Ronan – Capítulo 23 – A Conferência de Antares – Parte II



Acompanhados pelos disciplinados Guardiões Rúnicos, a rainha Triss e seus três escolhidos subiram os extensos degraus de pedra da Torre Central. Nada se ouvia além dos passos e o tilintar de armaduras. Após um cansativo trajeto o grupo alcançou o quarto andar. Das janelas foi possível vislumbrar a disposição anelar dos prédios circundando a torre. Um longo corredor cinzento desembocava na porta de entrada, onde lá dentro, os presentes os aguardavam.

Os Guardiões tomaram à dianteira, abriram a porta e aguardaram o comandante entrar, para anunciar:

— Ela chegou! A Rainha do Norte, Triss Loboprata se juntará a nós neste evento histórico.

Inesperadas palmas e exaltações de surpresa e prazer tomaram o cômodo. Sem perder a compostura, Triss adentrou no recinto ostentando sua coroa prateada enfeitada com belas safiras. Os demais membros a seguiram conforme a comoção foi aos poucos dissipando.

A grande mesa oval fora disposta na horizontal para quem chegava. Ocupando o assento do meio, de costas para a janela ao sul, estava o Arquimago Nicolau, com seu cabelo ruivo esbranquiçado, expressão cansada e vestes avermelhadas, imponentes que demonstravam toda sua autoridade. Ao seu lado direito, permanecendo em pé, estava o cavaleiro que guiou o séquito da rainha Triss, Eduardo Belmonte, comandante dos Guardiões Rúnicos.

Semelhante à Rainha, os outros monarcas trouxeram seus guardas, conselheiros e até herdeiros para os acompanharem, todos em pé atrás dos respectivos representantes. Assim Eric, Edmundo e Tricia se puseram atrás da Rainha, nessa ordem, da esquerda para à direita.

Vendo todos acomodados, Nicolau iniciou a conferência.

— Boa noite meus caros reis, rainhas, príncipes e acompanhantes. Agradeço cada um de vocês por cederem seu precioso tempo ao aceitarem meu pedido para se reunirem aqui, na Cidade Livre. Espero que possamos cooperar em busca de soluções que venham a beneficiar a todos. Eu, como autoridade do Conselho dos Magos, atuarei como mediador do debate. Infelizmente, Alexandre Griffhart, do Império de Leon, não irá comparecer. Até onde sabemos, não obtivemos mais noticias desde a resposta que ele nos deu semanas atrás, onde ironicamente havia se comprometido em comparecer. De qualquer forma daremos prosseguimento mesmo com tamanha ausência.

Com uma batida enérgica na mesa, Triss se manifestou.

— Permita-me falar a verdade, mas não há sentido em querer prosseguir com esse bate-papo. O motivo de termos aceitado o convite foi justamente para expormos nossa insatisfação quanto às políticas e ações daquele que se esconde em seu castelo enquanto perdemos tempo.

O monarca ao lado esquerdo do Arquimago. Um senhor de cabelo longo e grisalho, também se manifestou:

— Como rei de Belfort eu devo concordar com a rainha de Lince. Assim como ela eu viajei para cá para resolver meus problemas com aquele imperadorzinho insolente.

O Arquimago demonstrou serenidade, como se houvesse planejado uma forma de remediar a situação.

— De forma alguma! Nós temos muito que debater. Apesar da revelia por parte do imperador, os assuntos que o envolvem devem ser discutidos, e precisamos sim buscar uma solução.

Faces espantadas acentuaram o tom incisivo de Nicolau.

Foi o comandante dos Guardiões que introduziu o primeiro assunto.

— Como um integrante extra da reunião. Gostaria de abordar o assunto mais recente. A prisão de Marcos, um dos Sábios da Ordem, que apesar da permissão concedida pelo Arquimago em pessoa, continua preso nas celas da prisão de Alvovale.

— Permita-me — pediu o jovem sentando à direita de Nicolau.

— Prossiga, Príncipe Ivan.

— Preciso apontar que: uma prisão desta natureza deve ser vista como uma afronta à soberania da instituição que resguarda as práticas das Artes Arcanas. Passar por cima de uma permissão legítima do Arquimago deve ser vista como uma infração digna das sanções cabíveis.

