Ronan – Capítulo 119 – Contra-Ataque – Parte VI


Ronan soube que nunca derrotaria esse tal Eric Tormensson. Não havia maneiras para vencer uma monstruosidade daquelas, não sozinho, não com conjurações e muito menos com sua espada torta como estava. Mas ver aquele Ivar, o maldito que executou sua mentora voar pela janela, lhe trouxe um pouco de esperança, justiça, talvez vingança. Porém, mal conseguia se mexer, com muito esforço conseguiu se ajoelhar, tentou agarrar a espada, mas seus braços não respondiam às suas vontades.

No pátio do castelo, Eric Tormensson lamentou a morte do companheiro.

— Descanse em paz meu bom camarada. Eu juro pôr um fim a quem lhe fez isso.

A pesada armadura chacoalhou a cada passo em direção à Ronan, quando menos de dez metros separavam um do outro, Eric disparou e saltou levando o machado aos céus para deferi-lo no coitado ajoelhado, segurando como podia sua espada torta.

— Pare! — uma voz feminina irrompeu da entrada do castelo, mas tarde demais.

A lâmina do machado desceu em Ronan, atingindo a placa peitoral, trespassando o aço. Sentiu a cota de malha romper e algo lhe perfurar. Caiu de costas no chão. Cuspiu sangue e tentou suportar a dor agoniante.

Anna surgiu na porta do castelo como um anjo, seus cabelos castanhos sacudiram ao descer a escadaria que a levou ao pátio.

Ela se aproximou do cavaleiro que recuara atônito com sua presença, não sabia dizer se ela era uma ameaça, também não sabia que fora ela quem atirou Ivar pela janela do segundo andar. Anna o ignorou e correu para perto de Ronan, empunhou a espada de lâmina torta largada no chão, para dizer:

— Vai ficar tudo bem, eu tenho um plano — mentiu, pois ele sangrava assim como Dario.

Anna manuseou a espada com se fosse usá-la.

Segurando o machado com apenas uma mão, Eric Tormensson questionou:

— Foi você a covarde que fez aquilo com Ivar?

— Ivar? Fui eu sim.

— E pretende me enfrentar com essa porcaria?

— Eu nunca ganharia num combate desses, muito menos venceria essa runa irritante que absorve conjurações.

— Então?

— Irei apelar. — Anna recuou a ponta da lâmina e a desferiu em sua mão esquerda. Urrou tamanha a dor que a inundou quando o sangue escorreu da palma perfurada, caindo no chão.

— Não pode ser! — Eric demorou, mas compreendeu o que testemunhou. — Renegada! — esbravejou correndo contra a garota que gritava um lamento de partir o coração. Ergueu o machado e concentrou toda sua canalização em apenas uma das runas.

Anna ergueu o braço ensanguentado, tremendo. Concentrou todo seu ódio e frustração nessa conjuração. O sangue esguichou e converteu-se em fogo. A runa energizada do machado absorbeu as chamas sangrentas para si. Mas as labaredas não cessaram e continuaram a surgir da mão erguida por Anna Ambrósio, que ao mesmo tempo chorava e lamentava sua dor.

Caído no chão, Ronan testemunhou incrédulo. Não acreditava em seus próprios olhos. Chamas sangrentas, um fogo infernal, carmesim, era isso que Anna conjurava diante de si. A runa talhada no machado do cavaleiro falhou num lampejo. Baforadas lamberam sua armadura durante esse breve intervalo, derretendo um pouco da superfície metálica do peitoral.

Até a runa estourar um brilho insuportável.

Anna vacilou, mas as chamas o consumiram entre gritos agonizantes que violentaram os ouvidos de todos dentro das muralhas do castelo.

Uma massa carbonizada envolta em metal derretido foi tudo que sobrou do outrora temido, Eric Tormensson. Anna foi ao chão, sujando ainda mais seu vestido verde no sangue já derramado. Mesmo assim não se deu por vencida e aos poucos foi se arrastando para perto de Ronan.

O olhar dela lhe transmitia toda agonia que lutava para esconder, de seus olhos, lágrimas brotaram quando tentou não chorar. Com a mão direita foi se aproximando devagarinho, Ronan tentou encontrá-la no meio do caminho, mas a descarga que o atingiu lhe paralisou, seus membros se limitaram a tremer quando se esforçava para mexê-los.

