Ronan – Capítulo 17 – Procuradores



No dia 10 de fevereiro, uma tarde de quarta feira, dois estudantes foram internados em estado grave no Hospital Hobes, o melhor da capital. O motivo da internação foi a conjuração proibida lançada por Nathalia, ferindo tanto ela quanto o seu alvo. Mas para a sorte de ambos, a universidade se comprometeu a arcar com as despesas, afinal, foi dentro do Centro de Práticas, durante uma aula prática, que tudo aconteceu.

A mão direita por onde o sangue esvaiu para abastecer a conjuração, ficou em frangalhos. O ferimento originado pela queda no refeitório dias antes e, agravado pela conjuração, havia expandido e infeccionado devido à manipulação involuntária do sangue. O preço cobrado pela conjuração foi o braço açoitado por cortes. Precisamente 16 feridas de tamanhos variados, do comprimento de um polegar até o de um indicador.

Os médicos conseguiram apurar a causa dos cortes. A hipótese formulada apontava para uma rejeição com a sincronização de sangue, “talvez quando ela tentou cortar a conjuração para poupar a si e aos colegas, pouco antes de desmaiar”, essa foi à justificativa dada pelo médico encabeçado. Nathalia fora medicada com anestésicos para que descansasse o máximo possível enquanto a equipe tratava como podia os seus ferimentos.

Na sala ao lado, a situação de Dario era mais complicada. Os locais onde fora atingido haviam inchado e infectado num aspecto semelhante ao ferimento principal de Nathalia, mas em escala maior, por consequência do sangue alheio manipulado dentro dos cristais pontiagudos da qual foi alvo.

A infecção em Dario alastrou-se envolta dos pontos alvejados: na lateral esquerda da barriga, no ombro direito e na parte direita e esquerda do peito. Tratar ferimentos do tipo seria complicadíssimo e exigiria muita paciência e dedicação dos médicos. Sorte sua acabar no lugar onde estavam os melhores de toda a capital.

Dario não havia acordado desde o incidente.

Devido à natureza e a gravidade dos ferimentos, ambos os pacientes não poderiam receber visitas de amigos ou familiares até o momento. Apesar do incidente, as aulas não foram canceladas, ao contrário da audiência para apurar a acusação de assédio contra Ronan, que foi adiada até a “vítima” receber alta.

Pela manhã do dia seguinte, uma representante da coordenação veio conversar com a turma A-101 sobre o acidente. Ela explicou que o ocorrido foi algo que, além de grave, era um tanto burocrático, complexo. E como uma conjuração proibida foi utilizada, os Procuradores do Império viriam ouvir cada uma das testemunhas presentes naquela fatídica tarde.

Para acalmar os ânimos da turma em polvorosa, a representante emendou dizendo que bastava dizerem a verdade, mas enfatizando que a conjuração proibida foi utilizada sem a intenção da usuária, pois assim ela não seria punida e tudo voltaria ao normal.

Para finalizar ela anunciou que os agentes: Adam e Smith viriam ouvi-los no inicio do período vespertino. Em seguida, a mesma ficou para responder algumas daqueles que não prestaram atenção na explicação e dos outros que realmente tinham algo substancial para questionar. Quando as perguntas findaram, a representante se retirou e a aula pôde prosseguir em paz.

Pelo resto da semana Felix não levaria mais seus alunos ao Centro de Práticas Arcanas, mas para compensar, iria revisar os assuntos já passados e apreendidos em sala. Para sua relativa felicidade, seus alunos não pareciam incomodados com a mudança, talvez quisessem evitar o horror de relembrar aquela cena trágica e assustadora, fazendo a aula prosseguir em silêncio, sendo perturbado apenas pelas fofocas dos mais ansiosos.

No refeitório da universidade, Ronan, Jonas e César sentavam numa das longas mesas de carvalho amendoado. Almoçavam quietos e sem apetite as suas refeições compradas ali ou preparadas em casa.