Todos concordaram, mas Triss tinha uma observação a fazer.

— Alguém tem alguma ideia de como fazer ele nos ouvir? Não imagino que Alexandre vá simplesmente concordar em ser penalizado.

O monarca à esquerda parecia ter a solução.

— Devemos organizar um resgate.

— Rei Henrique, apesar de gostar do plano isso seria visto como um decreto de guerra — rebateu o príncipe Ivan, ajeitando sua boina.

— Não se for organizado pela Cidade Livre e seus Guardiões Rúnicos. O que nos diz comandante Eduardo? Acredito que essa missão é perfeita para vocês.

O Guardião ao lado de Nicolau respirou profundamente antes de se manifestar.

— Eu gosto da ideia, pois sei que Alexandre não dará ouvido a protestos escritos ou falados. Ele é um ex-general, um herói de guerra ainda por cima. Desde que assumiu as rédeas do império o bendito vem governando como bem entende, ignorando qualquer acordo já celebrado.

— Quero acrescentar como mediador — começou o Arquimago. — Que não acredito que esta seja a melhor solução. Mesmo assim, se for por unanimidade, eu devo reconhecer a operação. Desde que o comandante Eduardo concorde, é claro, afinal, seriam seus Guardiões a executar a tarefa. Além do mais, a Ordem dos Magos não tem autoridade para interferir nas missões que escolhem.

— Ótimo! Já decidimos o que fazer quanto ao prisioneiro, e agora?

Mais uma vez Ivan tinha algo em mente. Ele levantou seu braço e ao ser dado a permissão, manifestou-se em seu característico tom educado:

— No longo caminho até aqui eu vim refletindo sobre uma possível solução. Gostaria que os nobres reis e rainhas ouvissem com atenção o que tenho a propor.

— Prossiga príncipe Ivan — disse Triss.

— Obrigado. O que proponho é uma união dos nossos reinos em frente a eminente ameaça de retaliação do Império.

— Ameaça de retaliação? Do que você esta falando? — protestou o rei Henrique.

— Ele deliberadamente passou por cima da autorização do Arquimago ao aprisionar um Sábio da Ordem. O que você acha que ele vai fazer ao perceber que seu prisioneiro foi resgatado por militares da Cidade Livre? Acha que ele vai ficar parado? Ele não veio nessa conferência de propósito!

Envergonhado, Henrique só pôde concordar.

Tricia, a feiticeira e conselheira cochichou no ouvido esquerdo da rainha. Ao terminar de ouvir o que ela tinha a dizer, Triss manifestou-se:

— Voltando ao que importa. Como você propõe essa união, príncipe Ivan? Por acaso pretende unificar tudo para reinar sozinho? Ainda não estou convencida sobre as vantagens disso.

— Me desculpe se não me fiz claro o suficiente. Apesar de eu ser o príncipe escolhido para comparecer a esta reunião, meu principado vive em constantes conflitos com os outros dois. Com a união de nossas terras, a única coisa que peço é ser nomeado como Governante do Oriente, para que eu possa administrar as terras relativas aos principados que hoje represento.

— E quem será o rei desde novo reino? — perguntou Henrique ao coçar sua barba grisalha.

— Ou rainha? — sugeriu Triss.

— Ao longo prazo… — começou Ivan. — o filho do rei de Belfort com a rainha de Lince.

Um silêncio fúnebre se arrastou pela sala. Seguido por um bate boca entre os monarcas do continente, inicialmente envolvendo o rei e a rainha contra o príncipe, por ousar sugerir um casamento arranjado. Mas após uma longa explanação sobre como o casamente entre os soberanos do segundo e terceiro maiores reinos trariam a estabilidade necessária para fundamentar aquela aliança, eles em fim concordaram com os termos propostos.

A última etapa a ser debatida seria quem iria reinar. Apesar de formarem um casal, apenas um poderia ascender ao trono. E este debate foi tão ou mais fervoroso quanto o último.

— E dai se eu sou mulher? Eu não me importo se no seu mundinho os homens têm preferência, eu nunca aceitaria essa união caso soubesse que você pretenderia trazer esse costume bárbaro para as minhas terras — Triss esbravejou furiosa.

