Ronan – Capítulo 19 – O Feiticeiro Carmesim – Parte II



Conforme a companhia se aproximava do vilarejo, mais Leonel desconfiava. Pela trilha do bosque nenhum movimento ou vulto se enxergava, assim como ruído algum se ouvia. As casas erguidas com os troncos de eucalipto estavam por demais enegrecidas, apesar da madeira já ser escura, uma podridão sobre elas abatia, descascando as superfícies.

O braço enluvado do jovem comandante foi erguido. As montarias relincharam ao serem ordenadas a parar por seus cavaleiros enquanto os 30 soldados a pé cessaram a marcha sem dizerem nada. Atrás de Leonel vinham os dois procuradores e, atrás deles, os quatro guardiões vindos da Cidade Livre.

— Desmontar — vociferou o líder da expedição. — Podem amarrá-los nas árvores — referia-se aos equinos.

Os subordinados obedeceram guiando as montarias pelas cordas, amarrando-as entre os troncos das árvores mais próximas. A trilha do oeste por onde seguiam se abria próxima da ponte que dava acesso ao vilarejo.

— Ludwig — Leonel chamou o líder dos guardiões. — Avise seus homens para entrarem em formação. Hobb informe o pelotão de besteiros para deixarem as armas devidamente carregadas.

As ordens foram berradas pelos oficiais. Os dez soldados do pelotão encaixaram os virotes no sulco de cada arma, agora, bastava mirar e puxar o gatilho. Terminaram caminhando por entre a formação até ficarem no meio, conforme planejado.

Ludwig veio à frente acompanhado de um Guardião, os outros dois foram ordenados por ele a proteger Hobb e os besteiros no meio da formação. Leonel e seus Procuradores permaneceram na frente, até o comandante ordená-los que protegessem a retaguarda, pois não pretendia ser surpreendido.

Os demais guerreiros não manipuladores preencheram as lacunas deixadas. Leonel, Ludwig e um subordinado dele defenderiam a vanguarda das conjurações. Dois Guardiões protegeriam o pelotão de besteiros. E por fim, dois Procuradores impediriam as conjurações vindas da retaguarda.

Tudo pronto.

Ao lado de Ludwig, o comandante Leonel girou no calcanhar para vislumbrar a companhia. Abaixo dos elmos, olhares apreensivos dos veteranos e, nervosos dos mais inexperientes, o encaravam.

Era hora dos avisos finais.

— Atenção Pessoal! Essa missão é uma caçada a renegados. Conto com cada um de vocês para desempenhar sua função. Nossos oponentes são cruéis e eles não demonstrarão piedade, eu peço que retribuam o favor. Contamos com quatro Guardiões Rúnicos, dois Procuradores e a mim para protegê-los das conjurações. Não precisam ficar com medo, pois nós estamos aqui para vocês. Mas, se avistarem algo suspeito, nos avise o quanto antes. Se encontrar um renegado, não hesite, pois eles não vão. Boa sorte a todos. Teremos bebidas à vontade quando terminarmos.

Os soldados comemoraram o modesto discurso. Ludwig por outro lado parecia não se impressionar.

— Você tem muito que melhorar. Pode até comprar a moral deles com bebidas, mas esses soldados ainda vão se mijar quando encontrarem um manipulador de fogo minimamente capacitado.

Apesar da crítica, Leonel não demonstrou surpresa.

— É claro que vão. A maioria deles só esteve em brigas de bar, os mais experientes são ou já foram guardas, e tudo que testemunharam foram brigas de ruas e disputas domésticas.

— Espero que a vantagem numérica sirva para alguma coisa.

Leonel esperava o mesmo.

Aos poucos o grupo adentrou no vilarejo. O chão de terra batida foi tomado pelas botas de couro e grevas de aço dos soldados, Procuradores e Guardiões. Pouco a pouco as casinhas de madeira escura foram revistadas. Os homens adentraram sem dizer nada. E, com a guarda alta, vasculharam cada canto e xeretaram cada peça de mobília.

— Nada aqui — disse Hobb ao sair do casebre.

— Vamos para a próxima — ordenou Leonel.

Era fato, o vilarejo fora evacuado, se por medo dos renegados ou a mando deles, não sabia dizer. A tensão sentida em cada um era despejada junto da expiração fétida. No momento, metade da zona oeste fora revirada por Hobb e seus rapazes. O pátio central ganhava a vista conforme avançavam pela ruazinha principal, cada vez mais distantes da entrada por aonde vieram, ou da saída por onde planejavam recuar.