Num último arrastão ela chegou perto do rapaz, de sua mão empapada em vermelho o sangue escorria. Pouco verde restava em seu vestido.

Uma tira da manga foi rasgada num puxão e levada ao ombro. Ela desafivelou a couraça amassada de Ronan e a largou do lado, as ligas de aço da cota de malha vestida por baixo, partiram no ponto de impacto do machado. Sangue escorria entre o rasgo da última camada, onde vestia o traje de couro e o casaco felpudo que ela tanto adorava nas noites frias compartilhadas.

Anna soube que ele estava para morrer devido à perda de sangue, assim como ela. Lágrimas umedeciam o chão em paralelo ao sangue que escorria da mão esquerda. Cogitou enfaixá-la para estancar a sangria, mas isso a impediria de ajudá-lo. Pressionou o tecido contra o ferimento no peito dele, evitando uma maior perda de sangue.

— Como vo… — A voz dele falhou. — Como? — perguntou rilhando os dentes ante a dor vinda do ferimento, intensificada pela pressão que Anna agora fazia.

A tira antes verde ganhou uma tonalidade rubra.

— Ronan. — Uma gota escorreu, e caiu, logo absorvida pela tira avermelhada. — Vai dar tudo certo, eu prometo. — Um sorriso contrastou onde apenas dor antes residia.

— Mesmo que… — ele terminou com um grunhido agoniado —… é o fim. — sentiu a consciência lhe abandonar.

O braço ensanguentado de Anna foi de encontro ao peito do rapaz, passando por baixo do pano que fazia pressão, entrando em contato direto com o ferimento.

— Ronan. — O sorriso venceu a dor que insistia lhe afligir. — Este é o meu… — mais lágrimas brotaram de seus olhos, que o fitavam com uma paixão melancólica. —… este é o meu presente de despedida para você. Meu primeiro, e único, amor…

Tentou questioná-la, confortá-la, mas sangue foi vomitado quando tentou. Os olhos dela permaneceram mirando os seus, assim como o sorriso que Ronan em sua mente tentava desvendar o que havia por trás. Foi então que a mão dela apoiada em seu ferimento brilhou envolta de uma aura vermelha cintilante.

Atônito, Ronan testemunhou com suas últimas forças, o evaporar do sangue no braço de Anna. Alguns filetes que outrora escorriam como bem intendiam, agora seguiam uma corrente específica, rumo ao seu ferimento, se fundindo após o contato. Os sentidos aos poucos voltavam a si. Uma sensação anestésica foi lhe envolvendo e a dor agoniante deu espaço a uma energia revigorante.

Anna fraquejou, rompendo por segundos a conjuração de sangue que fazia. Grunhiu perante a dor que cobrava o preço por tudo aquilo.

— Não me diga que esta é a…

— Manipulação de cura? Só percebeu isso agora? — Anna tentou rir, mas seu braço latejou numa intensidade que a fez urrar. — Acho que está fora de perigo. Espero que Dario também. — Sua face contraiu-se numa careta perturbada.

Sangue voltou a escorrer do braço esquerdo dela.

Ronan levantou-se com dificuldade, aproximou-se dela, e sem permissão, rasgou outra tira do vestido.

— Eu faria alguma piadinha maliciosa, mas… — Ela parou quando a mão latejou, trazendo ainda mais sofrimento.

Ronan adiantou-se e enfaixou o braço ensanguentado com a tira.

— Obrigado Ronan, mas já é tarde. — ela lamentou baixinho, com os olhos semiabertos.

Ele a tomou em seus braços, sentindo cada fio castanho entre seus dedos.

— Vai dar tudo certo Anna, eu prometo. — Tentou ser forte. Fingiu um sorriso para ocultar o medo de perdê-la, porém lágrimas fluíram e denunciaram o fraquejar sincero que o perturbava.

— Lembra-se da ponte? — ela falou baixinho em seu ouvido.

— É claro que sim, como eu iria me esquecer.

— Vá até lá quando puder, faça isso por mim, por favor, me prometa.

— É claro, mas nós iremos juntos.

— Vou estar te esperando.

E os olhos dela foram aos poucos: se fechando.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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