Ronan – Capítulo 49 – Arquimago – Parte II



A vantagem numérica favorecia o imperador, mas sua missão ia muito além da simples invasão à Cidade Livre de Avska. Alexandre viera para mudar o mundo, e isto preocupava Magnus, que apesar de conhecer parte do plano, não conseguia deduzir o objetivo final da campanha.

Sob a autorização do Arquimago, dois Guardiões Rúnicos se dispuseram a abrir o portão da Torre Central. Um em cada lado empurraram as folhas para dentro, açoitando a audição dos mais próximos com o ranger das dobradiças em fase de oxidação.

Em passos vagarosos Nicolau adentrou, seguido por doze Guardiões. Quando o último cruzou os portões, Alexandre deu o 0 primeiro passo, pegando seus guerreiros desprevenidos. Magnus virou-se para trás e escolheu doze cavaleiros que vieram a seu encontro.

Nenhuma palavra foi dita, pois Magnus os escolhera a dedo e, juntos, acompanharam o imperador na subida da escadaria.

Após vencerem doze lances de escada, o que daria algumas centenas de degraus.  Imperador e Arquimago estavam prestes a mudar a História do continente.

Quando adentrou no cômodo, Nicolau estranhou o ambiente. Era para os membros do Conselho dos Grão-Mestres estarem ali nesta sala. Perguntou-se o que teria acontecido com eles, mas talvez fosse melhor assim, Nicolau então deixou essa questão irrelevante para trás e ocupou seu lugar no centro da mesa, ficando de costas à janela aberta para o sul.

Protegido pelos poucos Guardiões que ainda restava, ele apoiou os cotovelos na longa mesa oval. Do outro lado, Alexandre, acompanhado pelo fiel conselheiro, estava protegido pelo mesmo número de guerreiros.

Mas a hora das disputas militares havia acabado. Era hora de pôr um fim aos conflitos entre os dois, de uma vez por todas.

Foi Nicolau quem começou:

— O que houve com Marcos, o mago que você decidiu encarcerar?

— Foi executado, mas disso você já sabe, afinal, autorizou uma infiltração numa das minhas prisões.

A cadeira foi arrastada para trás quando o Arquimago se levantou enérgico, encarou Alexandre, rangeu os dentes e esbravejou após desferir um murro na mesa.

— Você matou o comandante Eduardo!

— Me desculpe, mas o que você esperava? Que eu o recebesse com flores ao som de uma melodia tocada por menestréis?

— Você nem compareceu à conferência!

— Peço desculpas por isso, mas reunir minha equipe demorou mais do que eu esperava.

Olhares espremidos se encontraram enquanto ideologias divergentes arderam no coração e na mente de cada um.

A impassividade se arrastou, alastrando uma guerra de intenções silenciosas pelo salão. Magnus permaneceu quieto. Os cavaleiros e guardiões se entreolhavam, aflitos com a situação.

Nicolau então se mexeu, causando o dissipar da tensão ao coçar os olhos com a palma da mão antes de prosseguir.

— Ainda temos a tentativa de assassinato orquestrado por você contra a imperadora Triss Loboprata,

— Irrelevante, pois quem compactua com sua insanidade é inimigo meu.

— Você deixaria o continente entrar em guerra mais uma vez? Esqueceu-se dos dias que passava caçando renegados? Não se lembra dos campos encharcados pelo sangue do conflito?

O imperador ficou em pé, deu as costas e disse olhando por trás da ombreira.

— Esta será a última guerra… ex-Arquimago!

Nicolau desferiu outro murro na mesa e bufou num frenesi que assustou até mesmo os guardiões ao seu lado.

— Planejam me matar por acaso?

Alexandre sacudiu a cabeça em dois movimentos horizontais, fazendo balançar parcamente os fios negros de seu cabelo curto.

— Então?

