Ronan – Capítulo 18 – O Feiticeiro Carmesim – Parte I



Oito anos atrás.

No acampamento improvisado no alto de um relevo, os soldados sob o comando do jovem Leonel vigiavam com precisão cirúrgica o vilarejo de Aguarasa. O local era circundado pela bifurcação de um rio, e só poderia ser acessado pelas poucas pontes, cuja madeira negra do eucalipto da região assemelhava-se às paredes das casinhas.

Rumores recentes indicavam que o local havia se tornado refúgio para um grupo renegado conhecido como A Irmandade Rubra.

No interior do acampamento, os soldados vestindo as cores brancas e vermelhas ou brancas e douradas, aguardavam a chegada dos Guardiões Rúnicos comprometidos em auxiliar na coordenação da caçada aos renegados, que há muito atormentavam o Império de Leon.

Coçando os curtos fios dourados de seu cabelo, Leonel escutou o rugir distante de trotes de cavalos ganharem força. Todos ali sabiam o que fazer. Arqueiros, assim como besteiros se posicionaram com armas e projéteis em mãos enquanto os lanceiros correram para fecharem a formação com suas lanças brandidas contra o vão da clareira, o único espaço por onde a cavalaria poderia invadir.

Mas eles abaixaram as armas. Rostos de alívio se formaram quando as runas talhadas nas couraças dos seis Guardiões tomaram forma entre os filetes de luz propiciados pelos raios solares que encontraram caminho entre as folhagens.

Um trio caminhou entre a formação de lanceiros até pararem entre o vão das árvores, para receberem seus convidados. Em cada lado de Leonel estava um Procurador com as tradicionais jaquetas negras por cima das finas placas metálicas que os protegiam, pois, para eles, liberdade para gesticular suas manipulações vem em primeiro lugar.

Os seis cavalos cessaram o trote entre relinchos contrariados. Jogando o peso para os estribos, os Guardiões desmontaram sem pompa nem firula. O arrastar das grevas esmagaram o capim até eles pararem a poucos passos dos soldados imperiais.

Leonel e os dois Procurados foram os únicos capazes de interpretar a runa talhada em cada armadura: uma estrela de nove pontas rodeada por um labirinto, em outras palavras: a infame runa de anulação, mais conhecida como terror dos conjuradores.

Um adulto no auge dos seus trinta anos com o cabelo até a ombreira da armadura, os cumprimentou:

— Bom dia senhores. Por acaso são vocês a força reunida pelo império?

Leonel avançou dois passos.

— Somos sim. Este é o grande destacamento prometido pelo comandante Eduardo? — perguntou apontando para os recém-chegados.

A névoa da tensão ergueu-se por todo acampamento. Os Guardiões encararam os dois Procuradores, os Procuradores voltaram o olhar para Leonel, e Leonel devolveu a encarada para os Guardiões em sua frente. No acampamento, os soldados aguardaram estarrecidos o dissipar da tensão crescente.

Risadas irromperam quando Leonel e o Guardião não puderam mais segurar a falsa seriedade.

— Acho que teremos de nos virar com isso mesmo, não é verdade? — perguntou o Guardião.

— Sim, sim. — Leonel se conteve. — Meu pai e os demais comandantes imperiais estão em missões similares em outras cidades e vilarejos.

O cavaleiro concordou com sucessivos acenos ao coçar o farto cavanhaque.

— Eduardo no momento lidera outra missão em outra vila. Se me perguntar, eu diria que estava na hora de começarmos essa caça às bruxas. A propósito, me chamo Ludwig, e meu sobrenome não interessa. Não sou de família rica e aposto que você nem se importaria em saber.

Leonel deduziu pela idade que ele deveria ser experiente nas caçadas a renegados.

Sorte minha.

— Prazer em conhecê-lo. Me chamo Leonel e fui encabeçado dessa missão. Peço que os senhores se acomodem e descansem por uma hora pelo menos. Precisaremos de todo mundo em seu melhor.

— Como quiser garotão, mas lembre-se, somos nós os especialistas em caçar renegados, sem querer ofender seus colegas Procuradores, é claro.

A aguçada audição de Leonel captou o sutil tom desafiante na voz, mas não poderia retrucar, pois Ludwig havia constatado um fato.

— Deixe-me apresentar a companhia. Este bonitão é o Frederico; o loirinho é o Roth; o baixinho é o Rayek e o mal encarado se chama Rans.

— Prazer em conhecê-los — Leonel saudou educado. Os guardiões citados acenaram balançando a cabeça, a mão ou apenas sorrindo. — Vocês podem prender as montarias no acampamento, temos um cantinho justamente para isso.

