Ronan – Capítulo 3 – O Ferreiro Fanfarrão



O Ferreiro Fanfarrão é uma taverna onde o dono, se pudesse, faria os clientes se servirem. O atendimento era péssimo e a comida preparada de qualquer jeito. Muitos se perguntam: como um lugar desses é tão frequentado? A resposta é clara, esta é a taverna mais barata do bairro. Localizada na Rua dos Ferreiros, a taverna Ferreiro Fanfarrão é o lugar certo para os pobres trabalhadores virem esquecer os problemas e afogar as mágoas após um árduo dia de trabalho.

Sob o olhar dos desavisados Ronan sabia que a taverna não parecia o lugar mais adequado para alguém em sã consciência comemorar seu ingresso na universidade, mas o Ferreiro Fanfarrão era destino certo para comemorar com o amigo.

A grande porta encardida com dobradiças enferrujadas estava aberta. Os dois amigos caminharam em linha reta até o balcão. E, durante o percurso, observaram as longas e irregulares mesas distribuídas de qualquer jeito pelo taverneiro. Como esperado, a maioria dos clientes eram soldados e trabalhadores braçais que faziam mover as engrenagens da cidade. Apesar do ambiente rústico, a clientela era honesta, ao menos a grande maioria.

Desta vez não precisaram aguardar uma eternidade e meia esperando. Ao se encostarem no balcão, os dois foram atendidos pelo filho do taverneiro.

— Boa noite garotos, o que vão pedir? — Ao reconhecer os novos clientes, ele prosseguiu. — Olha só, se não é Ronan e seu fiel companheiro, o verdadeiro ferreiro fanfarrão.

— Vai se ferrar Josef — Ian Smith retrucou incomodado.

O pior era saber que seu pai foi um dos responsáveis pelo nome da taverna, quando há pouco mais de dez anos, numa noite qualquer, o Sr. Smith e os demais ferreiros da rua reuniram-se para festejar, e ficaram tão bêbados, mas tão bêbados, que todos adormeceram no chão imundo da espelunca. E sacana como era, o taverneiro homenageou aqueles belos fanfarrões, eternizando o evento na maior piada interna da capital.

Voltando aos dias de hoje, Ronan fez o pedido levantando dois dedos da mão direita.

— Traz duas cervejas pra gente.

— Miseráveis como sempre — lamentou Josef ao sair para encher os canecos.

Tanto Ronan quanto Ian aguardaram sem dizer uma palavra. Ambos refletiam sobre a amizade que poderia estaria chegando ao fim, pois a rotina de um estudante universitário era puxada, e Ronan estava disposto a levar sua carreira a sério. Além do mais, desde que o Sr. Smith delegou o protagonismo da forja a Ian, o garoto de ombros largos passou a trabalhar do sol nascente ao poente.

Mas o silêncio constrangedor que imperava no balcão foi quebrado como um bloco de gelo atirado na parede quanto Ian se manifestou.

— Você não vai virar um daqueles magos de nariz empinado, né?

— Que? Claro que não. Você me conhece bem. Eu não iria esquecer nossa amizade.

O jovem ferreiro pôde sentir a sinceridade na resposta do amigo.

— E pensar que você vai aprender a soltar magia. — Pensar nisso o fez se sentir deslocado.

— Você sabe que esse termo não é mais usado né?

— Qual… Magia… Mas, Por quê?

— Parece que nos últimos anos essa “magia” foi aos poucos sendo desvendada, seu mistério foi desaparecendo. Você deve achar que produzir chamas “do nada” é algo mágico, mas na verdade não é bem assim. Pesquisadores da Cidade Livre de Avska descobriram que isso é a transformação da energia arcana, algo que somos capazes de criar e manipular a nosso favor.

— E você sabe como fazer essa transformação?— perguntou impressionado com a lição sobre “feitiçaria”.

Pouco antes de Ronan abrir a boca e verbalizar sua resposta, Josef retornou trazendo em cada mão um caneco de madeira transbordando cerveja. Sem demonstrar qualquer consideração, o jovem taverneiro largou os canecos no balcão em vez de encostá-los na superfície, resultando num baque que fez a cerveja respingar seu conteúdo para fora do recipiente.

— Estão servidos, mas vão com calma, senão vou ter um papo sério com os pais de vocês dois — Josef resmungou ao abandonar os dois para atender uma mesa.

O jovem ferreiro segurou o caneco, tomou um gole daquela cerveja aguada e retomou a conversa:

— Voltando… Você sabe como fazer essa transformação ai que você falou?

— Claro que não, qualquer material que ensine algo do tipo não pode ser comercializado sem permissão. Já imaginou se todo mundo soubesse soltar uma bola de fogo? Quanto tempo você acha que ia levar para sua casa virar um punhado de cinzas?

Ian assustou-se com a súbita seriedade naquela voz, parecia ter relembrado o incidente com o pai. Mas ainda tinha algumas perguntas que o incomodava, então decidiu as pôr para fora:

— Você acha que as famílias tradicionais ensinam esses poderes a seus filhos?

— Olha… Eu tenho quase certeza. Aprender algo desse tipo quando jovem deve trazer muita vantagem comparado a alguém que venha aprender com a nossa idade.

Ronan estava farto de falar sobre o assunto. Apesar de ter se tornado o centro das atenções, no momento gostaria de saber um pouco da vida de seu amigo.

— Mas e você, decidiu tocar a forja do seu pai para valer?

Ian sentiu-se feliz pelo amigo ter demonstrado interesse. Sua vida podia ser simples, mas estava longe de ser tranquila, por isso respondeu com entusiasmo.

— No momento sim, mas eu gostaria de aprender a fazer algo diferente dos outros sabe? Veja só, todos os ferreiros da minha rua fazem alguma coisa que os diferencie dos outros. No momento eu ainda não consigo forjar nada do tipo, e graças a isso eu tenho que cobrar um pouco menos pelos meus trabalhos, se não eu corro o risco de perder o cliente.

A preocupação do amigo era verdadeira. Caso o Sr. Smith decida se aposentar por completo, Ian teria de trabalhar algumas horas a mais todos os dias para dar conta do serviço. Ronan pôde sentir a angústia, então se solidarizou com a causa.

— Olha, no momento não posso fazer nada, mas juro que, se eu encontrar qualquer coisa que possa te ajudar: como um cliente rico procurando alguém para forjar espadas para sua guarnição, um comerciante querendo se livrar do seu estoque de ferro ou se eu topar com um pergaminho largado no chão que ensine como fazer uma espada invisível, eu juro que venho correndo te avisar.

— Mas eu quero saber quem iria comprar uma espada invisível — disse o jovem ferreiro em meio a risadas.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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