstrou-se simpático assim que parou de encarar o seu alvo. Alvo este que havia inflamado a curiosidade de Ronan, fazendo-lhe perguntar:

— Quando você disse Leonhart, você quis dizer a família Leonhart?

­— Isso mesmo.

A resposta o surpreendeu, pois aquela era uma das mais ricas e importantes famílias do continente, sua influência ultrapassava as fronteiras do império, se estendendo até a Cidade Livre. E ao saber disso, o fascínio que já nutria pela garota inflou-se ainda mais.

— Uma Leonhart na nossa turma, incrível — disse entre suspiros de admiração.

— Não vai ficando animadinho não. Essa daí não é flor que se cheire.

— Mas por quê? — retrucou contrariado — Você não acha incrível ter alguém assim em nossa turma? — completou iludido, pouco antes de serem interrompidos.

Pois o professor, enfim, havia chegado. Mas o que entrou pela porta da sala foi algo no mínimo, bizarro. A criatura trajava um robe, ou melhor: um pano cinzento que ia até os joelhos, preso por um cinto de couro preto. E em seus pés, a única peça normal: botas escuras. A figura parecia ter saído de uma das inúmeras aventuras de Barry Fokker, o protagonista de uma famosa saga de literatura infanto-juvenil, escrito por R.R Rolando. Muito lido por Ronan em sua infância.

Largando seus inúmeros livros e cadernos em cima da mesa, o professor não perdeu tempo e já deu início à aula.    Não querendo atrapalhar, Dario decidiu postergar a sua conversa com Ronan com um sussurrou:

— Ronan, eu te conto outra hora, tudo bem? Mas confie em mim, não se meta com aquela garota, ela é problema.

Revirando o material que havia derramado sobre a mesa, o professor recolheu da grande pilha, um punhado de livrinhos idênticos de capa dura na cor preta. Ajeitando tudo em seus braços, ele caminhou até a primeira bancada do centro, e começou.

— Bom dia turma. Antes de iniciar a aula eu tenho um recado para repassar. Neste fim de semana teremos o tradicional evento de recepção aos alunos. Ele acontece já há alguns anos. Recomendo que compareçam, pois estarão lá: o reitor, os membros do conselho, os professores e os integrantes do colegiado. O reitor abrirá com um discurso para os calouros, e além de recebê-los, ele passará algumas informações sobre a instituição. E claro, depois disso, teremos uma confraternização com os presentes… E… Acho que isso é tudo. — Pensativo, o professor hesitou por um alguns instantes. — Mas é claro, ainda não me apresentei a vocês. Eu me chamo Felix Fitz e serei o professor de Introdução aos Estudos Arcanos, mas antes de aprendermos sobre as Artes Arcanas em si, eu lecionarei uma aula introdutória sobre as regras impostas pela instituição e pelo conselho, por isso, para o dia de hoje nós nos dedicaremos à leitura e compreensão do: Estatuto da Manipulação: dentro da universidade e seus arredores.  — Felix finalizou erguendo um dos livrinhos, acumulando o resto deles na outra mão.

Algum espertalhão decidiu se manifestar:

— Professor, não da pra começar a aula de verdade hoje e deixar essa leitura como dever de casa? — perguntou na inocência um aluno que sentava na primeira bancada da esquerda.

— Interessante… — disse o professor Felix. — Como você se chama?

— Jonas Brando.

— O que acha de eu fazer você me trazer um resumo comentado capítulo por capítulo do livro para o fim dessa semana?

— De-desculpa, só achei que seria…

— Eu sei, eu sei. Você não é o primeiro a vir com essa ideia maravilhosa. — A decepção transparecia no rosto metaforicamente cadavérico do professor.

Um clima tenso envolveu a sala, suprimindo as fofocas sussurradas pelos alunos mais desinteressados na primeira aula.

— Bem feito — Dario comentou baixinho enquanto abafava o riso da desgraça alheia.

— E você — disse o professor apontando para um deles. — Quer uma lição de casa especial também? — O corpo de Ronan suou frio, mas para seu alívio a bronca foi direcionada ao Zeppeli, que teve a risada ceifada por uma foice metafórica.

— Claro que não, perdão professor, me desculpe — respondeu tentando conservar a compostura.

Surpreso, Ronan percebeu que a garota de olhos azuis agora observava os dois enquanto tentava conter o riso. Ele constrangeu-se, o nervosismo fez o seu rosto corar, mas logo notou que ela estava rindo do seu vizinho de bancada, o Dario. E ele tinha percebido.

Retomando o controle da turma, o professor Felix continuou a aula, acrescentando uma observação.

— Para alguns isto talvez não seja claro, mas enquanto forem alunos do primeiro ano vocês estão proibidos de usarem manipulação quando não for absolutamente necessário, mas o que quer dizer “absolutamente necessário”? Significa: apenas durante uma situação de perigo verdadeiro. Eu imagino que devemos ter um ou dois estudantes que já saibam manipular, pois foram ensinados pelos pais ou coisa do tipo, mas essa regra se aplica a vocês também.