O imperador girou nos calcanhares, avançou até a mesa e com as mãos sobre a superfície, disse em tom categórico:

— Você será afastado, não apenas do cargo, mas da Ordem dos Magos como um todo. Fique à vontade para arranjar outra ocupação.

A ira do Arquimago podia ser lida graças à vermelhidão em seu rosto.

— Você acha que a Ordem permitirá um absurdo deste? Perdeste a razão, Alexandre?

— Pelo contrário.

Ele ergueu o braço direito e a porta da sala rangeu quando aberta por um dos seus cavaleiros. Diversas figuras trajando vestes largas e brancas adentraram no cômodo, parando atrás do imperador ainda em pé.

— O que o conselho faz aqui? — Nicolau questionou.

Ignorando o superior, mas acatando o invasor estrangeiro, os Grão-Mestres sentaram nas cadeiras reservadas ao conselho quando Alexandre os convidou.

— O que significa isso? — Nicolau insistiu, a voz saiu mais aguda do que antes.

Após estufar o peito, o Imperador de Leon anunciou com as mãos para trás:

— Eu, Alexandre Griffhart, Imperador de Leon, com o apoio do Conselho dos Grão-Mestres, dou inicio ao rito de exoneração de Nicolau Dumont do cargo de Arquimago da Ordem dos Magos, sediada aqui, na Cidade Livre de Avska.

Fazia tempo que ninguém o chamava pelo sobrenome, perdendo todas suas esperanças, Nicolau afundou-se no assento que ocupava.

— Há quanto tempo você maquinou isso?

— Não importa!

Mathias, o primeiro grão-mestre, apoiou os cotovelos na mesa e iniciou o rito.

— Devido às inúmeras reclamações internas e externas. O conselho dos Grão-Mestres decidiu pelo afastamento de Nicolau Dumont do cargo de Arquimago, que de maneira insatisfatória e conturbada, vem pondo em cheque o destino de todos os manipuladores do continente de Antares.

            Mentirosos, ratos, vendidos, marionetes, pensou Nicolau ao ouvir cada calúnia.

O primeiro grão-mestre prosseguiu:

— O Arquimago aqui presente é acusado de ratificar sem o consentimento do conselho, um tratado de unificação das monarquias que ameaçou a frágil estabilidade em que vivemos. Na mesma ocasião, o comandante dos Guardiões Rúnicos, Eduardo Belmonte, aceitou a tarefa criminosa de liderar uma expedição não autorizada pelo conselho rumo à prisão de Alvovale, localizada ao norte do Império de Leon. Devido a sua morte em missão, não temos motivos para julgar seus crimes nesta ocasião. — Mathias fez uma pausa antes de prosseguir. Coçou os olhos e encarou o réu. — Nicolau, o que tem a dizer em sua defesa?

Ele suspirou, sabia que estava tudo acabado uma vez que o conselho tinha se corrompido, não havia muito que fazer, mas resistiria até o fim.

— Gostaria de acrescentar que… — tentou ganhar tempo —… que quem fez a ata da conferência foi um dos Grão-Mestres presentes, por isso essa acusação é inválida.

Mas o desgraçado não está aqui.

— Nós não recebemos ata alguma. Ficamos sabendo da missão secreta e da unificação, alguns dias depois da conferência ter acontecido.

É claro, entreguei o registro para outra cobra conspiradora, Nicolau refletiu desesperançoso.

Preciso apelar

— Vocês vão fingir que um tirano não invadiu nossa cidade? Farão vista grossa para o homem que matou dezenas de guardiões horas atrás?

Antes que Mathias abrisse a boca, Magnus se adiantou para falar pela primeira vez desde que entrou na sala.

— Primeiro: a Cidade Livre não é de vocês, ela é uma cidade independente que porventura abriga a Fundação Arcana. Nós teríamos entrado pacificamente se o governador não tivesse negado nossa entrada ao fechar os portões. Segundo: os guardiões participaram da batalha porque ainda estão ressentidos com a infeliz morte do comandante Eduardo, mas fico feliz em ver que a corporação ainda conta com membros honrados em suas fileiras — finalizou com toda a calma do mundo.

