Ronan – Capítulo 38 – “Manada” de Cães – Parte III



Em um quarto familiar, Anna Ambrósio despertou.

Aquelas paredes pintadas numa tonalidade creme encheram sua mente nublada de saudosas lembranças. Assim como a cama, seu braço encostava contra a parede, absorvendo um delicioso frescor que sumiu graças ao contato com a pele. Na frente da cama, mas apoiada na parede, uma estante de carvalho guardava seus romances favoritos, que costumava pegar da biblioteca particular dos Leonhart, para ler antes de dormir.

Sentada na cadeira que arrastou da escrivaninha até a cama onde estava sua amiga, Nathalia vislumbrou a paisagem fora da janela enquanto segurava na mão esquerda dela.

Tocada com a preocupação alheia, Anna puxou-a para si com a força que lhe restava. A puxada pegou Nathalia desprevenida. Durante milésimos que pareciam segundos, testemunhou os olhos arregalados dela se encontrarem com os seus.

Por um tempo as duas se entreolharam, caladas, até…

— Manada de cães. — Nathalia sorriu. — Não consigo tirar isso da cabeça.

— Nat… do que você está falando?

O azul em seu olhar, brilhou.

— Foi o que você disse quando eu te perguntei sobre o que tinha acontecido.

— Você sabe o que foi. Você é a única que sabe.

— É claro, afinal, cachorros com tromba de elefante não é algo que se vê neste continente, ou em qualquer outro, mas se eles de fato existirem, eu doaria minha herança aos pobres, só para vê-los. Quem sabe eu até faça uma doação aos Zeppelis.

Anna riu do absurdo, não sobre os cães com tromba, mas sobre ela prometer doar a fortuna aos menos afortunados. Foi então que sentiu a mão de Nathalia percorrer a sua, terminando em seu braço repleto de cortes e hematomas.

— É uma pena minha mãe estar fora, mas tivemos sorte da Lucia estar aqui, foi ela quem fez os curativos, enxaguou os ferimentos e até aplicou uma pomada que vai ajudar na recuperação.

Os olhos castanhos de Anna brilharam.

— Ela sempre foi uma santa. Assim que eu me recuperar eu irei agradecê-la pessoalmente.

— Ela vai adorar ver você de novo… depois de tanto tempo.

Ouvir aquilo a fez transbordar em nostalgia. Relembrou dos inúmeros fins de semanas e feriados que costumava passar ali. Quantas brincadeiras, refeições em família, travessuras, broncas e vasos quebrados elas não compartilharam nesta mansão.

— Nat…

— Anna, você não precisa se desculpar. Eu entendo que você queira manter alguma distância de mim, eu entendo. — Seus olhos foram tomados pela melancolia de constatar a realidade.

— Elas não são minhas amigas, não de verdade… Eu queria te deixar enciumada por um tempo — admitiu, envergonhada.

— Você? Fazendo uma coisa dessas? Amiga, o seu disfarce de garota exemplar caiu por terra! — Seus lábios finos foram tomados por um sorriso de satisfação.

— Hoje, quando eu ia para casa depois da aula, o Ronan me contou sobre minhas “amigas”. — Anna omitiu a parte de ter golpeado o coitado com uma cotovelada. — E… elas riram da minha situação. — O sorriso de antes foi desfeito, seu rosto inchado foi tomado por algumas lágrimas contidas. — E elas ainda fingiram se importar comigo quando voltei pra sala — terminou choramingando.

A mão de Nathalia apertou com força o seu braço.

— Nunca fui com a cara daquelas lá.

— Mas Nat, você nem conhece elas.

— E eu preciso?

Anna respirou fundo, tentou se esquecer da apunhalada que recebeu das amigas. Quando olhou para Nat, viu que ela lhe encarava com desconfiança.

— Você gosta do Ronan?

Seu rosto enrubesceu num segundo.

— Que?

— Me responde Anna, você gosta ou não?

Anna apertou os lábios, olhou para os lados e bufou.

