Ronan – Capítulo 118 – Contra-Ataque – Parte V


O trio esperava cruzar os portões do castelo e encontrar o inferno na terra, mas o que testemunharam foi o oposto. Uma vastidão vazia se arrastava da muralha leste a oeste do Colégio Arcano, salvo por dos ou três sentinelas ou guerreiros que os olhavam com desconfiança.

Nenhum oficial foi avistado durante o trajeto. Restava apenas uma figura sentada sob a escadaria entre a entrada e o pátio, antes sempre tão movimentado.

Por um tempo eles apenas se encararam, a figura trajava uma armadura semelhante à de Ronan, mas num acabamento diferente. Quando ele pareceu dar-se por satisfeito, levantou e virou em direção ao interior do castelo, para anunciar:

— Chefe! Temos visita.

Ronan jurou ter visto um rosto numa das janelas do segundo andar, mas permaneceu em silêncio. O rufar de passos metálicos anunciaram a pesada armadura que se aproximava. Ronan testemunhou surgir das portas do castelo uma fortaleza humana, tamanha a imponência emanada pelo aço cinzento que o cobria.

Tão grande era a habilidade de quem forjou a monstruosidade, que nem nas articulações ele pôde ver se o sujeito trajava uma cota de malha por baixo daquilo tudo.

O cavaleiro pareceu ter lhes dirigido à palavra, mas o elmo fechado dificultou o entendimento. O sujeito que o chamou repetiu as palavras do seu “chefe”:

— Ele quer saber quem são vocês. Além do mais, porque não ostentam o símbolo?

Os três conjuradores se entreolharam com desconfiança. Mais uma vez Vitória tomou a liderança:

— Acabamos de chegar de uma missão, vocês também não ostentam símbolo algum pelo que vejo.

— Nós não precisamos portar símbolo algum. — Virou o rosto para o brutamonte do seu lado. — Eric?

O cavaleiro retirou o elmo fechado, revelando um rosto adulto, cansado, cujos cabelos curtos, negros e arrepiados se desgrenharam devido à proteção que fora tirada.

— Vocês não parecem surpresos, muito menos demonstram reconhecê-lo. — levou a mão ao queixo para refletir. — Mostre a eles o machado.

— Chega de brincadeiras, Ivar — Eric reprendeu o subordinado antes de inquirir os três embaixo da escadaria. — Conheço meus camaradas como minha própria família, se vocês são aliados, então nos provem antes que eu perca a paciência.

A rispidez cravada naquelas palavras assustaram os jovens manipuladores.

— Mas quem é você para falar assim com a gente? — Dario irritou-se com a situação.

O machado de guerra agarrado na extremidade foi erguido, runas talhadas na face exposta revelaram um padrão desconhecido para os três. Mas pelas representações dos raios convergindo num vórtice, Ronan pôde fazer uma dedução sobre a natureza do poder residente na arma, porém seu potencial permanecia oculto.

— Príncipe da Tempestade — Ronan sussurrou para Dario, que captou a mensagem com uma expressão cética.

— Não pode ser — sussurrou de volta.

— As runas, presta bem atenção no desenho.

Antes que Dario tentasse compreender as figuras talhadas na cabeça do machado, o cavaleiro pôs o elmo de volta e empunhou a arma com as duas mãos, para lhes perguntar:

— Quem vocês servem?

— Servimos ao capitão Ian.

— Não o conheço, mas eu quis dizer: a qual império vocês servem.

Apenas pela pergunta Ronan já soube a qual lado ele pertencia, ninguém que servisse à Leon reconheceria a existência de um segundo. Ao perceber a verdade, o medo tomou as rédeas do seu raciocínio, virou-se para constatar se mais alguém captou a mensagem oculta nas palavras do cavaleiro, ou Príncipe, Ronan já não conseguia mais discernir. Os semblantes dos amigos demonstravam a incerteza de outrora, o que significava apenas uma coisa, eles não sabiam.

— Eles são inimigos — balbuciou quando retomou um suspiro de consciência. Os dois amigos voltaram-se para ele, então se entreolharam enquanto os dois guerreiros permaneceram impassíveis do alto da escadaria.

Vitória ergueu os braços, juntou as mãos e um brilho violeta iluminou os arredores. Dezenas de agulhas da mesma coloração chisparam contra os dois. Ivar saltou para trás e praguejou:

— Caralho!

Os projéteis convergiram para a lâmina do machado, onde uma runa de absorção brilhava na face antes oculta. Dario seguiu o exemplo da mentora e conjurou uma de suas rajadas de ar.

— Você precisa parar de borrar as calças quando uma conjuração vier até você, meu amigo trapaceiro. — O ar conjurado foi redirecionado e absorvido para a mesma runa.

Ivar retrucou recuperando a postura:

— Não precisa me humilhar na frente das visitas. — Puxou o antigo machado rúnico de Eric, tão gentilmente lhe presenteado.

Lá embaixo da escadaria, Dario esbravejou para os colegas:

— Outra arma rúnica?

— Isso aqui? — Ivar levantou o machado de uma mão. — Fiquem tranquilos, eu não sei fazer essa bruxaria brilhar não.

