Ronan – Capítulo 13 – Amizades – Parte I



Em uma morna manhã ensolarada de terça-feira, minutos antes do início da aula, uma representante da coordenadoria veio à sala A-101 pedir a Ronan que comparecesse ao Bloco Administrativo. Um calafrio perpassou por seu corpo, eriçando cada pelo do rapaz convocado. Não querendo se complicar, Ronan levantou-se, a passos nervosos dirigiu-se à representante sobre os olhares apreensivos dos colegas. Ela recuou, Ronan passou da porta e ela a fechou.

— É algo muito sério?

— Eu sou uma mera assistente incumbida de vir chamá-lo. Juro que não sei de nada.

O assunto morreu ali. Em silêncio os dois desceram as escadas, saíram do prédio, caminharam na passagem cercada de árvores, chegaram ao pátio frontal e passaram da porta dupla do bloco administrativo. O horário fez do local um semideserto comparado à vez que Ronan viera fazer os testes de admissão e financiamento. As paredes esbranquiçadas continuavam sem graça, pelos corredores onde o silêncio imperava eles seguiram até que a jovem representante parou.

— É aqui.

Ronan voltou três.

— Está preparando? Posso abrir?

Ele anuiu.

A porta foi aberta.

— Boa sorte — ela disse sorridente.

Ronan entrou e a porta fechou. Sentado sobre uma cadeira de mogno estofada, inclinada e recostada à parede, com os cotovelos sobre á mesa de mogno castanho escuro, os olhos também castanhos do coordenador denunciavam a seriedade de alguém prestes a dar uma noticia ruim.

— Ronan, é isso mesmo? — disse verificando a ficha sobre a mesa.

Ele assentiu.

— Sente-se. — O olhar foi fixado em Ronan. Aguardou e rapaz ocupar uma das duas cadeiras em frente á mesa da qual tanto se orgulhava. — Eu serei direto. Nós recebemos uma denúncia contra você, é uma denúncia de assédio, ocorrido ontem, por volta das seis e meia da manhã.

Ronan estarreceu, sentiu a respiração pesar a cada batida acelerada do coração. Tinha imaginado de tudo, mas que Nathalia fosse acusá-lo de algo tão grave parecia surreal demais. O pânico tomou conta de seu corpo.

E o desespero o fez protestar levantando a voz.

— Que? Que absurdo! É uma mentira, pode perguntar para qualquer um da sala!

— Se acalme. Você não está sendo julgado, não ainda. Você terá todo o direito de se defender. Como você já tem 17 anos terá que responder essa acusação como um adulto.

Não pôde acreditar. Aquilo era seríssimo e poderia manchar seu registro para sempre. Após uma breve pausa, Rafael prosseguiu:

— Por esse motivo estamos conduzindo um inquérito. Vamos coletar os depoimentos de todos os presentes antes do devido prosseguimento. — Sua voz emitiu um tom categórico.

Ao ouvir isso, Ronan relembrou do ocorrido. Refletiu que ela iria forçar as amigas a deporem em seu favor. Uma ideia avivou as chamas da esperança.

— Dario, Dario Zeppeli. Ele tem que depor também, ele estava lá.

Rafael pegou a folha que estava em cima da mesa e a consultou. Enquanto o coordenador lia o papel, Ronan deduziu ser a denúncia de Nathalia. Lá estavam às mentiras proferidas pela víbora. Quando ele pareceu ter encontrado o que procurava, comentou:

— Interessante! Esse rapaz já foi convocado e, inclusive, nomeado pela própria vítima — disse largando o papel na mesa. — Como se trata de um assunto dessa magnitude, marcamos uma audiência preliminar, que será conduzida pela coordenação no fim desse mês. Caso se mostrar verdadeiras essas acusações, o inquérito será convertido em processo judicial e encaminhado a uma corte competente. — Fez uma pausa antes de prosseguir: — Se chegarmos neste ponto, eu recomendaria arranjar um profissional para cuidar de sua defesa — terminou.

Se não bastasse precisar depor na frente das autoridades da universidade, imaginar esse pesadelo se transformar num caso jurídico fez Ronan ter vontade de vomitar ali mesmo, tamanho o nervosismo e ansiedade. Com as mãos no rosto, esperou a ânsia passar.

Preocupado, Rafael perguntou:

— Está tudo bem?

— Mais ou menos — respondeu baixinho enquanto coçava os olhos.

— Esse inquérito seguirá em sigilo se for de alguma ajuda, mas eu tenho mais uma noticia ruim para você.

Só de pensar a ânsia piorou. Espasmos fizeram seu rosto projetar-se para frente, voltar e repetir.

— Você gostaria de esperar um momento ou tomar uma água antes?

Ronan negou balançando a cabeça com uma mão na testa e outra no encosto da cadeira. Rafael aguardou o rapaz se recuperar com os cotovelos apoiados na mesa. Minuto após minuto, a cor voltou ao rosto dele. O pior estava por vir.

— Seu financiamento será cancelado a partir do mês que vem — despejou sem titubear.

Sem nem piscar, Ronan protestou:

— Por quê? Isso já não é demais? E se eu provar minha inocência?

— Infelizmente, mesmo que o inquérito ocorra em sigilo, a fundação é notificada sobre esse tipo de denúncia. Como ela é um grupo filantrópico sustentado por grandes famílias e gente do alto escalão, ter um aluno “patrocinado”… — ele literalmente fez as aspas com a mão —… que esteja sendo investigado, faz a imagem deles ficar manchada.

Irritado, se levantou e pôs suas mãos na mesa.

— Isso é um absurdo! Eu ganhei esse financiamento porque eu me dediquei, não é isso que ela deveria representar? Isso deve ser contra alguma lei. Não é possível uma coisa dessas!

— Não existem regras que regulem o funcionamento dos financiamentos. As condições para consegui-las são impostas pela fundação. Uma vez que a ganhe, você fica a mercê da arbitrariedade de quem as oferece. É assim que funciona. — Rafael parou para suspirar. — Sinto muito por lhe trazer tanta infelicidade — concluiu com pesar.

— Vocês não podem fazer nada? E se eu provar minha inocência, como fica a minha situação?

— Se você realmente for inocente, deverá provar na audiência preliminar desse mês, e uma vez ganha, o corte será cancelado.

Ainda incomodado, Ronan percebeu que esbravejar sua inocência não surtiria efeito algum, então, retirou-se da sala sem despedir-se.

Vencer aquela audiência era a única alternativa.


    Autor: Raphael Fiamoncini   |   Revisora: Marina



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