Ronan – Capítulo 2 – Briggs



Em seus quarenta e três anos de idade, Hobb Briggs já vira o que há de pior no ser humano, e por vinte e três, serviu ao exército imperial como sargento encarregado de um infame pelotão de besteiros. Naquele tempo Hobb acompanhou em primeira mão a ameaça que os feiticeiros renegados traziam ao império. E ultimamente, parecia que a escória vinha se organizando. E quando ponderava sobre os planos macabros que estariam maquinando, ele sentia medo, por si, sua esposa e seu filho.

Mas Hobb estava aposentado há mais de três anos. Não por servir tempo suficiente nas forças imperiais, mas devido a uma conjuração de sangue lançada por um renegado, tirando parte da mobilidade da perna esquerda. E desde então, Hobb passou a ver com desconfiança qualquer um que se intitule praticante das Artes Arcanas.

Apesar da amargura nutrida por essa gentalha, sentia-se orgulhoso pelo filho passar nos exames admissórios, tornando-o um privilegiado estudante da Universidade Arcana de Leon. Um feito capaz de lhe proporcionar uma vida única, agora, se para melhor, dependeria dele.

Deixando o passado para trás, Hobb caminhou com dificuldade até a poltrona, e com um jornal em mãos, iria se informar sobre os fatos que o redator do império julgou conveniente divulgar. Enquanto isso, Ronan, o orgulho da família com seus 17 anos folheava despreocupado a “Enciclopédia das Ordens”, um livro sobre a história das ordens fundadas ao redor do Continente de Antares.

A primeira não poderia ser outra: a histórica Ordem dos Magos, com sede na Cidade Livre de Avska, seguida por outra ordem sediada no mesmo local: os Guardiões Rúnicos, especialistas no combate a manipuladores, famosos pelas runas entalhadas em suas armas e armaduras. E, responsáveis por trazer a justiça àqueles que ameaçarem o bom uso da manipulação, em sua esmagadora maioria, os infames renegados que tanto preocupavam seu pai.

Enquanto folheava o garoto lembrou com saudosismo dos dias que sonhava em se tornar um cavaleiro honrado ou um mago poderoso. Fantasiava sair em aventuras ao redor do continente, caçando os maiores vilões do mundo. Mas ao lembrar que era um estudante da melhor universidade do Império, sentiu uma onda de empolgação e ansiedade lhe aquecer o peito.

Mas para Ronan não bastou passar no exame de admissão. Sua família não tinha como arcar com as abusivas mensalidades cobradas, então precisou se candidatar a um financiamento oferecido pela Fundação de Apoio a Jovens Talentos, uma instituição filantrópica mantida por doações, que em sua grande maioria vinham das famílias tradicionais, membros da aristocracia e comerciantes ricos. O critério de seleção para o financiamento foi o resultado do teste de admissão, e devido ao seu bom desempenho, Ronan foi um dos agraciados pelo sonhado benefício.

A porta da frente foi aberta, e o garoto olhou de relance para ver quem entrava, era sua mãe. Laura Briggs trazia consigo as compras da semana. E querendo demonstrar solidariedade, o filho do casal voluntariou-se para ajudar a guardar as comprar em suas devidas prateleiras.

Apesar de passar dos quarenta, Laura conservava grande parte da beleza de sua juventude. Diferente de Hobb, que para os mais incautos, poderia ser confundido com um daqueles velhos rabugentos que te perseguiria com uma bengala caso você pisasse em seu gramado. Mas apesar do olhar penetrante, Hobb era dono de uma simpatia única, a não ser quando se tratava de renegados, é claro.

— Querida escuta essa — disse empolgado com a matéria que havia acabado de ler. — Parece que a Cidade Livre vai sediar um encontro entre as nações do continente.

— Mas pra que? Criar um acordo sobre a distribuição de cebolas? — respondeu a esposa em tom de deboche.

Tentando ignorar o comentário, ele continuou.

— Parece que é uma tentativa de diminuir as tensões… Principalmente entre o Império e o Reino de Lince — terminou pensativo, coçando a barba cinzenta.

A notícia deixou Ronan aliviado, pois nos últimos meses a tensão entre as duas nações vinham aumentando de fato. Pouco a pouco ambos os lados fortificavam suas fronteiras, principalmente aquelas ao leste de Leon.