Foi Jonas quem quebrou o silêncio.

— Será que… Ele vai ficar bem?

Todos tentaram pensar em algo otimista para dizer, exceto Ronan.

— Eu acho que não.

Os dois o encararam com a incredulidade estampada em suas faces.

— O que vocês esperam? Ele foi alvo de uma… — hesitou, com medo de admitir —… uma conjuração proibida, de sangue ainda por cima. — Soou desolado.

— Tomara que a Leonhart seja presa — disse César.

— Ela não vai… não com esse sobrenome — Ronan admitiu.

Seu sanduíche de batata com carne de frango já estava frio e sequer chegou à metade, quem dera soubesse manipular o fogo. Ronan decidiu largá-lo as moscas afortunadas que nos lixeiros rondavam. Suspirou pesaroso ao apoiar os cotovelos na mesa.

Risadas descontraídas chamaram a atenção dos rapazes. Os olhares de Ronan e companhia se voltaram para a passarela que dava acesso ao refeitório. Um grupinho de garotas se aproximava, mas ficou difícil para Ronan ver quem eram, até ouvir um timbre conhecido, o familiar timbre da risada de Anna Ambrósio.

A face sorridente da garota surgiu entre as colunas da passarela pouco antes do grupo adentrar no refeitório. Distraídas elas seguiram em frente, Anna virava a cabeça de um lado para o outro, de uma amiga para outra, até flagrar a encarada de Ronan e devolvê-la na mesma moeda, constrangendo o pobre rapaz. Anna despediu-se das amigas e aproximou-se dos colegas do sexo masculino. Sentou-se à mesa e entrou na conversa inexistente.

— Olá rapazes, como estão? — Apesar de tudo, soava amigável.

Todos responderam numa variação nada criativa de “bem”.

— Entendo. Eu me sinto responsável por aquilo. No fim, fui eu quem abandonou a Nat… deixando ela perdida daquele jeito.

Ronan sentiu que ela dizia a verdade, Anna de fato tinha levado aquilo para o lado pessoal, por isso, tentou tirar um pouco do peso das costas dela.

— O que mais você poderia fazer? Depois de tratar eu e o Dario daquele jeito. Ela até mentiu sobre… — Hesitou. Por pouco não mencionou a audiência que seria realizada em segredo.

Infelizmente, Jonas ficou curioso com a repentina hesitação.

— Ela mentiu sobre o que?

Tentou pensar em algo e falou a primeira coisa que veio à mente:

— Sobre o pai de Dario ser um renegado.

Jonas expressou surpresa, parecia ter acreditado.

— Sério? Ela falou isso mesmo?

— Sim — disse acenando com a cabeça.

Anna olhou intrigada para ele, mas entrou no jogo.

— É sim, eu estava lá, foi horrível demais.

César e Jonas pasmaram ao saberem que Nathalia era capaz de espalhar uma mentira dessas. Amaldiçoando a si mesmo, Ronan já pensava em maneiras para livrar-se dessa situação no futuro. Torceu para que após uma semana eles esquecessem que havia mentido para acobertar a existência da audiência.

Então percebeu o horário.

— Olha só. Está quase na hora de sermos interrogados pelos Procuradores.

 

Na sala de aula, duas figuras estavam ao lado do professor Felix. Ambos trajavam um conjunto de couro preto com detalhes vermelhos. Ao vê-los, Ronan recordou das ilustrações nos livros sobre os Procuradores, e aquelas com certeza não eram as indumentárias utilizadas nas caçadas a renegados.

Era hora das aulas começarem, mas apenas para as outras turmas, pois os estudantes da sala A-101 iriam depor.

Felix adiantou-se para apresentar os agentes.