Nicolau estremeceu quando súbitos estrondos metálicos reverberarem atrás de si. Ao virar para trás, assustou-se ao ver os Guardiões ali presentes ajoelhados no piso de concreto.

O Grão-Mestre Mathias prosseguiu com o julgamento.

— Devido às diversas acusações de conspiração e favorecimento indevido a uma nação insurgente. Nós do Conselho dos Grão-Mestres exoneramos nesta data, Nicolau Dumont do cargo de Arquimago da Ordem dos Magos, sendo sucedido imediatamente por um antigo mestre da Ordem, o atual conselheiro imperial: Magnus Leonhart.

Ao ouvir aquilo os olhos do leão arregalaram, seus batimentos saltaram e os pelos eriçaram.

Mas o quê?

No meio da Cidade Livre. No centro da Ordem dos Magos. No último andar da Torre Central, a trinta metros de altura, duas figuras conversavam apoiadas no parapeito.

O local era aberto, não havia uma parede fechada que os cercasse, além da mureta apenas quatro colunas dando sustento ao teto piramidal. A esta altura muito pouco se ouvia. No máximo um grito vindo lá debaixo, uma batida metálica ou algum estrondo que ambos não conseguiam identificar o que seria.

Já era próximo da madrugada. Poucas luzes amareladas ainda pontilhavam a cidade. As lamparinas dos postes em cada rua já iam se apagando uma por uma conforme as horas passavam e os gatunos acordavam para mais uma noite de maldade.

Alheio à realidade dos cidadãos de Avska, um dos indivíduos recostados no parapeito da Torre Central, se manifestou:

— Poderia ter me avisado antes? — perguntou a figura trajando um manto vermelho com detalhes dourados, semelhante ao do antigo Arquimago.

— Considere isso como uma recompensa pelo excelente trabalho ao longo dos anos. Eu me lembro de quando conversávamos nos dias de folga entre uma missão e outra. E se não me falha a memória, você almejava se tornar o Arquimago.

— Aquilo não passou de uma aspiração dos meus dias na Ordem. Após a morte do Leonel eu não tive mais cabeça para política, tudo o que eu almejava era vingança, algo que eu buscava em vão. Às vezes eu até esqueço o nome do maldito.

— Walfrido Zeppeli — acrescentou Alexandre. — O homem que me fez buscar a ajuda dos Guardiões. O desgraçado matou dezenas dos meus melhores cavaleiros e Procuradores. Mas o Leonel, aquele rapaz poderia ter sido o futuro de Leon. — Ao terminar de falar, Alexandre rangeu os dentes, fazendo transparecer raiva nos músculos contraídos de sua face possessa. — Nunca devia ter deixado o garoto ir naquela missão, foi uma declaração de morte, amaldiçoo-me todos os dias desde então.

Magnus estava acostumado com isso, afinal, ver o homem com a alcunha de “implacável” se frustrar era algo um tanto sublime, mas não poderia deixá-lo se afligir pela culpa.

— Mas no fundo a culpa foi minha, fui eu quem o incentivou a comandar aquela expedição. Você só me fez um favor, Alexandre, além do mais, nós ainda temos a minha filha.

A raiva possessiva sumiu da face do imperador.

— Como anda aquela pestinha? — disse com um meio sorriso.

— Faz tempo que não tenho noticias da Nathalia. Da última vez me contaram que ela tinha conjurado com sangue sem querer, dá para acreditar num coisa dessas?

Os olhos de Alexandre se arregalaram em espanto.

— Quando terminarmos essa árdua campanha, não precisaremos mais nos preocupar com esse tipo de problema.

— Como assim?

— Nós baniremos toda forma de manipulação, meu velho amigo.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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