Ronan – Capítulo 40 – Lágrimas – Parte II



Vê-lo em frente ao portão da universidade fez Anna se desesperar. Com os dedos tremelicando ela puxou o capuz para frente, para ocultar o rosto. Em seguida inclinou a cabeça, tudo que via era os paralelepípedos e a sujeira presa entre eles. Um par de pernas surgiu em seu campo de visão limitado. A ponta de um dedo indicador apareceu em seguida, puxando o seu queixo para cima, para um par de olhos azuis. Envergonhada por sua face marcada pelos abusos daquele homem, Anna desviou o olhar que fixara em Nathalia.

— Você tem que enfrentá-lo amiga.

É fácil falar sua linda besta do inferno, Anna pensou enquanto engolia a saliva acumulada na boca. Bufou e por fim, encarou-a.

— Não! — disse em alto e bom tom.

Mas ela arregalou os olhos.

— Você vai sim — Nathalia insistiu segurando-a pelo casaco de lã vermelha.

— Não vou não! — Anna resistiu lutando para se desvencilhar das garras dela

— Anna, você vai lá! — esbravejo pausando a cada palavra.

— Me…

Mas foi cortada quando uma voz inquisidora se fez ouvir.

— Anna!

Era seu pai.

A bravura ardendo em Nathalia sumiu assim que ouviu aquela voz, fazendo-a se esconder atrás da amiga, como uma boa covarde. Decepcionada com a leoa acuada, Anna se adiantou encarando o pai com uma bravura repentina.

— Eu não vou para casa, não depois do que você fez.

— Você é minha filha e vai fazer aquilo que eu mandar.

Nathalia notou como ele arfava ao proferir cada palavra. A bravura minutos atrás dissipada, retornou a si, arrastando-a para a realidade. Decidida, saiu de trás da amiga e se pôs ao lado dela.

— A Anna vai ficar lá em casa — intrometeu-se tentando soar corajosa.

O brutamonte olhou-a de cima para baixo. Analisando cada detalhe: o cabelo dourado bem cuidado, a pele pálida, as belas roupas que vestia e aqueles malditos olhos azuis.

— Não me diga que… — Ele arqueou as sobrancelhas em satisfação. — Você… Você é a tal… Nathalia, a filha do lorde Magnus… — terminou num sarcasmo que apavorou a garota.

— Lucio! Não mecha com minha amiga — Anna vociferou alterada.

Lucio?

— Não me chame pelo nome, sua pestinha.

— Como eu posso te chamar de pai quando você fez isso comigo?

Anna jogou o capuz do casaco vermelho para trás. Os estudantes reunidos próximos ao portão pararam o que faziam para dar atenção à briga familiar e se horrorizaram ao verem o rosto inchado da pobre garota. Lucio Ambrosio, o pai de Anna, avançou com um movimento preciso e agarrou o braço esquerdo da filha.

— Anna, vamos pra casa! Temos muito que conversar.

O termo “conversar” provocou uma sensação gélida em Nathalia. A amiga tentou lutar, mas a força desproporcional do brutamente sobrepujou qualquer esforço posto pela frágil e arrebentada garota.

Diversos alunos observavam o desenrolar da situação.

Vocês são conjuradores de alto nível, não é possível ficarem só olhando, refletiu Nathalia, apavorada. Bando de imprestáveis. Apesar de frustrada, tentou ajudar à amiga puxando o braço que a oprimia. Anna contorceu suas feições, seu braço havia se tornado um objeto de disputa, puxado por duas forças opostas.

Quando Lucio decidiu se utilizar do braço livre, o cabo de guerra chegou ao fim. Com toda brutalidade ele repetiu na amiga irritante o agarrão que aplicou em sua filha. Com os braços cruzados ele segurava Anna com a direita e Nathalia com a esquerda.     Elas tentavam em vão resistir a sua força esmagadora.

Mas o braço direito do homenzarrão esquentou. O calor elevou-se a um ponto agonizante, fazendo-o largar o braço de Anna. Lucio foi perdendo a sanidade. Com a fúria emanando do olhar, ele mirou para a garota que ousou se utilizar de conjuração para livrar sua filha.

Nathalia o segurava com os dois braços, mas foi com a mão livre que ela concentrou a energia necessária para que ele a soltasse. E com um guincho de angústia, ele largou.

— Pra trás! — esbravejou Nathalia. Na palma da mão uma reduzida esfera flamejante ameaçava ser disparada contra o homem.

— Sua desgraçada! Você… vo-você… você me queimou, com bruxaria! — espumava de raiva.

No momento, somado aos estudantes, dezenas de pedestres pararam para observar a confusão em frente à universidade, mas nenhum deles ousou mexer um dedo sequer.

— Eu vou te denunciar e você vai ser presa… sua bruxa! — Lucio continuou.

Um ecoar de baques apressados se aproximava. Aos poucos, os alunos ali parados deram espaço para alguém passar. Era Catarina Grivaldo, ela surgiu quando os últimos bocós saíram de sua frente. Vestindo um chapéu pontiagudo preto, uma longa capa negra e um salto alto cor de rosa, ela se pôs com autoridade entre os protagonistas da confusão.

— Ninguém vai ser preso aqui senhor Ambrósio, nossa aluna usou conjuração para se defender das suas ameaças.

— Dane-se. Mas a Anna é minha filha! E ela vai pra casa comigo!

Catarina se virou para a garota.

— Você quer ir para casa?

