Ronan – Capítulo 24 – Curando Feridas – Parte I



As notícias sobre a conferência na Cidade Livre haviam se espalhado como fogo. Um sentimento ufanista tomou conta dos leigos cidadãos da capital do império, que esbravejavam sobre a ousadia de seus vizinhos se unificarem para baterem de frente “com eles”. Os mais esclarecidos, entretanto, diriam que este comportamento se justifica pela maneira que os jornais vinham divulgando a notícia. Na última edição: Do Capital, a manchete era: Avska, a Cidade Livre, se posiciona contra Leon e ratifica criação do “Império de Antares”.

Diferente do resto da capital, o Hospital Hobes permanecia alheio ao furor das massas. Após duas semanas internada, Nathalia apresentou significativos progressos em seu tratamento. O braço, apesar de inchado, apresentava melhoras a cada dia. Aos poucos a dosagem dos medicamentos vinha diminuindo, deixando a paciente cada vez mais perto da liberação hospitalar.

Na tarde do dia 2 de março, uma terça-feira, Nathalia recebeu a visita de Karen. Ela entrou tímida pela porta do quarto e aproximou-se em passos receosos até a amiga. Nathalia estava acordada, mas ainda sobre efeito dos medicamentos.

— Oi Nat — ela cumprimentou balançando os ombros para frente e para trás.

— Oi Ka. — Sua voz soou rouca e manhosa.

— Trouxe um presente para quando estiver entediada. — Puxou um livro de dentro de sua bolsa. — É um romance, daqueles que a gente gosta. — Karen colocou-o numa pequena mesinha marrom ao lado da cama.

— Obrigado Ka. Você sempre está do meu lado.

A garota de cabelos escuros segurou a mão da amiga.

— Sempre estarei.

— Mas… você não merece sofrer com a minha estupidez. Promete que vai me segurar quando eu for fazer alguma idiotice?

Aqueles olhos negros se comoveram até brilharem.

— Eu prometo — disse com uma voz tremida.

— Obrigada.

Com um sorriso redentor, Nathalia rendeu-se ao cansaço fechando os olhos e se deixando tragar para um sono profundo.

Uma semana depois da reconfortante visita de Karen, Nathalia demostrou mais uma recuperação otimista. Já conseguia passar a maior parte do dia acordada e bem disposta. Tanto que devorou com os olhos em menos de dois dias o livro trazido por Karen. E na quarta-feira, uma visita a surpreendeu quando a porta foi aberta e uma garota de cabelo castanho entrou. Assim como a amiga de cabelo escuro, a visita aproximou-se devagar até a cama onde repousava.

Ela estava diferente.

— Ficou melhor assim.

— Obrigada — disse Anna segurando uma mecha do cabelo que agora roçava em seus ombros. — Nat… eu acho que precisamos conversar. Espero que você não se importe. Antes de eu entrar a enfermeira me disse para não te perturbar.

— Você tinha que ver semana passada, eu caí no sono quando a Karen veio me visitar, coitadinha.

As duas esboçaram breves sorrisos.

— Ela sempre quis ser como você. — O olhar de Anna era solene.

Nathalia mirou sua mão enfaixada enquanto ponderava sobre aquelas palavras.

— E eu a arrastei para o isolamento.

Anna suspirou.

— Verdade. ..

Aquela sinceridade atingiu-a como um soco no estômago.

— Mas não é tarde para se redimir, Nat.

Fez-se um demorado silêncio naquele quarto ensolarado.

— Já sei… você quer que eu retire minha acusação de assédio contra o Ronan.

— Nathalia, eu quero a verdade, só peço que faça o que é certo.

— Vou pensar, eu juro — respondeu cabisbaixa. — E como ele está?

— O Ronan?

— O outro.

— A situação do Zeppeli é complicada. Ainda é cedo para sabermos ao certo. Até onde eu sei, parece que ele passa a maior parte do tempo dormindo. O tratamento continua intenso e frequentemente ele passa por sessões de desintoxicação.

— Entendo…

Nathalia já lera sobre o procedimento. O paciente era tratado com um medicamento fortíssimo, caríssimo, mas capaz de impedir o avanço da toxina produzida por uma conjuração de sangue incipiente.

Anna foi se afastando aos pouquinhos.

— Infelizmente eu já tenho que ir. Por favor, me promete que irá pensar com carinho, tá bom?

— Tá bom, eu te prometo.

Amiga.

As gotículas da garoa batiam nas telhas avermelhadas produzindo um agradável som de se ouvir. Em frente à casa uma carruagem parou, era conduzida por um cocheiro guiando quatro belos alazões. Porém a chuva era, e sempre foi o seu arqui-inimigo. O ofício o comandava a abrir a porta para sua senhorita.

