Ronan – Capítulo 39 – Lágrimas – Parte I



No meio da rua, de pé em cima de um caixote de madeira, um arauto a serviço do império vociferava a plenos pulmões as últimas noticias. Cruzando à esquina e adentrando na rua que ele ocupava, Nathalia e Anna o flagraram arrebanhando os moradores e transeuntes para perto de si.

Sem dizer nada, elas se aproximaram, atraídas pela curiosidade das massas.

Esticando as fibras do gibão que mal lhe cabia, o arauto gesticulava a cada palavra vociferada, trazendo os olhares que o cercavam, para a sua mão direita, que apontava para o céu nublado.

Para o azar das garotas, elas chegaram tarde, tarde demais para ouvirem sobre o aumento da cotação das batatas trazidas das vilas mais próximas, mas para compensar, elas vieram cedo o bastante para ouvirem algo um tanto, relevante.

— E de Alvovale eu também lhes trago notícias — o anúncio entoado em voz alta captou a atenção dos desinteressados com o preço das batatas. O arauto não pôde deixar de considerar os que agora chegavam. Quando a turba reunida já tomava os seis metros de largura da rua, ele recomeçou: — E do norte eu também lhes trago notícias.

— Você já disse isso! — reclamou uma voz vinda da sua direita, seguida por muitas outras.

Inabalado com as provocações, o arauto prosseguiu:

— Ouçam bem meus camaradas, pois esta muito lhes interessa. — Como num passe de mágica o silêncio se alastrou para satisfazer-lhe. — Ficamos sabendo há poucos dias, que uma incursão liderada por Eduardo, o comandante dos Guardiões Rúnicos, foi rechaçada quando tentaram invadir a prisão de Alvovale.

O silêncio acabou quando dezenas de conversas paralelas distraíram a multidão. Olhos arregalados se encontraram e desconhecidos se conheceram para fofocarem entusiasmados sobre o fato narrado.

Por outro lado, Anna e Nathalia tiveram de esperar a multidão dispersar, o que não foi fácil, pois tagarelas e sem noção interrompiam o fluxo, mesmo após o arauto descer do caixote para ir trovejar em outro lugar.

Por dez minutos elas aguardaram o moroso desobstruir da passagem. E com o caminho livre elas seguiram até dobrarem a esquina que dava acesso à rua onde acontecia a feira.

O aroma trazido pela combinação de vegetais, legumes e frutas expostas impregnou o olfato das estudantes que por ali passavam. De ambos os lados, sobre largos calçamentos, fileiras de barraquinhas com produtos expostos disputavam os clientes que negociavam as primeiras transações do dia.

Anna já fizera este percurso diversas vezes, mas testemunhar os moradores e transeuntes cumprimentarem a amiga com um sorriso no rosto e, por mais incrível que pareça, vê-la retribuir com o mesmo entusiasmo, era algo inédito, quase inacreditável.

Quando Nathalia cumprimentou um senhorzinho corcunda, banguela e calvo, foi quando Anna não pôde mais se aguentar e deixou uma risadinha abafada, escapar.

— Que foi? — disse Nathalia, acompanhando a risada sem saber que era o motivo.

— Nada não, amiga — Anna puxou o capuz do casaco para frente, para cobrir-lhe a testa. — Espero que o conselheiro me libere da aula hoje.

— É claro que vai. Me admira você ainda conseguir ficar em pé.

Anna mordeu o lábio inferior e escondeu suas mãos dentro das mangas do casaco, para ocultar do mundo as suas cicatrizes. Por misericórdia do destino suas penas foram poupadas, mas não podia dizer o mesmo do rosto, tronco e braços. Com uma leve cotovelada Nathalia chamou sua atenção, para admirá-la com um brilho no olhar.

— Você é tão forte, é um exemplo para mim.

Anna não quis responder. Ouvir aquelas palavras fez sua estima aquecer, mas perguntava-se: do que vale essa força comparada à autoridade intrínseca do meu pai? Em silêncio as duas chegaram à última barraquinha da feira. Nathalia agora encontrava dificuldades para elaborar algo para ajudá-la. Talvez meras palavras não fossem o que Anna precisava, mesmo assim insistiu no assunto.

— Você não quer mesmo denunciar o seu pai?

— Não Nat! Eu já falei ontem que eu não vou prejudicar ele. — Anna a fuzilou com seus olhos castanhos claros. — E não se atreva a se intrometer!

Nathalia baixou a cabeça após suspirar.

— Só queria ajudar — sussurrou para si mesma.

Mas Anna ouviu.

— Eu sei…

Neste clima fúnebre as duas cruzaram a rua. Ao longe a universidade surgia, crescendo em tamanho conforme o passo das garotas as levava para perto. Em dez minutos alcançaram o muro frontal, mas para chegarem ao portão de entrada, mais cinco minutos de caminhada seria necessário.

Andar ao lado da amiga após tanto tempo deixou Anna nostálgica, surpreendida por descobrir a saudade que nutria pelos velhos tempos. Virou o rosto para direita, para onde Nathalia caminhava com o olhar baixo, pesaroso, até ela virar-se em um movimento brusco, fazendo Anna cambalear para trás devido ao susto tomado. Com o rosto pálido e um olhar espantado, Anna congelou horrorizada.

Logo em frente estava um homem alto trajando uma camiseta branca, machada por listras gordurosas na vertical. Após seus músculos descongelarem, ela apontou e disse:

— É ele!

Nathalia o visualizou por um momento. Observou aquele corpo avantajado, rosto oval e cabelo castanho, só poderia ser…

— Seu pai?


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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