— Não professora, eu vim aqui para conversar com o conselheiro.

Catarina então se deu conta da turba aglomerada, decidiu fazer algo quanto a isso.

— E vocês seus imprestáveis. — Ela apontou para a multidão. — Circulando, agora! — vociferou com autoridade.

Voltando para as duas alunas, a professora as convidou:

— Podem entrar garotas.

Mesmo um tanto relutantes, as duas passaram do portão. Lucio, ainda bravo, passou pela professora e partiu atrás da Anna, até bater de frente com uma barreira transparente.

— Que bruxaria é essa? Me deixe falar com minha filha, sua bruxa!

Os recém-chegados esperaram a professora baixar a barreira.

Observando aqueles imbecis, Catarina adiantou:

— Podem dar a volta moços e moças, não pretendo desfazer minha conjuração enquanto este senhor não sair daqui.

Incomodados por terem de andar meio quilometro, os estudantes caminharam em direção oeste, onde ficava a entrada lateral.

Catarina encarou Lucio por um tempo. Os dois se entreolharam como cavaleiros prontos para engajar em duelo mortal por algum tesouro cobiçadíssimo. A impassividade se arrastou por três demorados minutos, até Catarina ordenar:

— Circulando senhor Ambrosio.

Ele se deu por vencido, pois teria de ir trabalhar.

— Piranha desgraçada — sussurrou.

Com aquele empecilho fora do caminho, a professora correu da única forma que o salto a permitia, quando avistou as garotas cruzando o pátio, ela as chamou:

— Meninas… me esperem. — O som dos seus passos ressoou pelo pátio.

Um tanto envergonhada, Anna se despediu da amiga que iria à aula, virou-se e flagrou Catarina se aproximando com um bizarro sorriso, até parar em sua frente para retomar um pouco de ar.

— Eu irei te acompanhar até a sala do Rafael. — Ela se ofereceu um tanto esbaforida.

Anna arqueou apenas a sobrancelha direita.

— Mas o Rafael não é o coordenador?

— Ele é um faz tudo por aqui, não se deixe enganar, ele é supimpa.

Supimpa? Bom, deixa pra lá.

Durante o curto trajeto as duas conversaram sobre a confusão de antes. Anna contou sobre a relação que tinha com seu pai enquanto Cataria ouvia com atenção, sempre questionando quando notava que Anna poderia estar omitindo algum detalhe importante.

Por fim elas chegaram à sala do coordenador, ou melhor, conselheiro. A professora abriu a porta e elas entraram. Rafael estava sentado com os cotovelos sobre a mesa e, ao ver o rosto descoberto de Anna, proferiu um impulso irracional:

— Pelos deuses!

Anna recuou para trás com o susto que tomou, pois acabou se acostumando com o estado que se encontrava, às vezes até esquecia estar toda arrebentada.

— Perdoe-me… é… senhorinha…

— Ambrósio, Anna Ambrósio.

Catarina se adiantou e resumiu a Rafael o ocorrido no portão da universidade. Quando terminou, as duas se sentaram, Anna contou tudo que já havia falado à professora durante o trajeto. O conselheiro ouviu com uma expressão impassível, se esforçando para absorver cada detalhe e nuance do relato. Quando Anna acabou, Rafael apresentou algumas opções.

— Entendo… Anna. Sua situação é muito peculiar, não posso dizer que já tive de lhe dar com algo desta…  complexidade antes.

É claro. Gente da elite não costuma apanhar dos seus pais. Deixando sua frustração de lado, Anna continuou a dar ouvidos.

— Tudo depende de você, se quiser, podemos dar inicio a uma investigação de abuso contra…

— Não! — ela protestou de imediato. — Eu não mandarei meu pai para cadeia.

Foi Catarina quem respondeu.

— Ele não precisa ser preso. Às vezes uma intimação é o suficiente para que o seu pai deixe de… — hesitou receosa — você sabe…

— Desculpe professora — interveio Rafael. — Com a experiência que tenho eu pude perceber que intimações costumam fazer os indiciados culparem suas vítimas. Por isso, precisamos de uma solução eficaz. Ele bateu nela porque a coitada derrubou uma estante. Já imaginou o que ele faria se recebesse uma intimação?

— Mesmo assim, do que adianta ficarmos filosofando sobre isso se a garota nem sequer pretende prestar uma queixa. Intimação, prisão ou o que for está fora de cogitação enquanto ela não se manifestar. — A professora encarou Anna. — Querida… Você não quer mesmo prestar queixa?

— Já disse que não. Eu não vou prejudicar o… meu pai…

— Tá vendo Rafael, não adianta.

— Assim fica difícil, não podemos denunciá-lo sem o consentimento da vítima. Infelizmente nossa legislação é arcaica. Onde já se viu a filha ter de acusar o pai, enquanto ela vive sob sua tutela. — Rafael se recostou em sua cadeira confortável e, num impulso, jogou-se para trás até parar em um ângulo diagonal quando a cadeira foi aparada pela parede. E nessa posição esquisita, ele refletiu. — De qualquer forma eu apresentarei este caso aos demais representantes do conselho. Enquanto isso, eu tenho uma “manobra” — Ele imitou as aspas com a mão. — Eu posso te oferecer um quarto num dos prédios da Universidade, eles servem para situações em que nossos alunos se encontrem em alguma situação “especial” como a sua — Repetiu o gesto mirabolante.

Anna sorriu, pois finalmente alguém apresentou uma boa ideia.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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