Mas uma voz vinda de dentro da porção coberta do veículo reverberou as seguintes palavras:

— Pode ficar. Eu me viro.

Um rangido familiar denunciou ao cocheiro que a porta da carruagem fora aberta, seguido pelo familiar respingar de uma poça pisada.

Quando uma batida ecoou pelo cômodo, Susan correu e abriu a porta da frente, revelando uma garota atingida pelas inofensivas gotas da garoa insistente. O olhar dela emanava um brilho azulado e fantasmagórico, acentuado pelos longos fios do cabelo loiro dourado que tremulava no ritmo das lufadas do ar abafado. Ela estava sozinha, apesar da luxuosa carruagem parada na frente da casa.

— Posso entrar? — Por um tempo ouviu-se apenas a garoa. — Gostaria de conversar com vocês — ela complementou encarando o capacho estendido no chão em frente à porta.

— Claro… por acaso, você é a… — Estarreceu quando percebeu quem poderia ser. Atônita, recuou alguns passos para a garota entrar.

— Sou uma colega do Dario — ela disse guardando sua jaqueta de couro no cabideiro.

Susan a convidou a se sentar no sofá da sala de estar. Obediente ela aceitou a sugestão. A senhora Zeppeli sabia de quem se tratava, mas isso não era justificativa para ser rude com a coitada. Para dizer a verdade, não tinha nada contra ela, afinal, tudo não passava de um acidente. Não acreditava que uma adolescente iria conjurar com sangue na frente da turma toda assim, deliberadamente.

— Gostaria de um café?

— Sim, muito obrigada.

Susan caminhou apressada até a cozinha, onde encheu duas xícaras com o café recém-preparado.

Enquanto isso Will Zeppeli permanecia no quarto do casal, trabalhando em sua pesquisa. Por enquanto decidiu não dar-se o trabalho de descer e cumprimentar a visita, pois imaginava tratar-se de algum vendedor de inutilidades, que por ventura sua esposa costumava dar ouvidos, mas logo percebeu ser uma convidada, possivelmente uma garota, mesmo assim não iria descer…

Por enquanto.

A Sra. Zeppeli carregou as duas xícaras de café com todo o cuidado do mundo. Ofereceu uma delas para a visita, que a pegou com classe e delicadeza, começando a bebericar entre assopros gentis que jogaram o vapor para fora do recipiente.

— Você está bem? Senhorita… Hmm… — Tentou com muito esforço lembrar o nome dela, queria evitar chamá-la pelo sobrenome.

— Nathalia…eu estou sim, muito obrigada por perguntar.

Um silêncio constrangedor tomou o cômodo. Por um tempo tudo as duas fizeram foi beber o café até não restar nem uma gota sequer.

Susan levantou-se, estendeu o braço, pegou a xícara vazia da visita e levou-a para a cozinha. Quando voltou ela continuava sentada no sofá com a mão direita em seu rosto, seu dedão espremendo o olho direito e os demais pressionando o esquerdo. Ela parecia estar chorava baixinho. Susan aproximou-se e pôde ver as lágrimas no rosto corado.

— Me desculpe… senhora… — Nathalia disse após um soluço contido.

— Está tudo bem, não precisa se desculpar por isso.

— Não estou me desculpando por chorar — sua voz era um lamento extravasando uma tristeza genuína.

A senhora Zeppeli sentou e a envolveu em seus braços.

— Eu sei querida. — Com a cabeça dela em seu peito, Susan acariciou o cabelo loiro dourado que invejava em segredo.

Um estampido irrompeu do cômodo.

Uma das cadeiras da mesa de jantar foi jogada no chão por uma figurava zangada encarando a garota.

— O que ela faz aqui, Susan? Um leão arranha nossa porta e você o deixa entrar? — vociferou alterado.

— Calma querido. Ela só veio se desculpar.

Aos prantos Nathalia escondeu-se atrás de Susan.

— Desculpar? Ela quase matou o nosso filho! Com uma conjuração de sangue, uma conjuração proibida! Ninguém faz isso por acidente.

Susan virou-se para trás e olhou a garota apavorada que tremia de medo.

— Confie em mim querida. — Lacrimejando ela concordou com um aceno. — Tire sua camisa, por favor.

Nathalia se levantou do sofá e despiu-se da camisa manga longa. O braço direito estava todo enfaixado. Will, curioso com a situação, cessou sua ira por um instante.

A garota olhou para a senhora Zeppeli e, sem precisar de mais instruções, foi aos poucos retirando as faixas que ocultavam o preço da conjuração proibida. Tudo era roxo e marcado por cortes. No ferimento principal, pouco abaixo do pulso, uma cicatriz horrenda marcava o local por onde o sangue esvaiu para cristalizar em pleno ar.