Um estalo como de um graveto se partindo reverberou pelas vielas entre a madeira das paredes. Todos hesitaram, mas os medrosos recuaram alguns passos em sobressaltos. Ludwig brandiu sua espada, seguido pelos colegas Guardiões, mesmo os dois distantes lá na retaguarda repetiram o gesto, um tanto atrasados.

Leonel lutou consigo mesmo para domar o nervosismo, aos poucos desejava que seu pai estivesse ali para lhe dizer que estava tudo bem, ou que iria dar um jeito na situação.

Outro barulho se propagou das vielas, um ranger longínquo.

Mais hesitações, sobressaltos e um berro desesperado.

— Lá — denunciou uma voz esganiçada — Eu vi alguém, um vulto lá, lá… Olhem lá. — insistiu um amedrontado jovem cuja cota de malha era folgada demais, deveria mal ter dezoito anos. Ele apontava para o telhado da maior construção no centro do vilarejo, uma estalagem.

Conversas sussurradas denunciaram o medo que se alastrava. Aos poucos o grupo rendia-se ao desespero. A moral caiu como uma rocha atirada num penhasco. Leonel soube que precisava fazer alguma coisa, senão, a rocha poderia se despedaçar, espalhando seus fragmentos.

— Em formação! Homens! Em formação — berrou com uma coragem simulada.

A voz do jovem comandante apaziguou as feições amedrontadas dos mais desesperados. Aliviados, os solados se puseram em formação como ordenado.

Um estalo.

Um silvo.

— Eu vi, eu vi. Estava lá! — anunciou o besteiro que disparou sua arma ao entrar em pânico. Este não apontava o dedo para o centro como o antecessor fizera, mas para uma das casas recém-visitadas a sua direita.

O estado de pânico foi retomado. O medo de serem encurralado tomou não apenas os inexperientes, mas o próprio comandante. Leonel suou frio, a espada empunhada tremia.

Algo cativou sua atenção.

Além do pânico generalizado, robes marrons e cinzas, manchados por listras rubras foram aos pouco se revelando sobre os telhados. Assustados, o pelotão de besteiros disparou suas armas sem a permissão de Hobb. Tiro por tiro, virote por virote, todos passaram longe dos alvos. As mãos de quem as empunhava tremia, comprometendo toda precisão da arma.

Zangado, Hobb os reprendeu.

— Inúteis, não disparem sem permissão, ao menos tentem se concentrar na hora do disparo.

Percebendo que os dez besteiros tinham desperdiçado munição, Hobb ordenou que recarregassem e aguardassem o devido comando.

As confiantes figuras com mantos rajados em vermelho se concentraram. No alto dos telhados, eles pareciam prestes a conjurar.

— Camaradas, se preparem! — ordenou Ludwig exalando vigor em cada sílaba.

Os Guardiões se aprontaram fazendo as estrelas das runas em suas couraças irradiarem um brilho esbranquiçado. Leonel aos poucos recuperou a compostura, ver os colegas da Cidade Livre reagindo deu-lhe forças para também reagir. Estendeu o braço direito, uma lança de fogo se projetou, para ser lançada contra o alvo mais próximo.

O renegado se concentrando sobre o telhado teve as vestes incendiadas. Gritos agonizados chicotearam os ouvidos dos soldados que ocupavam as ruas e dos seus companheiros acima das demais casas. Mas a maquiavélica conjuração estava pronta. Por baixo das mangas marrons e cinzas, mãos ensanguentadas se projetaram, apontando para Leonel e seus solados.

Mais silvos foram ouvidos, renegados tiveram as vestes perfuradas por misteriosas flechas vindas de outra direção. Os ruídos cessaram e as figuras hesitaram em surpresa, pois não foram os besteiros lá embaixo que efeituaram o disparo.

Seis renegados caíram.

Era sua chance, Hobb ordenou aos berros:

— Disparar!

Mais estralos ressoaram quando os virotes alçaram voo contra os oponentes. Quatro renegados foram atingidos, fazendo-os se juntar aos alvejados momentos atrás.

Mas cinco continuaram intocados. Sem perder tempo eles retomaram a conjuração parcialmente interrompida. As mãos ensanguentadas ergueram contra seus caçadores. Sangue escorria de suas palmas, mas não para cair no telhado. O liquido vermelho flutuou juntando-se numa massa uniforme.

Para ser disparando contra os soldados apinhados na rua.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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