Ronan – Capítulo 36 – “Manada” de Cães – Parte I



Dario foi liberado do hospital após dois meses de internação. Ao regressar à universidade, foi graças aos esforços de Ronan que ele pôde acompanhar as aulas teóricas sem perder-se nas explicações, pois regularmente o amigo vinha ao hospital lhe entregar o material passado em aula, além de explicar com didática as partes mais complicadas.

Para seu alívio, sua manipulação avançada fez com que tantas ausências nas aulas práticas não comprometessem seu desempenho. Apesar das primeiras provas perdidas, a coordenação permitiu que os professores aplicassem um teste equivalente e, graças a Ronan, Dario tirou notas mais que satisfatórias.

Na segunda-feira, dia 8 de abril, a turma de calouros da sala A-101 havia terminado a leitura do Estatuto da Manipulação: dentro da universidade e seus arredores. Felix Fitz, muito esperançoso, torcia para que a turma tirasse algum proveito daquelas aulas, ainda mais após tantos incidentes envolvendo as Artes Arcanas.

Com a segunda-feira livre, o professor decidiu adiantar alguns assuntos. Para hoje, Felix os introduziria no estudo das runas, que por sinal, seria uma matéria importante do próximo semestre, mas como era um tema um tanto complexo, uma aula introdutória poderia lhes ser de grande valia. Ainda mais quando lembrava quem iria lecionar a disciplina futuramente. Felix ajeitou suas vestes sem graça antes de dizer:

— Antes do inicio da aula introdutória sobre runas, eu gostaria de lançar um desafio para vocês: alguém saberia me dizer o porquê das runas serem tão peculiares no mundo da manipulação arcana?

Todos puseram a cabeça para funcionar. Aquela era uma pergunta um tanto básica da disciplina, mas ninguém tivera o interesse de pesquisar sobre o assunto até o presente momento.

Ronan virou-se para Dário.

— Você sabe? — perguntou com as sobrancelhas arqueadas.

— Cara! Eu até tenho um palpite, mas prefiro nem falar.

— Porque não? — estarreceu incrédulo por ele perder aquela “oportunidade de ouro”.

— Pra levar um esporro do morto-vivo? — Era assim que a turma passou a chamar o professor Felix. — Nem ferrando, prefiro ficar na minha.

Dario virou-se para a direita e encarou sua querida colega.

— Pelo menos a loirinha também não parece saber — disse sorrindo em satisfação.

Ocupando a bancada com um lugar vago, Nathalia e Karen ignoravam a pergunta lançada pelo professor para discutirem um assunto que julgavam muito mais importante.

— Ainda não sei por que a Anna não vem sentar com a gente. Ela insiste em ficar com suas novas amigas.

— Karen, eu sei, isso também me incomoda, mas não podemos forçar ela a agir como antes. Não depois de tudo que eu fiz. Pelo menos ela ainda conversa com a gente.

— Ela nem veio hoje, o que será que aconteceu?

Quando ia responder a pergunta da amiga, alguém levantou o braço para responder a irrelevante pergunta feita pelo apelidado professor morto vivo.

— A peculiaridade das runas é que canalizamos nela nossa própria energia e o padrão nela escrita faz a sincronização ou conversão automaticamente — Dario respondeu, persuadido a se manifestar pela insistência do amigo.

— Esse é o conceito das runas em si. A pergunta é: qual é a peculiaridade delas? Mesmo assim, obrigado por tentar.

— Mas que droga, Ronan! — Dario esbravejou furioso, chamando a atenção da turma toda para si sem perceber. — Eu te falei que não queria responder a pergunta do morto-vivo. — Essa última parte saiu um pouco mais alto do que pretendia.

Mas percebeu tarde demais a besteira que fez. Todos, inclusive o professor, o encaravam com os olhos arregalados. Felix se levantou, inspirou profundamente e antes que pudesse dar um esporro histórico em seu aluno, Nathalia caiu na gargalhada, para o espanto da maioria.

Com a tensão dissipada, Karen foi contagiada. Em uma progressão exponencial a turma inteira caiu na risada. Apesar de estar quase para explodir de vergonha, Dario rendeu-se a situação e acompanhou o bom humor das massas.

