Ronan – Capítulo 14 – Amizades – Parte II



Após uma manhã cheia, recheada pela aula de Introdução aos Estudos Arcanos com o professor Felix. Nathalia, Anna e Karen conversavam enquanto almoçavam no refeitório da universidade. Foi neste momento que Nathalia decidiu abrir o jogo.

— Então amigas, já botei em prática o meu plano para ferrar aquele garoto.

— Você sabe que eu sou contra isso, né? — adiantou Anna — Desde que não seja algo muito cruel eu não me incomodo muito — disse muito incomodada.

Karen tinha outra opinião.

— Você quer ferrar o Ronan? Mas, e o Dario? Ele é que vem te incomodando né? — disse enquanto enrolava uma fração longo cabelo negro na ponta dos dedos.

— Pode ficar tranquila, para o Zeppeli vai ser algo especial, vou fazê-lo pagar pelo que sua família fez.

Karen não se recordava direito de porque ela era tão amargurada com eles.

— Nat, Como era mesmo o nome daquele tal Feiticeiro Carmesim?

— Walfrido… Zeppeli — ela resmungou cerrando os dentes e com os olhos em chamas. Aos poucos a fúria foi cedendo à tristeza — O maldito que matou… — Seus lábios finos tremiam ao dizer. —… Meu irmão! Que ele apodreça no inferno das chamas sangrentas de onde veio. – A lembrança à fez lacrimejar.

Karen a abraçou. Suas delicadas mãos pálidas fizeram carinho nas costas da chorosa amiga.

— Tá tudo bem Nat, tá tudo bem. Tenho certeza que ele está pagando por tudo que fez — reconfortou a garota que descansava em seu ombro.

Após ser aparada pela amiga e ter sua felicidade restaurada, Nathalia prosseguiu com o relato:

— Primeiro: obrigado por me aturarem. Segundo: vou precisar de um favorzão de vocês.

— É só falar — disse sua fiel amiga de cabelo escuro.

— Lá vem — respondeu a melhor amiga, já imaginando o que estava por vir.

O nervosismo a fez hesitar em ter que pedir, mas elas vão entender, convenceu a si mesma.

— Vai ter uma audiência no fim do mês, e vocês vão testemunhar a meu favor?

— Claro — adiantou-se Karen, sem nem saber do que se tratava.

— Audiência do que? — a outra questionou desconfiada.

Agora vem a parte difícil.

— O Ronan foi denunciado por assédio.

— Por quem?

Karen você é tão inocente.

— Eu né, sua boba — respondeu sorrindo.

— Nossa, que maldade, mas pode contar comigo, sempre.

Os olhos de Anna arregalaram em espanto.

— Você tem ideia do que está me pedindo Nat? Você quer que eu minta numa audiência?

— Sim — Sentiu-se boba por admitir.

— Você sabe que pode destruir a vida do coitado com uma mentira dessas? Ele não fez nada Nat. Nada!

— Ele é amigo daquele…

— Ele não fez nada contra você! — acusou levantando a voz

Nathalia levou as mãos ao rosto, prestes a cair em prantos.

— Pelos deuses garota, não precisa gritar com ela — interveio Karen, tomando-a em seus braços mais uma vez.

— Ela tá pedindo para nós duas mentirmos, Karen, você pensou direito nisso?

— E daí? Desde quando você se importa com aqueles dois?

— Isso é sobre condenar um inocente por uma mentira. Me admira você ter concordado, assim, sem mais nem menos.

O olhar de Nathalia se comprimiu, seus lábios tremeram e os olhos brilharam ao serem inundadas por lágrimas, lágrimas que escorriam até serem aparadas pela manga do casaco de couro da amiga que a confortava em seus braços.

Anna se aproximou olhando nos olhos de sua linda, mas inconsequente amiga. Perto do ouvido dela, disse baixinho:

— O que você acha que o Leonel acharia disso?

Ao ouvir o nome do irmão ser proferido, Nathalia se levantou de repente, assustando a amiga que a segurava. Parecia ter perdido a sanidade.

— Anna, você tem que me ajudar, você precisa, você me deve isso! — Ela esbravejou enquanto segurava os braços da amiga com toda sua força.

— Me larga Nat! — Anna gritou desesperada, tentando se desvencilhar das garras da amiga soluçando aos prantos.

— Você não pode me abandonar assim! Lembre-se de tudo que eu fiz por você!

Karen sequer conseguia raciocinar.

Por instantes as duas digladiaram. Nat foi se desesperando cada vez mais, enterrando as pontas dos dedos no braço descoberto da amiga.

— Tá doendo. Nat, para com isso! — Anna sentia o braço esquentar no local que era segurada, perto da queimadura do dia anterior. Sentindo a ardência aumentar, Anna soube que tinha de apelar também. — Chega!

Anna desferiu uma joelhada no peito da amiga. Nathalia cambaleou para trás, sem ar. Tateou o vazio, mas nada veio ao seu encontro. Tropeçou dos próprios pés e caiu de costas no banco onde as três antes sentavam, machucando o braço direito que foi de encontro à quina pontuda. No local da batida, pouco abaixo do pulso, um corte foi aberto, sangue escorria do local, manchando sua roupa, o chão e o banco caído.

Todos no lotado refeitório pararam para observar o acidente. Anna foi até sua mochila largada na mesa agora fora do lugar, revirou-a e encontrou a bolsa branca. Tirou dela um paninho, limpou o machucado da amiga e o enfaixou.

— É meu ultimo favor a você.

Anna Levantou-se e foi embora. Deixando as duas abraçadas no chão, chorando.

 

 

As aulas da terça-feira chegaram ao fim. No caminho para casa Ronan contou ao amigo sobre a injustiça da qual foi vítima. Ao saber que já fora envolvido, Dario não pôde mais conter sua indignação.

— Eu já fui chamado para depor? E pela Nathalia?

— É claro. Todo mundo viu que só nós quatro ficamos lá, até a Karen foi embora para não sobrar para ela. Queria ter feito o mesmo…

Dario tomou as dores do amigo, mas não iria deixá-lo aguentar tudo sozinho.

— Pode ficar tranquilo, ela não tem como provar coisa alguma. Você não fez nada no fim das contas.

Dario tinha razão, porém, Nathalia poderia estar guardando uma carta oculta na manga, mas havia alguém que poderia mudar tudo.

— O que você acha que a Anna vai dizer?

— Ela parece ser a única das três com a cabeça no lugar, então é bem possível que ela conte a verdade.

Dario parou, parecia pensar em alguma coisa. Ronan torceu para que fosse algo que pudesse lhe ajudar.

— Se a Anna contar a verdade, já seria o suficiente para te inocentar, não é mesmo?

— Acho que sim, mas eu imagino que não seja o bastante ter duas pessoas testemunhando ao meu favor e uma para ela. Eu preciso de algo concreto, algo que possa provar minha inocência além de meros testemunhos.

Dario tinha algo para complementar.

— Mas a Karen foi embora, você mesmo disse, não tem como ela cobrir a mentira da amiga.

— Tem razão… a turma toda pode confirmar que ela chegou antes de nós três na sala.

Expressões satisfeitas surgiram em seus rostos.

— Eu acho que alguém conjurou uma bola de fogo no próprio pé — concluiu Dario, gargalhando em satisfação.


    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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