Vendo os Guardiões Rúnicos se aproximarem, os soldados imperiais voltaram a seus afazeres. Os recém-chegados acataram a sugestão do jovem comandante. No canto localizado a leste do acampamento eles amarraram os cavalos e sentaram no gramado, formando um circulo para discutirem o plano que Leonel deveria ter formulado.

— Me diga… Leonardo… — zombou Ludwig.

— Leonel.

— Certo. Como é o local que iremos vasculhar?

O referido se levantou e caminhou até chegar à elevação onde seus agentes observavam entre os eucaliptos, o vilarejo de Aguarasa. Mantendo uma distância que os Guardiões e Procuradores pudessem ouvi-lo, Leonel disse apontando para o alvo:

— A dois quilômetros naquela direção tem um vilarejo com aproximadamente 30 construções, incluído armazéns e qualquer outra edificação que possa abrigar um fugitivo. Ao sul há o lago de onde tiraram o nome do vilarejo. Por isso, o grosso de nossa força entrará pelo oeste, onde é mais próximo, enquanto dois grupos menores se pelo norte e noroeste, para nos dar suporte. Se você concordar, eu gostaria de designar um Guardião para cada grupo de infiltração.

Ludwig anuiu com um aceno, ele refletia sobre o plano.

Satisfeito com a aprovação, Leonel prosseguiu:

— Ótimo. Nosso maior grupo não tentará se infiltrar. Nós vamos nos aproximar e vasculhar casa por casa enquanto o resto dará cobertura.

O Guardião Rúnico pareceu ter algo a acrescentar.

— Por que não nos dividimos em dois grupos iguais e os cercamos ao mesmo tempo pelo norte e oeste.

— Se nos dividirmos em grupos maiores, eles vão se reunir e emboscar o mais próximo. Por isso precisamos reunir a maioria dos Guardiões e Procuradores numa equipe maior, para neutralizarmos suas conjurações. Contamos com a vantagem numérica de 50 soldados, mas acredito que todos os renegados sejam manipuladores competentes.

— Quantos deles se esconderam lá?

— Estimamos uns 20.

— Parabéns garoto Leonhart. Você fez a lição de casa. Por mim está tudo acertado. — Ludwig se levantou. — Rapazes, se preparem, logo sairemos. Não é Leonardo?

Ao ouvir aquilo de novo, levou a mão à face.

— É Leonel. Caso seus colegas concordarem, podemos ir sim.

— Camaradas, estamos prontos?

Numa sincronia perfeita os Guardiões desembainharam suas espadas rúnicas, reluzentes e as levaram ao alto, entoando em uníssono:

— Avante!

Coçando a barba Leonel ponderou: nem a Irmandade Rubra deve contar com tantos fanáticos. Percebendo a disposição irradiada pelos Guardiões, estava na hora de avisar as forças imperiais sobre o seu comando.

E com um berro a ordem foi dada:

— Hobb, avise os rapazes, sairemos em 15.

Um homem alto nos seus 35 anos atendeu o chamado.

— Sim senhor Leonhart. — E virou-se para os colegas. — Pessoal! — berrou com a voz rouca. — Se aprontem. Sairemos em 15. Desmanchem o acampamento, coloquem suas armaduras, empunhem as armas e tirem a água do joelho, não quero ninguém se mijando quando a hora chegar.

Todos já se aprontavam e Leonel não quis ficar para trás. Caminhou para sua tenda se pôs a vestir a armadura. Trajou a cota de malha; encaixou a couraça ondulada da armadura de placas com a superfície dourada, mas fosca; encaixou as ombreiras e as afivelou. As peças mais pesadas foram trajadas.

O resto do conjunto não cobria as partes por completo, assim com os procuradores, Leonel gostava das juntas livres para conjurar com eficiência. O peso economizado o ajudaria no tempo de reação. Para a missão deixaria pra trás o belíssimo elmo fechado, dourado e com viseira que tanto adorava, escolheu um da mesma cor, que cobriria o curto cabelo, nuca, testa e as laterais. Finalizou jogando por cima a capa vermelha contornada em dourado com o leão bordado, o tecido se estendia até os joelhos.

Tudo pronto, apesar do nervosismo, estava ansioso para fazer um bom trabalho e contar orgulhoso sobre o seu feito a seu pai.

Fora da tenda os seis Guardiões Rúnicos o aguardavam, assim como seus dois Procuradores.

Estava na hora.


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    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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