Ronan – Capítulo 45 – Visita – Parte II



Por duas horas elas conversaram sem parar, mas foi após a primeira que a soldada se apresentou. Chamava-se Lígia, ocupava o posto de sargento e era encabeçada da missão. Quando Anna perguntou o que havia dentro das caixas, ela resolveu dizer a verdade:

— Nós vamos distribuir essas duzentas lanças aos guardas de cada vilarejo e cidadezinha ao sul da capital. — Acentuou o que disse batendo com os nós dos dedos na caixa atrás de si.

— Hum… entendi… — Anna respondeu um tanto desinteressada.

— Mas então queridinha. Você disse que ia me contar porque está indo à prisão.

— Vou ver meu pai — terminou envolvendo as mãos nos joelhos.

O silêncio que seguiu permitiu as duas contemplarem os cavalos lutando contra a pequena elevação.

Anna desejou ter em mãos (ou sobre a cabeça) um chapéu semelhante ao do condutor, algo com abas de palha tão grande que sequer um raio de sol atingisse o rosto, mas seus devaneios acabaram quando Lígia findou o silêncio.

— Ele era uma boa pessoa? — perguntou com o meio-elmo pelando em suas mãos, umedecido pelo suor quente que escoria do rosto.

— Eu já não sei mais.

— Mas o que ele fez?

Anna espantou-se com a prontidão que a pergunta viera. Foi como se ela previra sua resposta ambígua, engatilhando uma segunda na língua.

— Ele me bateu.

— Então ele é um monstro, um covarde.

Silêncio mais uma vez.

A companhia se aproximava de uma bifurcação, Anna sabia que para chegar à prisão precisaria pegar a direita, mas para onde eles iriam? Anna precisava perguntar:

— Escuta…

— Nós vamos pegar a esquerda, era isso que ia perguntar?

— Era isso mesmo.

— Então está na hora de nos despedir, Anna Ambrósio. Foi prazer te conhecer.

— Obrigada, igualmente…

— Não se intimide querida, faça o que é certo, ouviu? Apesar de tudo, seu pai precisa pagar pelo que fez a você.

Eu nem mencionei que ele emboscou, feriu e ameaçou minha amiga.

O balançar causado pelas rodas passando sobre rochas foi cessando conforme os cavalos reduziam o marchar, até pararem. Anna contemplou os dois companheiros que compartilharam o mesmo trajeto até então.

O condutor a encarou pela primeira vez e despediu-se num aceno, segurando a enorme aba do chapéu de palha em sinal de respeito. Já Lígia, pelo olhar emanando intenções ambíguas, parecia aguardá-la tomar a iniciativa. Arqueando as sobrancelhas, Anna estendeu a mão direita para um cumprimento, mas Lígia desferiu um tapa na mão que se aproximou.

Os olhos de Anna se arregalaram em incompreensão. A soldada ofereceu o elmo para o condutor, que o tomou sem titubear. Lígia se aproximou, arrastando-se sobre o largo assento de madeira que os três ocupavam. Anna sentiu o envolver dos braços dela irem até suas costas, lhe acariciando devagarinho com as pontas dos dedos.

— Vai dar tudo certo querida, boa sorte.

E um beijo no rosto.

Anna sentiu cada milímetro do rosto arder de vergonha. Ficou ali paralisada sobre o olhar da sargento, que se pronunciou quando a isso.

— Mas querida, vai logo, senão vamos nos perder do resto da companhia.

— É “craro”! — disse em voz alta quando recuperou a compostura.

Anna ajeitou-se no banco, virou-se para a direita, segurou a saia pelas bordas e saltou.

— Adeus senhorita Ambrósio — Lígia despediu-se acenando conforme as rodas da carruagem voltaram a girar.

Anna não se despediu verbalmente, mas acenou com o mesmo entusiasmo da nova amiga, que perdeu de vista assim que a carroça desceu a depressão. Enquanto isso, mais ao longe, os outros transportes lutavam com o antagonista de uma depressão, uma elevação. Inundada pela melancolia da despedida, Anna seguiu seu rumo pela estrada à direita.

O campo aberto foi uma vista abençoada pelos deuses já esquecidos. O sol continuava brilhando forte. As flores pintavam o horizonte de azul, verde e amarelo. Os pássaros cantavam e os insetos castigavam os inconsequentes que não cobriram o corpo. Prevenida, Anna vestira um vestido marrom claro até as canelas, e suas longas meias na cor brancas mantinham-na protegida dos insetos voadores e saltitantes.

A cada quilômetro a frequência das patrulhas aumentava. Devo estar chegando, pensou ao subir um morrinho. Ao atingir o pico, já cansada pela subida, Anna avistou lá longe no horizonte, a mais de três quilômetros de onde observava, uma construção que se juntava a uma pedreira.

Ocupando a porção oeste da instalação, o rochedo formava uma muralha natural enquanto as outras três direções eram cercadas por muralhas erguidas que fechavam o complexo, formando um quadrado à primeira vista intransponível, permeado por torres mais altas que as dos castelos e fortalezas já testemunhadas por ela em seus 17 anos de idade.