A porta da sala foi aberta. Ainda afetado pelas risadas, Ronan imaginou ser alguém da sala ao lado que viera reclamar da baderna, mas estarreceu ao ver quem entrava. As risadas foram morrendo a cada passo que ela dava. Era uma garota de cabelo até o ombro, cujo rosto inchado era um horror de se olhar.

A face brava de Felix deu espaço à preocupação.

— Anna… o que aconteceu com você? — perguntou enquanto ela sentava ao redor das novas amigas, que a contemplavam horrorizadas.

— Fui roubada… professor Felix — disse com a cabeça baixa, vislumbrando a madeira da bancada.

— Você passou na coordenação antes de vir?

— Não, professor… Eu não passei.

— Então vamos lá Anna, eu te acompanho.

— Tudo bem…

Anna se levantou com dificuldade. Acompanhada pelo professor ela iria conversar com Rafael, o coordenador, mas antes de chegarem à porta da sala, Felix instruiu a turma ociosa.

— Pessoal! — ele chamou em voz alta, pondo um fim às conversas exaltadas que tomaram o ambiente. — Aguardem aqui em silêncio. Eu voltarei para continuar a aula. Espero que até lá vocês já tenham formulado uma resposta para a minha pergunta sobre runas.

E sob os olhares de todos, Felix e Anna saíram da sala A-101.

Momentos depois a turma já fofocava sobre Anna. Dario ficou espantado e acreditava piamente nas palavras ditas por ela, afinal, por qual outro motivo ela apareceria tão arrebentada senão devido a um assalto no trajeto? Por outro lado, alguns imaginavam algo pior, como uma tentativa de abuso.

Nathalia e Karen ficaram horrorizadas. Abraçadas elas se reconfortavam como podiam. As novas amigas de Anna, por outro lado, fofocavam em voz alta sobre a coitada.

Uma amiga de vocês foi atacada e tudo que fazem é rir do estado dela, refletiu Ronan, enojado com aquilo tudo.

Uma hora inteira passou até Anna e Felix voltarem à sala de aula. Ronan sentiu uma pontada no peito ao vê-la sentar com aquelas amigas, agora tão solidárias e preocupadas com seu estado.

Sem perder tempo Felix retomou a aula repetindo a pergunta que deixou antes de partir:

— Mais uma vez pessoal. O que faz as runas serem tão peculiares?

Um silêncio se arrastou até alguém se voluntariar.

— São peculiares porque aprendemos sobre elas lá no segundo semestre.

Foi Dario quem “respondeu”.

O professor fechou os olhos, inspirou com calma e disse:

— Escute bem senhor Zeppeli. Não é porque você se recuperou de um trauma que eu irei pegar leve com as suas zombarias. Se você continuar com essas ironias eu te suspenderei mais uma vez. Em respeito ao acidente, irei deixar essa passar, mas que isso não se repita.

— Me desculpe professor — disse revirando os olhos.

— Pelos deuses Dario, você bateu com a cabeça e voltou a pensar como uma criança por acaso? — Nathalia debochou provocando o riso dos colegas.

— Não bati com a cabeça não, mas quase fui morto por uma bruxa horrorosa meses atrás — revidou encarando-a com um olhar desafiante.

Nathalia não retrucou, mas respondeu fazendo uma careta, mostrando a língua para ele. Não era uma boa ideia brincar com aquilo. Para surpresa dos alunos, o professor ria, apesar do riso ser contido e abafado, todos ficaram chocados por ele não estar berrando como fazia quando interrompiam sua aula. Ao terminar, após muito relutar, Felix deu a resposta da pergunta.

— Como vocês aparentam não saber a resposta, então terei eu que revelá-la — Seu tom era decepção pura. — As runas são peculiares porque…

— Porque apenas o criador pode ativá-las — respondeu Nathalia, sem se importar em cortar o professor.

— Disse a bruxa da floresta — zombou Dario logo em seguida.

— Professor!

Felix Fitz levou a mão direita ao rosto, tapou seus olhos e os coçou com força, bufou, levou a mesma mão até a nuca e coçou com nervosismo o longo cabelo negro como breu. Bufou mais uma vez, olhou para o teto, inspirou e expirou. Quando se acalmou, ignorou a irritante interferência de Dario.

— Sim Nathalia, apenas o criador da runa pode ativá-la.

O que eu faço com esse garoto, pensou ainda olhando para o teto.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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