Ronan – Capítulo 48 – Arquimago – Parte I



Relegado à beira da estrada, o corpo do Guardião Rúnico jazia sem vida ao lado dos falecidos irmãos de batalha, mas este em particular, teve a runa do peitoral da armadura derretida — alvejada por labaredas infernais que a sobrecarregaram.

Um novo Guardião se juntou aos colegas quando seu cadáver foi arremessado sobre o primeiro. Estaria impecável não fosse à espada montante que perfurou o aço e alojou em suas entranhas, entretanto, a runa da couraça permanecia intacta.

Num puxão o imperador retirou a arma encravada no derrotado. E com a própria capa vermelha limpou o sangue que embebia a lâmina da espada montante, uma vista que lhe trouxera uma saudosa lembrança dos dias áureos.

Ao seu lado, uma figura de cabelos dourados preso por um rabo de cavalo, brandia um florete reluzente, compondo uma moldura harmoniosa com a armadura prata e vermelha que ostentava.

Estava rodeado por Cavaleiros Imperiais nas mesmas cores, ele arregalou os olhos e franziu o cenho ao testemunhar a selvageria praticada pelo imperador da nação que daria a vida para proteger.

— Você precisava se arriscar tanto? Veja… sua capa está um horror!

Um simples olhar foi tudo que recebeu.

A matança havia cessado. Um escudeiro brotou das fileiras e se aproximou com a bainha da montante em mãos. Despreocupado, Alexandre Griffhart empurrou a espada no invólucro que o rapaz segurava com as duas mãos.

Ao terminar, o jovem se adiantou sem precisarem chamar-lhe atenção. Levou a arma às costas do monarca, puxou as fivelas que circundavam o torso e encaixou nelas as amarras da bainha.

Alexandre sorriu ao sentir aquele peso em suas costas, lembrando-o mais uma vez dos saudosos dias de Guardião.

— Magnus! — urrou em júbilo, espantando os guerreiros mais próximos. — Não me sinto assim há anos!

— Você parece um selvagem no cio gritando dessa forma.

Os Cavaleiros Imperiais viraram-se espantados.

— Isso — urrou o imperador uma segunda vez, mas com os braços levantados ao céu avermelhado. — Isso me lembra dos tempos que passávamos aqui, mas era um infortúnio te ver trancafiado naquela torre horrorosa!

Contagiado pela nostalgia, Magnus soltou um riso despreocupado.

— Deixe o passado para trás, é o futuro que nos aguarda — disse apontando para a torre localizada no centro da Cidade Livre de Avska.  — Vamos indo! O caminho está livre, livre como a cidade.

Alexandre, Magnus e os Cavaleiros Imperiais lideraram a vanguarda do exército enquanto atrás deles, dezenas de fileiras marcharam triunfantes pela Cidade Livre, trazendo mais vermelho as ruas lavadas com o sangue da resistência.

As forças defensivas sabiam que haviam perdido quando as catapultas do império derrubaram o portão oeste. Em um ataque concentrado eles foram capazes de ruir as defesas compostas por soldados despreparados e medrosos, que aos montes, desertaram de seus postos para correrem por suas vidas.

Os mais corajosos resistiram como puderam, mesmo com a ajuda dos Guardiões Rúnicos, eles não contavam com números suficientes para empurrarem o avanço implacável das forças invasoras.

Muitos se perguntavam: e os membros da Ordem dos Magos? Eles não ajudaram a defender a cidade? Pois bem, assim que as noticias do cerco chegaram aos seus ouvidos, eles foram os primeiros a subir à Torre Central, mas não por medo, não a maioria. Eles buscaram abrigo, pois sabiam que as forças invasoras não almejavam suas cabeças, e muito menos, o fim da Ordem dos Magos.

De costas para à Torre Central, vislumbrando a outra ponta da estrada, o Arquimago batia a ponta do pé repetidas vezes contra as pedras do calçamento. Não conseguia ocultar a raiva, mordia o lábio a cada instante e bufava a cada minuto.

O longo manto adornado da indumentária pesava o dobro nesse dia. Ao redor de Nicolau, uma dúzia de Guardiões Rúnicos permanecia imóvel como gárgulas de pedra, enquanto os membros do Conselho dos Grão-Mestres se refugiavam na sala de reunião do quarto andar da Torre, local onde a Conferência de Antares ocorreu meses atrás.

Ao longe, adentrando pelo portão frontal da sede da Ordem, pontilhados cresciam e ganhavam forma conforme percorriam a estrada retilínea rumo à comitiva que os aguardava ao pé da Torre Central.

Os pontos viraram silhuetas e as silhuetas já formavam um batalhão de mais de 500 homens e mulheres, marchando sob a liderança de duas pomposas figuras em pomposas armaduras nas cores prata e vermelha.

O rufar da marcha e dos tambores cessaram quando uma figura à frente ergueu o braço direito. Menos de 20 metros separavam os dois díspares grupos opositores, que estudavam o outro, aguardando que tomassem a iniciativa.

Liderando o grupo quase 50 vezes maior, os dois figurões em armaduras pratas em detalhes vermelhos deram dez passos para frente.

O Arquimago engoliu a saliva acumulada, espantou o nervosismo que lhe impregnava os pensamentos e também se adiantou em dez passos. A esta distância Nicolau pôde reconhecer os rostos por trás das frestas dos elmos, principalmente o da sua direita, aqueles olhos e fios de cabelos eram inconfundíveis.

Magnus, seu traidor.

— Acabou! — proferiu o imperador.

Nicolau ignorou os pensamentos sobre o antigo colega para responder categórico:

— Não! A Ordem dos Magos é uma instituição que não compactua com insurgência de uma nação rebelde

— De forma alguma eu ficaria de braços cruzados enquanto vocês permitem uma conjuração proibida em minhas terras.

Magnus Leonhart deu um passo à frente.

— Perdoe-me, mas não seria melhor discutirmos isso num lugar mais… propício? Alias, vejo que o Conselho dos Grão-Mestres não está presente.

Nicolau deixou um sorriso escapar.

— Seu “amiguinho” tem razão, “imperador” — disse os termos com sarcasmo. — Vamos à sala de reunião, lá daremos um fim nessa insanidade.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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