— Pessoal. Como muitos de vocês já devem saber, estes são os Procuradores que vieram conduzir a investigação sobre a conjuração de nossa querida Nathalia. Esse a minha direita é o agente Adam. — Era um rapaz jovem, alto de cabelo ruivo e com sardas nas bochechas. — Na minha esquerda está o agente Smith — apresentou um senhor marcado pelo stress da profissão. Tinha olheiras e cabelo grisalho que ainda conserva alguns teimosos fios castanhos escuros.

Feitas as apresentações, o professor virou-se para a turma.

— Fiquem tranquilos, falem tudo o que presenciaram ontem e respondam as perguntas com sinceridade. É só isso que peço a vocês.

Fez-se um minuto de silêncio. Os agentes olharam para o professor como se ele tivesse se esquecido de mencionar algo, o que ele de fato havia.

— Ah, é claro! Como eu e os demais funcionários já depomos, vocês ficarão sozinhos, portanto, ao terminarem já estão automaticamente liberados para irem pra casa. Boa sorte e até amanhã.

Com todos os avisos repassados, Felix foi embora. A turma estava sozinha com os dois agentes. Foi Smith, o mais velho, quem deu início àquela situação desconfortável. Ele se adiantou dois passos e com as mãos nas costas, instruiu:

— Agora que o professor já explicou a situação eu tenho apenas algumas coisas a adicionar: por enquanto vocês ficaram aqui mesmo. Um de cada vez será chamado em ordem alfabética para ser ouvido na sala ao lado, enquanto isso, fiquem a vontade para se distraírem, desde que não violem nenhuma regra dessa instituição, é claro. Espero que vocês tenham aprendido o básico pelo menos. — Seu olhar era profundo, de uma seriedade ímpar, como se soubesse de todos os desagradáveis eventos protagonizados pela turma.

Com uma prancheta em mãos, Adam consultou o primeiro nome na lista.

— Alfredo Moraes.

Um rapaz alto se levantou.

— Sou eu.

— Por favor, acompanhe o senhor Smith.

O agente mais velho aguardou o aluno se aproximar para conduzi-lo à sala ao lado, onde iria depor. Por 15 minutos a turma aguardou a vez do próximo.  Ronan se perguntou se poderia sair da sala. Decidiu questionar o agente da prancheta. Levantou a mão e foi logo atendido.

— Pois não?

— Nós podemos sair da sala?

— Não.

— E se alguém precisar ir ao banheiro?

— Então nós faremos uma pausa. Eu o acompanharei enquanto meu parceiro fica de olho em vocês. Por acaso você precisa ir?

— Não, eu só estava curioso mesmo.

— Alguém tem mais alguma pergunta?

Ninguém se manifestou.

Curiosos, os alunos conversaram entre si sobre os tipos de perguntas a serem feitas pelo Procurador. Seria um interrogatório? Ou iriam apenas narrar o que aconteceu? Poderiam ser presos? Essas e outras especulações ferviam na mente de cada um.

Até o momento Ronan não tinha reparado na outra amiga de Nathalia, aquela que permaneceu ao seu lado apesar de tudo. Karen estava sozinha, com os braços apoiados na bancada e de cabeça baixa, triste por estar só num ambiente tão pouco amigável, sendo vigiada por um estranho trajado como autoridade. Vê-la nesse estado fez Ronan sentir pena da garota, ela não parecia ser mau caráter, talvez apenas andasse ao lado de uma má influência. Gostaria de poder ajudá-la, mas a insegurança que sentia o fez hesitar, com medo da reação que ela poderia demonstrar.

Aos poucos a sala foi se esvaziando. Anna, César, Jonas e Karen já foram “entrevistados“ pelas autoridades, logo seria a sua vez. Quando em fim foi chamado, seus batimentos dispararam. Sabia que não precisava ter medo. Bastava dizer o que de fato aconteceu, mesmo assim, o nervosismo lhe consumia, Ronan respirou fundo e caminhou em direção à sala A-102. Abriu a porta fechada e viu o procurador Smith sentado na mesa reservado aos professores. Na bancada mais próxima uma escrivão de cabelo loiro e ondulado se preparava para anotar o seu relato.

