Ronan – Capítulo 35 – Infiltrados – Parte IV



Adotando um olhar fulminante, Magnus Leonhart encarou os dois Guardiões encurralados contra a parede. Aproximou-se arrastando o florete que empunhava contra as grades de cada cela, deixando o tilintar metálico dar um clima ao embate que previa. Para a ocasião ostentava sua famosa armadura prata e vermelha, trazendo embaixo do braço esquerdo o elmo fechado que julgou necessário trazer.

Magnus viera sozinho, porém confiante. Acreditava que o show pirotécnico enlouqueceria o cavaleiro-arqueiro, mas o maldito demonstrava calma. E até o encarava de forma desafiadora. Quando ficou a 15 metros dos invasores, o arqueiro levantou o arco curto, puxou uma flecha da pequena aljava em sua cintura e levou-a até o arco, tencionando a corda, pronto para disparar.

Fixando os olhos no arqueiro que o ameaçava, Magnus ergueu o braço com o florete, apontado a arma como se fosse conjurar algo por ela. Com a mão esquerda trouxe o elmo para si, encaixando-o em sua cabeça, sem dar abertura para um disparo.

O florete que trazia era uma espada mais fina, leve e rápida comparada às adotadas pelos exércitos ao redor do continente. Uma arma ideal para enfrentar oponentes desprotegidos. Para sua relativa sorte, os infiltrados trajavam apenas as couraças de aço polido.

Eduardo atentou-se à espada erguida pelo conjurador mirando o colega à esquerda, que fez o correto e não se precipitou em soltar a primeira flecha. Em guarda o comandante caminhou para perto de Magnus. Os dois trocaram olhares, mas o oponente dividia sua atenção entre os dois Guardiões Rúnicos.

Quando o olhar do inimigo mirou o arqueiro, Eduardo avançou numa estocada. Magnus reagiu redirecionando o golpe perfurante com o seu florete. A flecha zuniu ao alçar voo e ganhar velocidade.

Magnus saltou para trás e num estalar de dedos o projétil foi engolido na combustão de uma enorme bola flamejante que abrasou as grades das celas mais próximas.

— Isso é tudo? — perguntou com um meio sorriso. — Soldadinho! — zombou com os olhos semicerrados.

O arqueiro dirigiu-se a Eduardo, que recuou quando previra com antecedência a conjuração.

— Comandante, e agora?

— Quantas flechas você ainda tem?

Ele conferiu a pequena aljava presa na cintura.

— Quatro.

— Só isso?

— A gente não vinha para uma guerra, você mesmo disse: “quanto menos, melhor”.

Ouvir aquilo fez Eduardo arrepender-se em ser tão rigoroso, mas por outro lado, isso talvez tenha permitido à escalada ser um sucesso.

Não importa, é muito tarde para ficar lamentando.

Virou-se mais uma vez para o subalterno.

— Quando enxergar uma oportunidade, não hesite, atire nele.

Mas foi Magnus quem respondeu:

— Não irei ficar quieto enquanto vocês planejam! — bradou ao acumular energia arcana o suficiente para dispará-la numa torrente chamejante.

Sem muito espaço para reagir os cavaleiros focaram a energia na runa talhada em suas couraças, que brilharam ao envolvê-los em uma barreira translúcida. O fogo abraçou as barreiras arcanas e dissipou-se quando a energia acumulada pelo conjurador se esgotou.

Quando as chamas baixaram uma flecha disparou contra a figura trajando à armadura prata e vermelha. Um estalo metálico reverberou na prisão. A seta atingira a lateral da armadura, mas fora defletida pela curvatura da proteção criada para este propósito.

Aproveitando a abertura, Eduardo disparou contra o oponente, puxou do cinto uma faca, a mesma que utilizou para perfurar a garganta do soltado durante a escalada, e atirou-a com uma força espantosa.

Reagindo ao contra ataque em progresso, Magnus levantou a mão esquerda, concentrou sua energia numa bola de ar e a disparou contra a faca que vinha em sua direção. Não foi o suficiente, a lâmina atirada desacelerou, mas continuou seu percurso e atingiu o alvo.

Um estalo.

E mais um ataque falhou, rechaçado pela resistente armadura do usuário. Magnus sorriu até entender a situação, Eduardo estava próximo demais, brandindo sua lâmina flamejante enquanto atrás dele, o arqueiro preparava o terceiro disparo. O reflexo fez Magnus levantar o florete.

A espada ardente do inimigo desceu com força contra o seu flanco esquerdo. O bloqueio aparou a lâmina adversaria em chamas graças à runa nela talhada, o calor emanado era torturante. Sem tempo e condições para reunir a energia necessária em uma nova conjuração complexa, um duelo entre guerreiros tomou conta do corredor da prisão subterrânea.