Nathalia engoliu o choro, respirou fundo, e disse:

— Desculpe senhor Zeppeli. Eu juro que foi um acidente.

Surpreso, Will virou-se para as escadas de onde veio.

— Ponha sua camisa Leonhart. Hoje você irá jantar conosco — disse olhando por trás do ombro ao subir os degraus rumo ao seu quarto.

— Sim senhor — ela aceitou em tom complacente.

Durante o jantar na residência dos Zeppelis, apenas o tilintar de talheres impedia o silêncio absoluto de se alastrar. Ocupando a ponta da mesa mais próxima à escada, com a cara amarrada, o senhor Will devorava o jantar sem degustá-lo, Susan sentava ao seu lado, mas de frente à inesperada, mas agradável, Nathalia Leonhart.

A garota limitou-se a comer sua refeição entre tímidas mordidinhas enquanto respondia as perguntas genéricas da senhora Zeppeli. Vez ou outra arriscava vislumbrar o pai da família, mas terminava desviando o olhar numa hesitação brusca.

Após uma tímida bebericada no suco de laranja, arriscou ser proativa.

— Adorei as… Isso… Senhora Zeppeli — disse girando a batata recheada na ponta do garfo.

— Obrigada querida. Fico feliz que tenha gostado. A propósito, sua mão cozinha bem?

— Ela não prepara as refeições. Acho que nunca a vi perto da cozinha — admitiu buscando ganhar a simpatia dos anfitriões.

Com uma bufada, Will acrescentou:

— É claro que não. Ela deve ter coisas mais importantes para fazer.

— Acho que não, pois até onde sei, ela passa o dia inteiro com as amigas.

— Zombando de famílias como a nossa, eu imagino.

— Will! — interveio sua esposa.

— Você duvida? Zombar da desgraça alheia é um passatempo para os Leonharts. E digo mais, se não fosse pelo Magnus, nós estaríamos muito bem, mas ele preferiu bater a porta na nossa cara. Nunca mais nos tornaremos uma família tradicional desde que o maldito do meu irmão deu as costas para a Ordem.

A tristeza por ouvi-lo menosprezar sua família fez Nathalia abaixar a cabeça e semicerrar os olhos. Uma estranha sensação a fez querer mencionar o seguinte:

— Ele matou meu irmão…

— Nós sabemos, mas isso não quer dizer que eu, minha esposa e meus… — Hesitou quando se sentiu inundado pela tristeza de relembrar o primogênito falecido. —… Que nos tornaremos renegados só porque alguns familiares fizeram a escolha errada.

Todos haviam terminado suas refeições.

— Eu sei, senhor. Percebi isso faz pouco tempo. — Nathalia tomou um tempo para si, respirou fundo e encarou Will. — Senhor… Zeppeli…

— Desembucha.

— Eu quero me desculpar, de verdade.

— Você já não se desculpou quando mostrou isso dai. — Apontou para o braço recém-enfaixado pela esposa.

— Eu não falo apenas do incidente entre eu e o seu filho, mas de toda essa guerra entre nós.

— Não é um pouco tarde? Todo o sangue já foi derramado… Ou conjurado — Will provocou ao degustar o vinho.

Nathalia tremeu ao ouvir tamanha insinuação.

— Eu não tenho culpa pelo que meu pai fez, e nem o senhor pelo que seu… Irmão fez.

— Mesmo assim continuamos pagando por seus pecados, não é verdade?

— É.

Will soltou uma gargalhada. Susan o acompanhou e até mesmo Nathalia permitiu-se rir.

Quatro batidas foram dadas na porta da frente. Susan levantou-se e foi ver quem era, rezou para não ser outro oficial do exercito que viera anunciar a morte de mais um filho seu. Ela não poderia suportar uma segunda vez.

A maçaneta girou e a porta abriu.

— Muito boa noite senhora. Desculpe incomodar, mas poderia avisar à senhorita Leonhart que já está na hora de irmos?

Aliviada por seu medo não ter se concretizado, Susan respondeu com enorme alegria:

— É claro que sim, só um momento.

Mas Nathalia já tinha se adiantado. Ela pegou sua jaqueta no cabideiro e se despediu:

— Muito obrigado por me receber, senhor e senhora Zeppeli. Peço sinceras desculpas por tudo que causei. Espero que hoje tenhamos feito algo que possa mudar nossas vidas, mas para melhor desta vez.

Emocionada, Susan estava para chorar de alegria.

— Tchau querida, volte sempre que quiser — despediu-se acenando com um lencinho enquanto as rodas da carruagem deslocavam o veículo.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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