Ronan – Capítulo 16 – Cristais de Sangue – Parte II



Sentados sobre o confortável gramado verde do Centro de Práticas Arcanas, os alunos aguardavam a chegada do professor Felix Fitz, ansiosos em aprenderem uma nova etapa da manipulação do vento. A turma decorou o passo a passo ensinado em sala, mas ver o professor executá-las lhes daria uma imagem precisa de como executar cada etapa.

O campo reservado para o exercício era o mesmo da semana passada, um dos menores disponíveis. Felix surgiu com suas vestes negras roçando o gramado. Se aproximando como um fantasma, ele parecia levitar, arrancando risos e caretas da ansiosa turma que o aguardava. Ignorando os deboches, ele aos poucos revisou o ensinado em sala.

— Não tem segredo pessoal, é só repetir o que eu já ensinei: manipulem o ar da forma que já sabem e uma vez que o vento rotacionar, vocês vão estender a palma e apontá-la para algum lugar vazio. — Olhou para a turma para garantir que prestassem atenção. — Nada de mirar nos seus colegas, ouviram? — risos abafados foram produzidos por aqueles que se recordaram da ventania da humildade.

Dario sorriu todo assanhando. O professor virou-se e olhou em sua direção, mas em reprovação, seguido pelo retorno à explicação:

— Uma vez que consigam apontar para um espaço seguro e a rotação não tenha se perdido, vocês direcionarão o fluxo para o local desejado, rompendo o ciclo esférico e focalizando a energia sincronizada em uma linha reta.

Felix deu as costas e caminhou até a parede da esquerda. Com o braço colado ao corpo ele estendeu o antebraço. Conjurou o vento e iniciou a rotação em sua palma, isso era tudo que eles tinham aprendido na semana passada. Então, Felix estendeu o braço numa linha reta, horizontal. Ergueu a palma da mão, mesmo após toda movimentação feita sua rotação continuava perfeita…

Até ser cortada.

A circulação foi interrompida num ponto e a corrente de ar foi redirecionada numa rajada veloz contra o muro, fazendo o gramado e os fios de cabelo dos mais próximos esvoaçar para trás.

Ronan maravilhou-se enquanto Dario e Nathalia pouca atenção davam.

Virando-se para os alunos, Felix Fitz disse:

— É isso ai pessoal. Podem praticar agora. Qualquer dúvida é só chamar.

Em poucos minutos a turma dividiu-se em grupos, espalharem-se pelo campo e praticaram com os colegas mais próximos. As duas amigas escolheram o canto direito. Nathalia sentou-se no gramado, olhando para o nada enquanto sua única amiga praticava ali perto.

Karen tinha se dado conta de um detalhe.

— Nossa! É sua primeira aula de manipulação, né amiga?

— É — respondeu exalando estoicidade.

— Não que fizesse alguma diferença pra você, né? — Sorriu, tentando animá-la.

— Pois é.

Cativado por uma das alunas nada fazer, Felix caminhou arrastando o robe negro no gramado. Sua sombra projetou-se no rosto da garota desinteressada.

— O que lhe incomoda Leonhart?

— Nada professor. Só não estou a fim de participar hoje.

— Vai estar amanhã? Ou semana que vem?

Nathalia olhou para o chão, envergonhada, fugindo do olhar reprobatório do professor tapando o sol.

— Aconteceram algumas coisas…

— Eu pude perceber. Não sei do que se trata, mas se eu puder ajudar de alguma forma, é só falar.

— Você não pode.

— Mas um conselho eu posso dar: ao menos finja se importar com as aulas. Participe, mesmo que você já saiba o que eu esteja ensinando. — Felix fez uma pausa e apontou para Ronan e amigos.

Apesar de ser um ótimo manipulador do vento, Dario se divertia praticando o que já sabia. Ele conversava com os amigos, os ajudava quando demonstravam dificuldade e ria com as eventuais brincadeiras de Ronan, Jonas e César.

Antes de se retirar, Felix lançou uma reflexão ao vento:

— Leonhart, não deixe sua arrogância estragar o que você tem de bom na vida.

Terminado o discurso de Felix, Nathalia observou Anna e suas amigas praticarem. Elas sorriam de orelha a orelha. Nem parece sentir minha falta. Afinal, não era ela quem estava sentada no chão, olhando para o vazio e ponderando sobre um futuro incerto e sombrio. Tomada por um sentimento sublime e revigorante, Nathalia levantou-se para alegria da fiel amiga de longos cabelos negros preso num rabo-de-cavalo, que declarou animada:

— Vamos lá Nat, mostra pra gente do que é capaz.