— Não sei! — disse desviando o olhar inquisidor da garota do cabelo dourado. — Ele é… como eu posso dizer… Simples, não tem pais famosos, sua família não é rica e ele teve que se esforçar para entrar na universidade, assim como eu.

Quando Anna parou de evitar o olhar discriminado de Nathalia, encarou-a. Sua amiga segurava uma risada das grandes. Não conseguindo mais se conter, Nathalia irrompeu em gargalhadas descontroladas. Estava tão fora de si que retirou a mão direita do braço de Anna para conter a fonte da histeria. Em meio aos risos agora abafados, tentou se controlar.

— Desculpe amiga, eu estava de brincadeira. Não imaginava que você iria admitir.

Maldição, pensou Anna antes de respondê-la.

— Eu não admiti coisa nenhuma, só falei que tenho alguma admiração pelo coitado.

— Coitado… É bem essa palavra que define o Ronan. Ele vive se escondendo atrás do Zeppeli, nunca demonstra iniciativa alguma e na aula permanece quieto na dele, mas devo admitir, ao menos não é arrogante como o outro.

— Ou como você — Anna zombou sabendo que falava a verdade.

— Ei!

— Estou mentindo por acaso?

— É claro que não.

As duas riram por um tempo, perdidas num lampejo de inocência, mas quando o peso da realidade recaiu sobre as duas, elas sabiam que teriam de falar sobre “aquilo”. Nathalia levou sua mão direita ao braço da amiga mais uma vez. As duas se entreolharam.

Anna sabia o que estava por vir.

— O que aconteceu dessa vez? — Nathalia perguntou já acostumada com a situação.

— Eu derrubei uma estante quando fui praticar minha conjuração do vento. Alguns vasos se partiram e a estante, bem, digamos que ela vai alimentar o fogão a lenha por alguns dias. — Fechou os olhos com pesar, mas os abriu para fazer um pedido. — Posso… passar alguns dias aqui?

Nathalia mordeu os lábios e acenou.

— É claro amiga, minha casa está sempre aberta pra você.

— Obrigada. Me sinto mal por ter que pedir um favor desses, ainda mais depois de ter me distanciado. Eu não devia ter dado as costas quando você mais precisava.

— Anna… Eu estava fora de mim, te entendo perfeitamente, não se preocupe.

— Você sempre me acolhe quando a situação complica lá em casa.

— E você sempre me faz ver o outro lado, mesmo que eu insista em fazer o pior.

Anna sentiu aquelas palavras aquecerem o seu corpo gelado.

— Sabe amiga — começou Nathalia. — Você não deveria praticar sua manipulação dentro de casa, além de ser contra as regras, você sabia que ele iria se zangar ao descobrir.

— Desculpa, mas eu não tenho um pátio espaçoso com bonecos de madeira para praticar. Minha vizinhança mal tem lugar para abrigar as inúmeras casinhas que se amontoam. Não tem como construírem uma praça para os universitários praticarem sua conjuração — zangou-se.

— Eu não sabia — Nathalia admitiu cabisbaixa.

— É claro que não, você nunca veio me visitar.

— Você nunca me convidou para ir lá.

— É claro que não, eu não queria que você o conhecesse. Já imaginou uma carruagem tão cara quanto todas as propriedades de lá somadas, parando na frente da minha casa? Você consegue imaginar eu te apresentando? “Olha papai, essa é a filha do Lorde Magnus”. O que você acha que ele iria dizer? “Nossa! É um prazer conhecer a filha do homem que enviou, eu e minha esposa para a guerra anos atrás”. — Imitou em tom debochado a voz de seu pai.

Nathalia sentiu-se mal ao ouvir a deprimente realidade, mas teve de concordar.

— Tem razão.

Anna bufou, brava consigo mesma.

— Me desculpe, mais uma vez eu me deixei levar.

Nat sabia disso, mas ouvir aquilo trazia para si a responsabilidade de ser a filha de um importante aristocrata, que se acostumou a brincar com a vida daqueles abaixo de si. Olhando para a amiga enferma, perguntou:

— Acha que já não passou da hora de denunciá-lo?


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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