Mas toda essa magnitude só poderia ser constatada de perto, pois de longe, a falta de parâmetros confundiria um incauto, fazendo-o subestimar tamanho monumento imperial.

Mas antes da prisão em si, uma pequena guarita filtrava os visitantes. Ao se aproximar, Anna teve de mostrar aos soldados o papel entregue a ela por um oficial quando seu pai foi preso.

— Pode ir garota, mas tome cuidado. Lá o que não falta é estupradores e assassinos que adorariam pôr as mãos em você.

Ela já sabia daquilo, mas ouvir de outra pessoa a deixou mais nervosa.

É uma prisão Anna, tem muitos guardas para te proteger, fica tranquila, disse a si mesma.

Uma dúzia de soldados fazia a segurança do portão da muralha. Todos trajavam as vestes do império: uma cota de malha que protegia o torço e os braços, coberto por um tabardo, um manto longo preso a um cinto que ia até as canelas e, no peitoral do manto, um grifo vermelho tingido sobre um fundo branco.

Ao se aproximar deles, Anna precisou apresentar o mesmo papel que entregou aos guardas da guarita.

Após analisar o documento, o líder acenou para os demais guardas, que num instante desobstruíram a passagem.

— Obrigado — ela disse antes de passar do portão.

Anna perdeu alguns minutos observando o pátio interior, um espaço sem possibilidades dos fugitivos se esconderem em lugar algum. Olhou para as muralhas e percebeu a facilidade que arqueiros poderiam alvejar os fujões ou invasores que porventura penetrassem ou infiltrassem na fortaleza.

Deixando o pátio para trás, Anna teve de caminhar mais 300 metros até chegar à construção onde os presos eram trancafiados.

É claro, eles não iriam se importar em investir em celas aconchegantes, refletiu após adentrar e ver o ambiente interno. Ficou levemente decepcionada, a surpresa do exterior não se aplicava ao interior, onde celas enferrujadas abrigavam os prisioneiros do império.

O cheiro ia além do horrível, era uma mistura de fezes e urina que impregnava o ambiente. Cada cela abrigava de um a cinco prisioneiros. Cada cubículo gradeado contava com uma cama de palha com um cobertor de lã por cima.

Além de um balde de madeira que servia como depósito de necessidades, retirado a intervalos regulares por faxineiros, heróis que impediam o ambiente de ser pior do que já era.

O carcereiro acompanhou Anna pelos corredores. A cada cela que passavam cantadas e provocações tinham de ser aturadas. Mas um comentário em especial havia marcado Anna: “Você é mais gostosa que a minha filha” ouvir isso a fez tremer só de imaginar o porquê do infeliz estar ali.

Após ser perturbada, chegaram a uma ala onde os prisioneiros eram encarcerados em cubículos fechados por paredes de pedras. O carcereiro parou em frente a uma grossa porta de madeira com um retângulo de metal na altura dos olhos. Ele Abriu a fresta, e despediu-se:

— Boa sorte lindinha, qualquer coisa é só gritar bem alto.

E foi embora.

Anna ficou na ponta dos pés para enxergar através do retângulo aberto, mas foi recebida por dois olhos furiosos.

— Tá feliz em ver o papai? — zombou de forma sarcástica a figura por trás da porta de madeira.

— É claro que não. — Anna engoliu em seco. — Mas eu não poderia deixar você ameaçar minha amiga.

Ele grunhiu.

— Me enoja ouvir você chamar aquela princesinha de amiga. Mal posso esperar para sair daqui.

Ela estremeceu.

— Você deveria guardar essa mágoa contra os conjuradores para si mesmo, pai. Tem muita gente de bem entre nós.

O cenho dele se contraiu e seus olhos semicerraram.

— Repita isso sua pestinha! “Entre nós?”. Você se entregou a essa escória que só nos trouxe miséria e decepção? — ele bradou em frenesi.

— Você está confundindo as coisas. Você não deveria julgar todos os manipuladores apenas pelas ações do senhor Leonhart. — Ela hesitou por um instante. — Aprendi isso na universidade, se chama falácia da generalização.

As palavras por ela proferidas apenas atiçaram a ira de Lúcio.

— Os malditos já estão te influenciando! Estão fazendo uma lavagem cerebral em minha própria filha. Malditos sejam! — terminou dando um murro na porta, chamando a atenção dos guardas que por ali passavam.

Anna esperou o pai se acalmar. A respiração dele foi normalizando até ela dizer:

— Tchau pai, te vejo no tribunal.

A fúria dele retornou num lampejo.

— Você vai condenar seu único familiar ainda vivo?

— O senhor não será executado, mas caso o pior aconteça, você não terá mais direito algum sobre mim. — Anna disse com uma frieza congelante. — Sobre o senhor ser meu único familiar vivo… eu ainda tenho o Victor, ou o senhor já se esqueceu dele?

— Sua maldita… Eu devia ter batido em você ainda mais quando veio dizer que entraria naquele ninho de cobras.

Ela suspirou.

— Tchau pai — finalizou dando as costas, sem se importar com os berros e as pancadas que Lucio desferia na porta.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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