Para onde a turma dessa sala fora realocada, Ronan não sabia dizer.

Sentou-se na cadeira em frente à mesa e aguardou as instruções.

— Ronan Briggs, está certo? — perguntou o agente.

— Sim senhor.

— Antes de você me contar o que aconteceu ontem, gostaria de lembrar que seu relato será registrado pela escrivã. Por isso insisto que coopere e nos diga a verdade, tudo bem?

— Claro senhor.

— Vamos começar por sua relação com a autora do fato, sua colega: Nathalia Leonhart.

Ronan não escondeu nada, explicou em detalhes sua relação com a envolvida, mas a vergonha o fez omitir a denúncia de assédio.

Para o seu azar.

Quando terminou o relato, o agente Smith acrescentou:

— E essa denúncia de assedio envolvendo você e ela?

Sentindo-se estúpido, teve vontade de esmurrar a própria cara, mas tentou se justificar:

— É uma investigação sigilosa senhor, achei que não deveria mencioná-la. — O nervosismo se alastrou, enrubescendo suas bochechas.

— Não precisa se preocupar quanto a isso. Essa é uma investigação separada. Apesar de não estarmos investigando aquela denúncia, saber que você possui um litígio com ela é relevante para montarmos um histórico da relação entre vocês dois.

A escrivã anotou tudo que foi conversado. Após uma breve pausa, a segunda pergunta veio.

— Sobre o ocorrido, ela já demonstrou algum conhecimento prévio sobre manipulação proibida? Sabe se ela conjurou de propósito?

Uma a uma Ronan respondeu esta e outras perguntas. No fim já havia contado ao Procurador Smith tudo que havia acontecido no dia anterior. Como era amigo de um e desafeto de outra, precisou ficar um tempo a mais para esclarecer o envolvimento de todo mundo. Mas em fim, foi liberado. Sua consciência estava limpa como um céu sem nuvens e pura como a água emanada de uma nascente.

Seus amigos já foram embora, não havia motivos para ficar na universidade.

Felix retornou à universidade no fim da tarde, estava curioso para saber quais as expectativas dos Procuradores. Dirigiu-se à sala do coordenador, mas ao entrar, deparou-se com os agentes conversando com Rafael. Smith apoiava-se na parede direita da sala, enquanto seu companheiro permanecia de pé, no centro. Rafael ouvia os relatos enquanto ocupava sua confortável cadeira.

Felix cumprimentou os presentes e sentou-se no banco à esquerda.

Em consideração ao recém-chegado, Smith resumiu o relato.

— Tudo indica que de fato foi um acidente. Não tem como uma garota de apenas 16 anos conjurar uma manipulação de sangue intencionalmente, nunca vi algo do tipo ou sequer ouvi falar.

O professor tinha algo a acrescentar:

— Sempre há uma primeira vez, amigo Procurador. Nathalia já demonstrou em sala sua habilidade com a manipulação do fogo, apesar de eu ter testemunhado apenas uma fração do seu potencial, pude notar a perfeição em suas conjurações, com uma margem beirando a zero no que tange a desperdício de energia. Suponho que o pai deva estar apostando tudo nela, talvez até o supere algum dia.

Os três presentes se olharam e acreditaram naquelas palavras.

— E o garoto? Pelo que ouvimos, ele também parece um talento — Adam perguntou cruzando os braços.

— Ele também aprendeu a manipular em casa. Apesar de demonstrar aptidão na manipulação do vento, eu não tive a chance de ver seu potencial por inteiro. Apesar de cabeça quente, ele não é tão exibido quanto a Leonhart.

Com um sorriso, o jovem agente ruivo acrescentou:

— É professor. Sua turma está dando trabalho e o mês ainda nem terminou.


    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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