Todos assentiram e a aula prosseguiu. O professor Felix passou nas bancadas e distribuiu para cada estudante um exemplar do Estatuto da Manipulação: dentro da universidade e seus arredores.

Na primeira aula os alunos acompanharam o professor em sua leitura em voz alta do primeiro capítulo, intitulado: Normas Gerais Sobre a Manipulação. Ronan observou que nenhum daqueles itens continha algo substancial de fato. Todos os presentes já deveriam saber que não se deve manipular o fogo em locais não adequados. E devido ao clima causado pela pergunta besta de Jonas Brando e os risos de Dario, a sala toda colaborou para uma manhã calma e produtiva.

O primeiro dia letivo chegou ao seu muito aguardado fim. Já passava das 3 horas da tarde. Ronan percebeu que sua vida universitária seria puxada como havia esperado, mas animou-se com que viria pela frente. Ele e seu novo amigo agora permaneciam em pé do lado de fora dos muros da universidade.

            Hora de partir.

— Você mora aqui perto? — perguntou Dario, como quem não quer nada.

— Minha casa fica a mais ou menos dois quilômetros daqui, na Rua dos Ferreiros.

— Hum. Nós moramos perto então — concluiu num tom sugestivo.

— Então… Vamos indo?

— Pode ser. — Dario concordou após dar de ombros.

O começo do percurso foi marcado por um relativo silêncio, acompanhado de poucas palavras e conversas genéricas sobre o clima. Num lampejo, Ronan lembrou-se de algo que queria lhe perguntar:

— Afinal, qual é a daquela garota? E o que você tem contra ela?

Dario diminuiu o passo.

— O que eu posso dizer é o seguinte: nossas famílias não se dão muito bem, já tivemos desavenças no passado e algumas coisas ainda não foram esquecidas entre nós.

Aquilo apenas atiçou a curiosidade dentro de Ronan, que o consumia como fogo. Afinal, o que os Zeppelis poderiam ter com os Leonharts? Ronan precisava saber.

— Não quero parecer arrogante, mas eu não conheço sua família. E só digo isso, pois já li muito sobre a História do Império e principalmente sobre as famílias, ordens e nações.

Os olhos castanhos de Dario brilharam como os de uma criança humilde ao receber um brinquedo novo.

— Você também gosta de História? — Entusiasmou-se. — Bem, primeiro vou responder como posso. O fato de nossa família não ser conhecida é meio que a causa do problema. Peço desculpas, mas não gostaria de falar o porquê, ao menos não agora.

O brilho no olhar de Dario esmaeceu dando espaço a melancolia. Ronan parou de questioná-lo, mas esse mistério só atiçou mais a sua curiosidade. Após descobrirem que ambos são fascinados pelas histórias de antigamente, o resto do caminho preencheu-se por uma entusiasmada conversa sobre guerras, reis, traições e política.

Os dois finalmente chegaram à casa de Dario, apesar de simples, era belíssima, feita de pequenos tijolos vermelhos como as telhas, exalando uma sensação familiar e aconchegante. Era até pequena, mas seus dois andares compensavam a falta de uma base mais larga, Ronan imaginou que os quartos ficavam no andar de cima, como era comum na região. Os dois se despediram, mas antes de Dario passar do portão, a Sra. Zeppeli, ao ver da janela seu filho acompanhado de um novo colega, caminhou em direção à porta.

Em segundos ela apareceu para cumprimentá-los:

— Boa tarde — disse muito simpática.

— Olá mãe — Dario respondeu envergonhado, encarando o chão.

A semelhança entre eles assustou Ronan, os olhos e os cabelos de ambos compartilhavam da mesma tonalidade, mas os fios da senhora Zeppeli tinham uma ondulação mais acentuada.

— Esse é seu novo amigo, querido?

A pergunta confundiu a mente de Dario, ainda incerto quanto à relação entre os dois. Apesar de compartilharem o percurso numa agradável conversa, ainda parecia errado chamá-lo de amigo.

— Acho que sim.

— Nossa, mas que bom, e como você se chama rapazinho?

Agora era Ronan o envergonhado.

— Me chamo Ronan, Sra. Zeppeli. Ronan Briggs.

— Briggs? Você por acaso é filho do Hobb?

Aquilo o chocou. Como ela sabia? Perguntou para si mesmo.

— Sou sim como você…

— Meu filho mais velho já trabalhou com ele, sabe?  Fiquei tão triste depois que aquilo aconteceu.

            Ela só poderia estar se referindo ao incidente de três anos atrás.

— Obrigado por se preocupar Sra. Zeppeli. — Ronan agradeceu com um sorriso.

— Vamos fazer assim, que tal vir jantar conosco neste sábado?

— Claro, nós teremos a confraternização da universidade durante a tarde, mas à noite devo estar livre.

— Está combinado, esperamos você lá.

— Pode deixar. Tchau Sra. Zeppeli, até amanhã Dario.

— Tenha uma boa noite e não vai se esquecer do convite viu — despediu-se a Sra. Zeppeli, empolgada por seu filho ter um novo amiguinho.

— Até amanhã — disse Dario.

Selando a amizade num aperto de mãos, Ronan pôde sentir os laços de uma nova amizade florescendo.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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