A poucos metros Dario notou ela se levantar e, desde então, ficou observando com o canto do olho. Nathalia posicionou-se, respirou fundo e conjurou…

Nada.

Estacou confusa. Pouco antes de conjurar, lembranças ruins impregnaram sua mente: o julgamento, a mentira, a queimadura de Anna. Tudo isso fez sua meticulosa concentração quebrar. Tentou mais uma vez e…

Nada.

Nesse ponto Dario já a encarava sem cerimônias, e ela tinha percebido.

— Precisa de ajuda Leonhart? — perguntou exalando um sadismo exacerbado, atraindo para ela à atenção dos seus amigos mais próximos.

Ronan, Jonas e César pararam de praticar para ver do que se tratava a provocação.

Nathalia suou frio de tão nervosa, pôde sentir os batimentos acelerarem. A última coisa que esperava era alimentar as piadas debochadas de um Zeppeli. Karen tentou reconfortá-la com uma massagem nos ombros e um conselho.

— Ignora Nat, ele quer te irritar — sussurrou no ouvido dela.

            Assim como eu o irritei semana passada, quando o irmão dele faleceu, Nathalia recordou. Preciso mostrar a eles. Decidiu tentar mais uma vez. Concentrou-se. Aos poucos pôde sentir o vento manipulado envolvê-la. Iniciou a rotação e…

Ela se desfez perante seus olhos meio abertos.

Uma voz irritante propagou pelo ar:

— Faz assim ó! — berrou Dario demonstrando a manipulação perfeita na palma da sua mão.

Mais pessoas pararam para observar. Faltava pouco para ela se frustrar. Nathalia já cogitava parar por completo, mas não se daria por vencida, ainda mais para ele. Com a respiração pesada, tentou mais uma vez. Concentrou-se ainda mais, esperou sentir a energia sincronizar com o ambiente ao redor. Uma enorme quantidade de ar foi manipulada. Focalizou tudo na palma erguida, mas antes de iniciar a rotação, a massa de ar se comprimiu, estourando logo em seguida, jogando-a para trás.

Dario gargalhou de satisfação, Ronan estacou atônito, Anna arregalou os olhos em preocupação enquanto Karen disparou e ajoelhou-se numa derrapada.

— Tá tudo bem amiga? — perguntou preocupadíssima.

— Não! — Sua voz chorosa tremia. — Maldição, porque eu fui querer participar de uma idiotice como essa — desabafou.

Nathalia testemunhou o fluxo de sangue ferver em seu rosto, tamanha a vergonha, raiva e frustração que sentia, mas isso não era o pior. O que mais a irritava eram os olhares de pena que recebia dos colegas.

A maior manipuladora da turma não consegue fazer algo tão básico quanto a mais simples das manipulações.

Furiosa por ser alvo da piedade alheia, olhou para o punho direito, onde princípios de chamas o envolveram em poucos segundos.

Minha especialidade não fraqueja, nem me abandona.

O fogo irradiava longe o bastante para não açoitá-la com o calor emanado.

Felix pediu que ela se acalmasse.

Mas ele não entende o que se passa na cabeça de uma Leonhart, Nathalia justificou para si mesma. Karen ficou sem palavras, já havia recuado alguns passos por medo do que estava por vir.

Mas ainda fraquejo na manipulação dominada por um Zeppeli.

Esse pensamento extinguiu sua sanidade, consumindo-a em ódio e frustração. O princípio de chamas evoluiu, convergindo na palma agora erguida onde uma esfera flamejante estalava. Cega pela raiva, fez sua palma descer contra o gramado. Um pilar de chamas com um metro e meio de altura irrompeu do ponto de impacto. Uma película translúcida a protegeu da própria conjuração, envolvendo-a pelo flanco direito.

Duas conjurações de uma vez só, seria isso a conjuração simultânea? Ronan refletiu. Dario nem sequer piscava, seus olhos arregalados acompanharam as chamas abaixarem.

A mão da garota sangrava.

Nathalia grunhiu de dor, contorcendo cada músculo da face. Espremendo os olhos lacrimejantes, urrou um lamento desesperado. Com a visão meio-aberta pôde distinguir filamentos de sangue esvaindo do ferimento sofrido no refeitório dias atrás. Deve ter aberto com a pancada, constatou nos instantes de lucidez.