Tentar recuar para conseguir elaborar algo permitiria que o arqueiro tivesse uma janela de disparo. De espadada em espadada a luta acontecia. Eduardo, o Guardião Rúnico conseguia repelir as conjurações apressadas do oponente graças à runa da couraça. Aquilo lhe proporcionava uma grande vantagem nessas situações, pois a simples canalização de energia ativava o efeito da runa, deixando o guerreiro livre para se concentrar na batalha.

Magnus, por outro lado, não contava com a proficiência de um criador de runas, mas sua manipulação de alto nível permitia conjurar manipulações mais simples no calor do duelo. Para repelir as chamas daquela espada, precisava utilizar-se de barreiras conjuradas manualmente para neutralizá-las.

— Vejo que tem experiência na luta contra manipuladores, Guardião. Quantos já entraram para sua lista? — o aristocrata perguntou pouco antes de lançar uma estocada.

— Você sabia que viríamos aqui, não sabia? — questionou Eduardo, aparando o golpe com a parte inferior da espada rúnica em chamas, cuja runa brilhava numa intensidade semelhante à da couraça.

Eduardo recuou, o arqueiro preparou um novo disparo e o efetuou. O cavaleiro de armadura prata e vermelha repetiu sua estratégia, e incinerou o projetil numa bola de fogo.

Mas foi surpreendido.

O Guardião rapidamente avançou para cima da conjuração. O fogo emanado por sua espada cessou e a runa da armadura brilhou com o fluxo adicional recebido, protegendo-o das chamas. Assim Eduardo atravessou o inferno vermelho com a espada erguida. Com toda sua força desferiu um golpe de cima para baixo. A lâmina atingiu a ombreira do oponente, amassando a proteção num baque fortíssimo. Magnus cambaleou para trás, quase caindo, mas por pouco manteve o equilíbrio.

Sentiu como se fosse atingido por uma marreta e não pela lâmina de uma espada, mas para sua sorte, Eduardo queria respostas.

— Por que executaram o Sábio? — inquiriu apontando a espada novamente em chamas. Levantou o braço esquerdo, fazendo um sinal para o subordinado ficar atento, com uma flecha pronta para ser disparada.

— Porque esse é o preço que se paga por utilizar uma conjuração proibida… Guardião, eu até diria que a execução dele seria um serviço para vocês.

— Ele tinha uma permissão.

— De novo com essa história, você sabe o que ele estava pesquisando?

— Essa informação é sigilosa, é uma confidência entre o Arquimago e o Conselho dos Grão-Mestres.

— Mas você não deve obediência a eles… comandante. Sua Ordem foi criada com o propósito de acabar com os abusos da manipulação proibida. Como pode defender alguém que contradiz essa lei fundamental?

— Eu acredito no julgamento do Arquimago Nicolau. Posso não gostar dele como pessoa, mas suas ações até hoje foram direcionadas ao beneficio de todos. Agora eu é que pergunto: o Imperador sabe que a Cidade Livre não iria deixar a morte de um de seus Sábios sair impune, o que ele está planejando? E porque vocês não compareceram à conferência?

Um sorriso desesperado se formou na face de Magnus, que enrijeceu sua postura antes de responder.

— Nós iremos à Cidade Livre, comandante, mas tivemos algumas coisas para fazer antes. Peço desculpas por fazê-los esperarem tanto.

Assustado com o discurso, o arqueiro mirou seu arco, tencionou a corda, não daria tempo para o feiticeiro concentrar sua energia, então a soltou e o último projétil em sua aljava zuniu, ela precisava atingir o alvo em cheio. Porém, mais uma bola de fogo engoliu sua flecha. Eduardo repetiu a estratégia e pulou em direção ao inferno escaldante com a runa da couraça o protegendo.

Mas o fogo não dissipou em seguida. Eduardo encontrou-se num pilar de chamas contínuas. O Guardião questionou-se apavorado: Poderia ele estar vivo no meio de tudo isso? Obteve a resposta após caminhar com muita dificuldade, faíscas esbranquiçadas se irrompiam da runa. O calor começou a trespassar a barreira, precisava acabar.

O pilar de fogo se converteu em uma esfera rodopiante. Suas labaredas eram atiradas contra a sua proteção. Mas por fim encontrou Magnus, ele estava protegido por uma barreira transparente.

Num salto desesperado o Guardião adentrou na proteção alheia. Como previra ela protegia seu usuário apenas da energia, e não de obstáculos maciços.

Quando o Guardião entrou em sua conjuração, Magnus estava preparado e, com um chute no peito, mandou o Guardião de volta ao inferno.

Pouco depois de ouvir sua runa falhar, Eduardo refletiu uma última vez: Uma conjuração simultânea em dois níveis? Quem é esse cara?

E um grito desesperado ecoou pelas celas da prisão.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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