Ronan – Capítulo 25 – Curando Feridas – Parte II



Era o primeiro dia de aula pós-acidente para Nathalia.  Fazia uma semana desde a visita à casa dos Zeppeli. Conforme se recuperava a roxidão no braço aos poucos cedia para a palidez natural da pele, mas algumas faixas ainda a envolviam do pulso até a metade do antebraço. Orgulhosa, decidiu ostentar as bandagens como o símbolo dos seus erros e principalmente, do seu poder.

Para evitar ter de enfrentar os olhares inquisidores dos colegas, optou chegar mais cedo à universidade, mas alguém já a aguardava no pátio frontal vazio devido ao horário. Ela sentava num dos bancos envolta da fonte embelezada pelas esculturas dos dois leões. Ao perceber que Nathalia vinha em sua direção, levantou-se e foi de encontro a ela.

— Que bom que você voltou Nat, Não aguentava mais sentar sozinha naquela sala. — As duas trocaram um forte e demorado abraço. — Como você está amiga?

Ainda abraçadas, Nathalia respondeu:

— Bem melhor. Já consigo movimentar a mão normalmente, mas ainda dói quando faço muita força. Agora, mudando de assunto, perdi muita coisa?

As duas se afastaram, Karen ergueu a cabeça e encarou as nuvens.

— Nada demais não. Sem você e aquele arruaceiro as aulas perderam toda graça.

— Olha, vou levar isso como um elogio, mas vamos indo, não pretendo ficar aqui quando a manada chegar.

— Como quiser.

Já sentada de volta em sua bancada, Nathalia espiou Anna com o canto do olho e a mesma sensação de outrora a atormentou, uma tristeza por vê-la feliz com outras amigas. Lá na frente, Catarina Grivaldo caminhava de um lado para o outro enquanto tecia diversos comentários sobre a repercussão da Conferência de Antares sediada na Cidade Livre semanas atrás.

— Pois é meus queridos, nós estamos vivenciando um momento histórico em nosso pequeno continente, mas não posso garantir que isso seja uma boa notícia. Imaginar que todos os reinos tenham se unido é algo assustador para dizer a verdade.

Mas ninguém dava atenção para a temerosa professora, fora Ronan, que nos últimos dias vinha se empenhando e mostrando resultados promissores durante as aulas práticas. Sua manipulação passou de “ruim” para “meramente satisfatória”, mas ele não pretendia parar por ai. De volta à aula, Catarina Grivaldo iniciou o ritual de apagar seus rabiscos no quadro, mas antes, anunciou:

— E aqui meus queridos alunos, a nossa aula termina.

Dezenas de conversas paralelas reverberaram pela sala junto do arrastar de bolsas, livros e demais materiais que completavam a cacofonia do fim de aula. Não foi para menos, até Ronan que se considerava um estudante resiliente pôde sentir o cansaço trazido por tamanha aula expositiva. Essa indisposição o fez decidir que hoje não iria praticar no clube que vinha frequentando em sigilo.

Ao guardar o material na bolsa, alguém sentou no banco onde Dário costumava ficar.

— Precisamos conversar! — disse ao se ajeitar de lado, para ficar de frente a ele.

Ronan foi dominado por uma sensação estranha que o fez perder a compostura quando viu quem era. De pé e amedrontado, ele apenas encarou a garota sentada ao seu lado. Em sua mente invejou a sagacidade do amigo internado. Desejou ser capaz de fazer algum comentário esperto para dissipar a tensão que rodeava a Leonhart.

Respirou e reuniu a coragem para respondê-la.

— Apenas se você não fizer aquilo de novo. — Ronan aprendeu a lição, não se deixaria iludir por aquela beleza uma segunda vez para depois ser apunhalado enquanto suspirava em admiração.

— Eu prometo.

— Sobre o que você quer conversar?

Ela não demostrava sua característica confiança exacerbada, nem falava como se fosse a rainha do continente inteiro. Seus olhares se encontraram, mas Ronan o desviou, intimidado pela intimidade repentina.