Mas ficou orgulhosa consigo mesma, havia mostrado a eles do que era capaz. O sangue pingava, sujando o gramado verde de vermelho. Nathalia ergueu a mão ensanguentada, suas caretas dolorosas convergiram em um sorriso macabro.

Preocupado com tamanha imprudência, Felix Fitz intrometeu-se:

— O que foi isso Nathalia? Está tudo bem?

Mas Dario interveio.

— Ela fica fazendo essas coisas só porque não consegue manipular o vento. Ai precisa apelar usando a manipulação que aprendeu com o papai

— Chega Dario! Você não está ajudando em nada. Para trás, todos vocês — ordenou o professor.

— Mas…

— Mas nada, para trás! — Felix vociferou.

As palavras do Zeppeli perfuraram a honra recém-restaurada dentro da Leonhart, fazendo-a relembrar do fracasso ao tentar manipular o vento, ignorando todo o resto.

— Cala a boca inseto! — Nathalia esbravejou agarrando o braço ensanguentado, sujando a mão limpa. — Eu consigo sim manipular o vento. É a primeira coisa que um conjurador aprende. Eu não sei o que está acontecendo comigo… — justificou lutando para conter as lágrimas.

— Ficar gritando não vai fazer suas mentiras se tornarem realidade.

Ronan interveio:

— Dario, já chega!

— Você vai defendê-la depois de tudo?

A discussão foi interrompida quando ela gritou mais uma vez, mas não de raiva, aquele foi um grito pondo para fora a dor e agonia que a afligia. Os ferimentos na mão e no braço sangraram num ritmo fora do comum. Em meio a grunhidos ela tentou discutir.

— Vou… mostrar a… todos… vocês!

Tentou conter o sangue esvaindo da mão direita, com a outra. Anna estarreceu apavorada, assustada demais para ajudar como costumava fazer. O professor pensou rápido e mandou César chamar alguém da enfermaria para ajudar.

— Vou… mostrar… a vo-cês — ela resmungou em meio a lágrimas e gemidos.

Preciso conjurar o vento mais uma vez, vou provar a eles do que sou capaz. Ela ergueu o braço ensanguentado, um esguicho de sangue saiu do ferimento aberto.

Felix hesitou, temendo que o pior acontecesse…

— Nathalia! Pare com isso, agora!

Mas ela não entendeu o temor de Felix, o sangue escorrendo no braço já não caia no chão. As inúmeras gotas tinham acumulado, flutuando ao redor do braço banhado em vermelho.

Um último esguicho. Mais um grito agudo de dor. Nathalia despencou de joelhos no chão, seu braço continuava levantado, mas involuntariamente. O sangue que flutuava havia cristalizado em dezenas de pequenas setas pontiagudas.

Não sabia o que fazer.

Não sabia como anular aquilo.

— SOCORRO! Me ajudem… por favor… — gritou apavorada. Sua visão falhou. A lucidez a abandonou, e o horror a dominou.

Felix gesticulou e conjurou sua melhor barreira arcana a tempo. Os cristais que pairavam no ar sumiram, pois foram disparados assim que Nathalia perdeu a consciência devido à totalidade de sangue perdido.

Os cristais voaram rápidos como uma saraivada de flechas. Fragmentando em milhares de pedacinhos ao baterem de frente contra a barreira côncava do professor, ao menos a maioria, alguns estilhaços perfuraram a parte mais fraca, as extremidades do círculo.

Atingindo o alvo designado.

Um estudante caiu de costas no chão, alvejado por quatro cristais que o acertaram no peito. Felix correu para perto da vítima, rasgou a camisa de botões num puxão com as duas mãos. Inchaços surgiram nos locais das feridas, tingindo sua pele num roxo esverdeado. O cheiro de sangue era evidente e todos se desesperaram. As garotas choraram e os garotos empalideceram com o terror presenciado.

Nathalia caíra no chão inconsciente, o braço dela sangrava, o ferimento havia inchado e dezenas de cortes surgiram ao longo do braço direito. Anna se recompôs e correu em direção da amiga inconsciente. Karen já estava ao seu lado, chorando como uma garotinha.

Enquanto Dario era socorrido pelo professor.


    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



Fontes
Cores