Ronan – Capítulo 20 – O Feiticeiro Carmesim – Parte III



Com muito esforço os dois Guardiões e Leonel conjuraram escudos côncavos e translúcidos, sobrepostos para aguentar as manipulações de sangue. A barreira arcana mais a frente, conjurada por Ludwig, cedeu quando a primeira esfera vermelha entrou em contato. No impacto, o sangue jorrou para os lados. Um soldado foi atingido por um filete que escorreu em sua armadura enquanto testemunhava embasbacado o derretimento do local manchado. Quando o persistente líquido atingiu a carne, o sangue da conjuração entrou em contato com seu, causando uma inflamação bestial que se espalhou deixando um rastro por onde passava. O soldado agonizou, rasgando os ouvidos dos companheiros com as suas lamúrias.

De uma a uma as barreiras de energia arcana foram despedaçando, causando a morte dos soldados ao entrarem em contato com o sangue respingado. Leonel, apesar de assustado pensou num plano. E deu inicio a uma conjuração simultânea, manteve a barreira emanada pela mão esquerda, largou a espada e com a mão livre, conjurou uma ventania contra os renegados. As barreiras continuavam fragmentando, mas o sangue deixou de jorrar contra os soldados para respingar nas paredes da casa ao lado.

Quando as conjurações cessaram, as figuras nos telhados fugiram, deixando para trás os colegas caídos, agonizando com as setas alojadas.

Leonel não havia reparado, mas como esteve junto dos conjuradores, as sucessivas barreiras os tinham protegido da chuva sangrenta. E, quando olhou ao redor, viu as dezenas de corpos estirados no chão sangrento. Hobb, seu pelotão de besteiros e os soldados da retaguarda foram poupados da chuva sangrenta, o mesmo não poderia ser dito dos desafortunados da frente, longe demais das barreiras.

Não era hora para prestarem homenagem aos caídos. Os renegados fugiam, e precisavam pôr um fim nisso.

Reunindo a coragem que pôde, Leonel ordenou:

— Atrás deles, não os deixem fugir!

Os soldados sobreviventes se olharam, mas hesitaram, estavam assustados demais para perseguirem as figuras sinistras.

Ludwig apresentou uma alternativa:

— Vamos reunir apenas os manipuladores para perseguição. Ordene seus homens a capturarem os feridos e mande um grupo voltar para a trilha onde amarramos os cavalos, assim eles poderão interceptá-los caso falhemos.

Leonel se impressionou com o afiado improviso do Guardião.

Voltou-se para os homens sobreviventes e anunciou em voz alta o novo plano. O pelotão de besteiros daria um fim aos renegados atingidos, enquanto os soldados restantes recuariam para os cavalos foram deixados. Muitos continuavam em choque com os efeitos de uma conjuração tão cruel como a testemunhada.

O grupo se dividiu em três, cada um com seu objetivo determinado. Leonel, os dois procuradores, mais Ludwig e seus três camaradas, iniciaram a perseguição às figuras correndo sobre os telhados das casinhas, rumo ao centro do vilarejo.

Os sete adentraram no pequeno pátio do vilarejo. Para surpresa de Leonel, encontraram um dos pelotões infiltrados, ou que restava dele, estavam todos mortos, inclusive o Guardião Rúnico designado para protegê-los. Infelizmente, não poderiam parar para investigar, precisavam apertar o passo para não deixar que os fujões, fugissem.

Mas Leonel e companhia estavam cercados. Desta vez não pelos telhados, mas das pequenas ruazinhas que desembocavam no pátio, eles surgiram. Não eram os mesmos renegados, pois dos robes marrons e cinzas não escoria sangue de nenhuma manga. E da porta da estalagem não revistada, ele apareceu.

            O Feiticeiro Carmesim.

Seu rosto era conhecido por todos os agentes do império, da Cidade Livre e dos reinos vizinhos. Uma figura que ascendeu à Grão-Mestre da Ordem dos Magos com um assento no conselho, para depois dar as costas a tudo que jurou defender. Era isso o que Leonel e os demais sabiam. Mas o vendo em pessoa, não parecia um mostro, não era nada mais do que um sujeito comum. Vestia o robe branco de outrora, mas rajado em vermelho, e com um capuz repousando nas costas, deixando seu rosto à amostra.

Aflito por dar de cara com um renegado tão infame, Leonel estacou. Mais uma vez o experiente Guardião teve de assumir o controle.

— Walfrido? — inquiriu Ludwig.

Ele respondeu arqueando sua coluna para frente num gracejo debochado.

— E você… — disse espremendo o olhar para enxergar a runa da armadura —… Guardião?

— Ludwig, seu executor! — respondeu orgulhoso.

O Feiticeiro achou graça, pois eram seus convidados que estavam para ser executados. Tentando fazer que eles percebessem, ergueu as mãos para evidenciar o fato de estarem cercados.

Uma gélida rajada levantou os longos cabelos negros do feiticeiro, deixando a cena mais apavorante para os guerreiros encurralados. Os sete buscaram uma saída daquela situação. Seria difícil, pois não havia como reagir sem que os renegados os rechaçassem. Tudo precisava ser calculado a perfeição, sem margem para erros.

Agora mais calmo, Leonel retomou as rédeas da situação.

— Walfrido e demais renegados. Eu os sentencio à prisão em nome do Império de Leon. Rendam-se e permitam que a justiça seja feita. — Tentou aparentar seriedade

O feiticeiro encarou incrédulo.

— Não me entenda mal garoto, mas não somos criminosos. Nossa irmandade foi fundada por aqueles que abandonaram a Ordem dos Magos. Nós discordamos dos valores… como posso dizer… autoritários, que vem permeando aquela decadente instituição.

A conversa o deixou confuso. Leonel permitiu a curiosidade o abater, poderia ser uma chance de ganhar tempo para seu colega Guardião bolar um plano.

— Autoritários? — perguntou fingindo interesse.

O rosto de Walfrido expressou uma satisfação genuína.

— Sim. Há muito tempo a Cidade Livre deixou sua passividade de lado para adotar uma ideologia mais restritiva aos ensinos da manipulação.

— Por exemplo?

— Permitir que nesse império decadente apenas alunos pré-aprovados possam desfrutar da magia de aprender isso — disse conjurando uma pequena chama na ponta dos dedos.

— E você acha que ninguém iria…

—… Usar para queimar sua casa — Walfrido previra com precisão seu argumento. — Isso é o que eles justificam para todos vocês hoje em dia, não é verdade?

Ele esta certo, pensou enquanto mais perguntas brotavam em sua mente, mas antes que pudesse verbalizá-la, seu raciocínio foi interrompido.

Um silvo longínquo cortou o ar.

E uma das figuras trajando a veste cinzenta rajada em carmesim caiu no chão, alvejado por um virote.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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