Nicolau, que até o presente momento havia deixado à conversa fluir devido aos bons resultados, decidiu exercer seu papel mediador.

— Permitam-me ter a palavra por um momento.

— Diga a ela o quanto essa besteira é absurda, Arquimago! — vociferou Henrique.

— Pelo contrário. Acredito que esteja na hora de pôr um fim nestes costumes. Olhe para si mesmo, rei Henrique do reino de Belfort, você é um homem forte, mesmo assim sua nação é a mais frágil dos três grandes reinos, fora os principados do Oriente. — Olhou para o jovem príncipe. — Sem querer lhe ofender meu caro Ivan.

— De forma alguma, Arquimago. Ninguém melhor do que eu para entender as consequências das infindáveis guerras que assolam minha terra.

Convencido pela verdade inconveniente, Henrique aceitou a contra gosto os termos propostos. Iria se casar com a rainha da segunda maior potência do continente e, ao lado dela, ajudaria a governar um novo Império que entraria para a história.

Ele se levantou.

— Tudo bem. Eu aceito as condições propostas, mas tenho uma condição.

— Prossiga — autorizou Nicolau.

— Não vamos chamar essa união de Reino Unido de Antares.

— Tem algo melhor em mente? Meu querido — zombou Triss.

O olhar do rei se fixou nela.

— Império de Antares.

Boquiaberta, ela deu o braço a torcer.

— Olha Henrique. Quem diria que você seria capaz de me surpreender algum dia. — A rainha sorriu em satisfação.

— Se eu ainda for o Governador do Oriente, podem chamar como quiser.

Já eram duas da manhã e a conferência prosseguia, mas de forma bem humorada. Satisfeitos, os três monarcas conversavam sorridentes enquanto bebiam o vinho servido em celebração. Os doze acompanhantes, três de cada reino mais três do principado, conversavam entre si, já enturmados uns com os outros. Todos festejavam o que parecia a formação de uma aliança capaz de pôr um fim ao avanço voraz do inimigo em comum.

Nicolau permanecia sentado em seu lugar na mesa, conversando com o colega Guardião. Quando eles terminaram, levantou-se para anunciar:

— Sinto muito por findar essa bela confraternização, mas está na hora de registrar nosso progresso. — Estendeu a mão e fez um sinal para um dos Grão-Mestres presentes se aproximar. — Por gentileza, poderia fazer o registro?

— Claro — afirmou satisfeito o idoso de barba e vestes brancas.

Sentando no assento do meio, o Grão-Mestre aguardou com papel e pena em mãos, o superior ditar o registro.

— Eu, Nicolau, atual Arquimago da Ordem dos Magos, venho reconhecer os dispositivos acordados na Primeira Conferência de Antares.

Com uma maestria sobre-humana para sua idade, o velhinho anotou as palavras proferidas.

— Primeiro Item: os reinos de Lince, Belfort e os Principados do Oriente como um todo, presentes através de seus respectivos governantes, propuseram o resgate do Sábio da Ordem dos Magos encarcerado na prisão de Alvovale. Autorizado pelo Capitão da Ordem dos Guardiões, a missão está ratificada e pronta para ser executada.

Uma pausa foi feita para que o velhinho barbudo pudesse terminar.

— Segundo Item: A partir de agora o Reino de Lince, o Reino de Belfort e os Principados do Oriente serão unificados e reconhecidos por: Império de Antares, sob a liderança da primeira imperadora: Triss Loboprata.

Ela não pôde reter sua felicidade e entrou em extasse só de ouvir o novo título.

Nicolau não parou.

— As terras neste momento pertencentes aos Principados do Oriente serão administradas pelo Governador Ivan. As terras do Reino de Belfort serão administradas por Patrique Belfort, o filho mais velho de Henrique Belfort. E as terras ao norte serão regidas por Gustav Tormensson, conselheiro da atual Imperadora. Eu, Nicolau, Arquimago da Ordem dos Magos, reconheço a união e a formação do Império de Antares.

Eric estremeceu ao ouvir o nome do irmão ser mencionado.

Um a um os quatro assinaram o documento.

E o último rabisco foi traçado naquele papel amarelado.

E a pena suja de tinta, descansou.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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