Ronan – Capítulo 37 – “Manada” de Cães – Parte II



A angústia ardia dentro de si. Tocar o próprio rosto tornou-se autoflagelo. Ficar sentada ouvindo o professor era muito pior, mas talvez nem tanto quanto flagrar algum colega lhe encarando com os olhos bem abertos. Com a visão periférica, Anna captou o professor Felix guardar o giz, para anunciar:

— A aula terminou, podem ir para casa.

Finalmente.

Com o material já guardado na bolsa, Anna levantou-se e disparou para fora da sala. Não queria ser parada por ninguém, queria apenas sair dali o quanto antes. Desceu as escadas e caminhou em ritmo acelerado pelos corredores, até uma mão segurar seu ombro direito, puxando-a para trás.

Apavorada pela abordagem repentina, desferiu uma cotovelada no rosto do indivíduo que ousou abordá-la.

Mas foi Ronan quem urrou em dor ao cair no chão, desnorteado.

— Caralho Anna! Pra que isso? — esbravejou com um quê de choro em sua voz.

— De-desculpa Ronan. Perdão, perdão, perdão. Foi sem querer, foi no impulso, eu juro! — De todos, ele era o último que pretendia atingir com tanta violência.

Diversos estudantes de outras turmas circundaram os dois, ignorando-os, seguindo com suas vidas e problemas. Anna estendeu sua mão e ajudou o colega a se levantar.

Recuperado da queda, Ronan disse:

— Tudo bem, mas amanhã serei eu a acompanhar pelo professor morto-vivo até a coordenação.

Anna deu uma breve risada.

— Você veio me perguntar o que aconteceu não é? Eu já disse, eu fui roubada. — já adiantou enquanto os dois caminhavam lado a lado até a saída.

— Na verdade, eu queria falar sobre as suas “novas amigas” — disse num tom apologético.

— O que têm elas?

Ele parou de caminhar. Anna o encarou preocupado.

— Elas… riram da sua situação… enquanto você estava fora da sala, lá na coordenação.

Anna olhou para seus pés, para as simples botas marrons já desbotadas.

— Obrigado por me contar… Ronan — sua voz saiu um tanto trêmula.

— Foi seu pai… não foi?

O melancólico olhar de Anna se contraiu em raiva.

— Quê? De onde você tirou isso?

O calor que sentiu no rosto só indicava que havia enrubescido.

— Desde que eu vi você e o seu pai na reunião dos calouros… eu senti um clima estranho entre vocês.

— E assim, do nada, você acha que ele abusa de mim? — Ela se aproximou e apontou o dedo em sua direção, fazendo-o cambalear contra uma das árvores ali perto. — Escute bem Ronan. Não se meta na minha vida. Eu gosto de você porque sempre fica na sua e não faz mal a ninguém, mas não venha se meter onde não foi chamado. E nunca mais ouse falar alguma coisa sobre ele na minha frente.

Quando Anna terminou de repreendê-lo, alguns estudantes pararam para observá-los.

— Vai com calma patroa, vai espantar teu namorado assim — disse um veterano alto, atlético com um cabelo loiro jogado para trás.

As bochechas de Anna ficaram tão avermelhadas quanto as do amigo. Envergonhada, encarou o veterano zombeteiro, mas não estava a fim de repreendê-lo. Virou-se então para Ronan, para dizer:

— Espero que tenha entendido. — E deu as costas sem se despedir.

O último dos seis bonecos de madeira crepitava em consequência das chamas invocadas por Nathalia. Em sua palma, uma esfera avermelhada tremulava, esperando ser arremessada contra um dos alvos carbonizados, mas em vez disso, ela desvaneceu esquecida entre os devaneios da conjuradora.

Sob o piso de paralelepípedos cinzentos do pátio de trás da mansão, Nathalia contemplou os cortes em seu braço direito, recordando seu pecado capital. Pensativa, virou a palma para cima e sentiu em seus dedos o ar ser manipulado.

Como se levada pela emoção, questionou-se sem verbalizar: Porque não deu certo naquela vez? Como eu fiz aquilo? Eu nunca pesquisei manipulação proibida, eu não tenho ideia de como fazer uma, foi então que algo pior veio em mente: Acusar aquele coitado de algo que não fez… lembrou-se do esporro que recebeu do pai ao contar a verdade sobre o “assédio” sofrido.

Idiota.

Deprimida, voltou-se para à porta aberta da mansão. Joff, o mordomo da residência Leonhart aproximou-se com um caminhar metódico. Seu traje de veludo branco com detalhes dourados se destacou quando foi atingido pelos raios do sol que se punha no momento.

Apesar de servir a uma família tradicional, o mordomo sempre sorria, poderia não ser alguém tão importante quanto seus patrões, mas sua vida era tranquila e se incomodava apenas quando os demais criados aprontavam alguma coisa. Para seus quarenta anos, Joff era bem cuidado, seu cabelo castanho ia até a altura do queixo quadrado e a rotina puxada mantinha seu corpo em forma.

— Visita para a senhorita — ele disse curvando-se brevemente.

— Eu já vou…

— Acredito que a senhorita deva ir logo.

— Tá! Diga que já vou… Quero acabar com aquele boneco antes. — Apontou para o alvo de madeira carbonizada.

— É a senhorita Ambrósio quem espera — insistiu o mordomo.

Ouvir aquele nome fez seus batimentos acelerarem. Nathalia largou o que fazia e disparou para dentro da mansão com um passo acelerado.

Joff a acompanhou.

Chegando lá, Nathalia parou de frente à porta e aguardou Joff abri-la. O mordomo segurou as duas folhas de madeira nobre pelas maçanetas e as abriu para dentro do cômodo.

Mas aquilo não poderia ser a Anna. A figura em sua frente parecia uma vítima de tortura que sofrera por dias ou semanas no calabouço de algum monstro inominado. O nariz dela estava fraturado. Os cantos do lábio sangravam. As bochechas, além de inchadas, tinham marcas de cortes, assim como a testa preenchida por hematomas. Nem sequer o cabelo conseguia esconder as feridas que sangravam entre o couro cabeludo, tingindo com sangue os fios castanhos da garota.

— Oi Nat… — balbuciou com a voz fraquíssima.

Nathalia soltou um gritou estridente ante o susto que levou ao reconhecer a amiga. Ela estava muito pior do que quando chegou à sala de aula na manhã desse mesmo dia. Atônita, Nathalia virou-se para o mordomo.

— Faça alguma coisa Joff!

— Já está tudo encaminhado senhorita. As criadas com alguma experiência em primeiros socorros logo chegarão, basta aguardarmos um pouco.

Boquiaberta, Nathalia a encarou.

— O que houve amiga? — sua voz exalou desespero.

— Fui… — resmungou, entre um gemido de dor contida.  — Atacada… por uma… manada de Cães — guinchou.

Manada de cães?

Enquanto Nathalia refletia sobre aquele absurdo, sua amiga despencou, por pouco conseguiu apará-la em seus braços. O vestido branco que trajava foi manchado de sangue.

Dane-se.

Nathalia abraçou-a com força e com a ajuda de Joff, carregaram a garota até um banco de madeira nobre que ficava ali perto da entrada.

Com Anna sentada, os dois constataram, ela havia desmaiado. Nathalia e o mordomo puderam ver a trilha de sangue deixada por ela. Ao contemplá-la, notaram os curativos improvisados, eram trapos rasgados da própria roupa que continham de maneira nada eficaz os sangramentos em seus braços.

Manada de cães, foi tudo que Nathalia conseguiu pensar.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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