— Eu vou falar a verdade para o meu pai.

Ronan fechou os olhos e soltou um longo suspiro.

— Obrigado — foi tudo que pôde dizer.

— Não precisa me agradecer por isso. É o mínimo que eu posso fazer. Se precisar de alguma coisa, pode vir falar comigo.

Ronan pôde sentir que as palavras de Nathalia emitiam alguma sinceridade. Aquele sorriso e olhar cativante pareciam o suficiente para findar uma guerra que ela mesma começou.

Fechando os olhos bem devagar, ela confessou:

— Queria que ele acordasse. Queria que apenas a minha desculpa fosse o suficiente para ele me perdoar.

Aqueles olhos se abriram para encarar o piso. Estava desconcertada por contemplar a verdade cruel. Seus olhos se comprimiram e uma gota umedeceu o chão da sala, agora quase vazia. Então mais lágrimas se juntaram à primeira. Ronan constrangeu-se, pois a garota que detestava admirar havia se rendido a lamentação por seus erros.

— Não precisa ficar assim. Ele vai entender, tenho certeza. Posso conversar com ele, eu prometo.

Espero que seja o suficiente, Ronan quis acreditar em sua mentira.

Ela se emocionou e sem aviso algum, o abraçou, repousando a cabeça nos ombros do aterrorizado garoto. As lamentações haviam cessado.

— Sabe… Eu tenho chorado muito — ela disse enxugando as lágrimas com a palma da mão não ferida. — Mas é bom. Faz a gente pensar no que realmente importa.

Constrangido, Ronan prosseguiu com a bizarra conversa.

— O que você quis dizer com: “o que realmente importa”?

Ela se afastou para encará-lo estupefata. Seus olhos azuis se arregalaram em espanto por ele não saber do conflito envolvendo as duas famílias. Em esparsas conversas Ronan pudera juntar alguns fragmentos da história, mas ao juntá-las nada fazia muito sentido.

Ela pegou na mão dele, o rosto do rapaz corou em nervosismo.

— Um dia eu te conto, é uma promessa.

Ronan satisfez-se, mas com uma dor no coração, interrompeu:

— Combinado, mas escuta… É que… Eu tenho que sair agora.

Sentindo-se largada, Nathalia finalizou:

— Tudo bem… Ronan.

Ela disse meu nome.

— Nos vemos… Amanhã? — A incerteza daquela relação o fez hesitar.

— A não ser que você não venha…

Os dois riram enquanto os últimos alunos fora eles saiam da sala. Nathalia então voltou para sua bancada, pois ainda não havia recolhido seu material. Ajeitando as duas alças da mochila, Ronan caminhou rumo à porta. Antes de passar por ela, despediu-se com um singelo aceno, seu gesto fora correspondido por um belo sorriso.

Porta afora Ronan refletiu, deveria ter esperado para saírem juntos? Sacudiu a cabeça em negação quando pôs o primeiro pé na escada, pois estaria forçando a situação daí em diante.

Ronan repensou na possibilidade de ir praticar no clube, mas quando desceu o último degrau, teve uma ideia. Galgou o caminho de volta. Entrou na sala e encontrou Nathalia caminhando em direção à porta.

— O que foi? Tá querendo um beijo de despedida? — Ela brincou ao ver o rapaz esbaforido.

— Hein? — Assustou-se ao imaginar a situação.

— Bota pra fora!

— QUE? — Num sobressalto sua voz saiu desafinada.

— O que você quer garoto? — Nathalia esbravejou já impaciente.

Com as bochechas vermelhas como sangue, Ronan estava a ponto de pular pela janela do terceiro andar. Gaguejando, tentou fazer o pedido.

— Vo-você di-isse que se eu precisasse de-de alguma coisa eu poderia v-vir falar com você…

Nathalia ajeitou a alça da bolsa antes de perguntar:

— Já tem algo em mente por acaso?

— Um livro… uma obra da biblioteca.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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