— Por mim tá ótimo. Eu é que não quero ser convocado para guerra, acabei de ser aprovado na Universidade, seria uma sacanagem de muito mau gosto – Ronan acrescentou também pensativo, mas sem uma barba para coçar.

Pai e filho se entreolharam, até Hobb dizer:

— Se aquele imperador imprestável começar uma guerra, ele vai se vê comigo.

Após um jantar delicioso, Laura lavava a louça enquanto Ronan a secava. Hobb ainda sentava-se à mesa quando alguém bateu na porta da frente. O pai da família se levantou, mancou até a porta, girou a maçaneta e a puxou. Uma figura alta de cabelo castanho escuro penteado para trás, permanecia em pé na varanda com os braços cruzados. O visitante era jovem, aparentava ser um pouco mais velho que o filho do casal e trajava um avental marrom claro por cima de uma camiseta amarelada. Conjunto este, que compunha a tradicional indumentária dos ferreiros da capital.

Feliz com a visita, Hobb o anunciou para família.

— Olha só. É o futuro herdeiro da forja dos Smith, o senhor Ian. — Para piorar, o velho ainda se curvou como podia em sinal de reverência. — Vossa majestade gostaria de chá, ou prefere bolinhos? Ou quem sabe os dois?

Fingindo brandir uma suntuosa espada, Ian entrou na brincadeira.

— Levante-se Sr. Briggs, seus serviços não serão mais necessários, eu lhe nomeio Lorde Briggs, guardião da majestosa fortaleza do Chá com Bolinho.

Os dois riam tanto que tiveram de se apoiar um no outro para não desabarem no chão. E quando ambos conseguiram recobrar o juízo e a capacidade de falar, Hobb prosseguiu.

— Como anda o velhaco do seu pai? Ainda consegue levantar aquele martelo ou já começou a tricotar perto do fogo enquanto você faz o trabalho duro?

Apoiando-se no batente da porta com a mão esquerda calejada, Ian respondeu:

— É… Mais ou menos isso. Ele decidiu me treinar para valer, já faz mais de uma semana que estou tocando a forja, mas ele ainda me orienta caso eu pergunte ou faça alguma besteira.

Hobb nutria uma grande amizade pelo garoto, assim como o pai dele, pois admirava as pessoas simples como os Smiths. O pai do garoto foi o ferreiro favorito de Hobb quando servia ao exército. Sempre fazia questão de passar na forja do amigo para convidá-lo a tomar alguma coisa, mas agora, aqueles momentos não passavam de nostálgicas lembranças.

Ao notar a mãe de Ronan, o convidado a cumprimentou num tom muito educado.

— Boa noite dona Briggs, tudo bem com a senhora?

— Claro. Obrigado por perguntar, mas é uma pena querido, você acaba de perder o jantar. Ainda tenho alguma coisa guardada se estiver com fome.

— Não precisa se preocupar. Eu vim justamente convidar o novo “mago” da família para fazer alguma coisa em comemoração a sua entrada na universidade.

Hobb virou-se surpreso, de alguma forma o garoto já sabia e, desconfiado,  questionou-o:

— O que? Você já sabe? Teu velho anda namoricando aquelas senhoras da esquina é?

— Que é isso senhor. Não é nada disso. É que quando alguém de família como as nossas é aceito num troço desses… A notícia se espalha.

Isso era algo que os presentes sabiam muito bem. Laura já havia terminado de lavar a louça, mas a pilha para secar não era responsabilidade sua, e essa era uma lei na casa dos Briggs.

— Pode ir querido — ela disse para Ronan. — Seu pai pode terminar de secar a louça, afinal, ele não faz nada o dia todo mesmo.

— Não faço nada? Você sabe que eu treino os soldados que fazem a guarda do bairro né, e além do mais, você vai me fazer ir mancando até ai? Você não tem piedade em seu coração mesmo. — É claro que ela sabia, mesmo assim Laura gostava de retribuir as brincadeiras do marido. — Aaaa, tudo bem, eu seco essa maldita louça. E você — disse para Ronan com um olhar fuzilante. — Ou vai festejar logo, ou te faço me ajudar no banho mais tarde.

Atordoado por imaginar tamanha punição, Ronan se despediu dos pais e saiu para comemorar com o melhor amigo.

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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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