— Essa língua grande será sua ruina, meu camarada — disse Eric. — Você acaba de revelar um detalhe muito importante. Vá! Encontre um arco ou uma besta dentro do castelo e dispare nestes inúteis.

Sem dar chance ao acaso Ivar correu rumo ao castelo.

— Agora! — vociferou Ronan desembainhando a espada. Com ajuda de Dario, os dois conjuraram uma ventania combinada. Das mãos de Vitória setas arcanas brotaram mais uma vez. Impulsionadas pela corrente de ar elas cortaram o ar em altíssima velocidade. Lá em cima da escadaria, Eric esticou o machado na horizontal e as duas conjurações distintas convergiram para a runa da face esquerda.

— Chega de brincadeiras! — rugiu o Corvo da Tormenta. Ele disparou em uma corrida, fazendo as placas de aço da armadura se chocar quando saltou do alto da escadaria. Ergueu o machado em pleno ar e golpeou o chão próximo aos três manipuladores.

Centelhas azuladas e roxeadas chisparam ao se projetarem da arma, atingindo os três por alguns instantes. O cavaleiro girou o marchado, ao seu redor os três continuavam atordoados, em um círculo a lâmina subiu, e desceu, golpeando o mais próximo no peitoral.

Dario foi ao chão com sua placa peitoral perfurada pelo bico do corvo cuja cabeça fora representada na parte de trás do machado.

Vitória, perturbada por não conseguir atingi-lo com suas conjurações, partiu para o corpo a corpo, ergueu a maça e a desferiu de cima para baixo contra as costas do agressor, a pancada atingiu-o em cheio, fazendo tremular a capa azulada, mas a mão ardeu com o impacto, pois não fora treinada para o combate armado. O cavaleiro girou nos calcanhares e balançou o machado mais uma vez, pronto para o ataque.

Ronan buscou uma abertura naquela aberração de armadura, tudo que notou foram brechas pequeníssimas entre articulações. Assustou-se com a agilidade demonstrada pelo guerreiro, parecia que o peso monumental em seu corpo não lhe cobrava a merecida mobilidade. Mas não era hora de contemplar o poder da criatura. Tentou perfurá-lo por uma abertura, mas ele se virou a tempo, Ronan viu de relance um pequeno broche abaixo das felpas envoltas pelas ombreiras do oponente, nela, um corvo negro repousava num galho de salgueiro.

O machado irradiou quando as runas receberam uma forte canalização. Faíscas dançaram pelo aço em trajetórias visualmente aleatórias. O manuseador golpeou numa estocada com a ponta perfurante. Aquele foi um movimento inesperado para adotar com o machado, mas Ronan esquivou para o lado e manteve a guarda alta. Pôde ler as intenções do cavaleiro, descobriu o que ele estava prestes a fazer. Faíscas atingiram o escudo criado com antecedência pela runa do florete empunhado por um manuseador prevenido.

— Para uma criança, você até que sabe lutar. E essa runa, muito promissora para um cãozinho de Alexandre.

Ronan o encarou, mas o guerreiro conseguiu manter a atenção nele e em Vitória ao mesmo tempo. Dario cambaleou ao tentar se levantar, seu rosto ganhou uma palidez preocupante e sangue escorria onde fora golpeado pelo bico do corvo que agora olhava para Ronan.

Soube que ele não poderia mais lutar.

O machado foi erguido e desferido na horizontal, Ronan protegeu-se das fagulhas como antes. Vitória as aparou com o escudo translúcido conjurado. Mas o Corvo não tinha acabado, ele se aproveitou do fator surpresa, utilizou o movimento anterior para girar a lâmina e voltá-la num golpe semelhante, mas vindo do lado oposto.

Vitória foi pega de surpresa, não teve tempo de moldar uma proteção. O golpe não a atingiu diretamente, mas as descargas encontraram seu corpo, levando-a ao chão.

Ronan saltou para trás, a barreira o protegeu mais uma vez das centelhas saltando da runa do machado. Agradeceu pelo escudo necessitar apenas da canalização arcana, algo que conseguia fazer sem muitos problemas, mas não pôde comemorar; muito pelo contrário, agora restava só ele contra a monstruosidade diante de si.

O desespero foi sobrepujando a pouca bravura que ainda lhe restava. Os olhos negros por detrás daquele elmo fechado exalavam a confiança de um guerreiro experiente e intimidador.

Eric agarrou o machado com as duas mãos.

E avançou.

Medo e desespero suplantaram o instinto de Ronan, cujas pernas falharam ao tentar esquivar. Em compensação a espada fora erguida, preparada para bloquear o machado de guerra que desceu de cima para baixo.

O ruído agudo de metal se chocando reverberou pela muralha do castelo. A lâmina da espada envergou, mas não partiu. Os braços tremeram, porém, não mais os sentia. Todas as runas brilharam e as fagulhas castigaram a barreira que envolvia Ronan. Brechas surgiam e por elas descargas o atingiram, mas o rapaz conseguiu manter a canalização até o cavaleiro parar, sem motivo aparente.

O peso monstruoso da arma que o oprimia, desapareceu.

Ronan levantou o olhar desesperado para ver que Vitória havia golpeado o elmo do cavaleiro, que se levantou para proferir:

— Você é chata mesmo. — Não exalou a preocupação que Ronan aguardava.

Uma figura surgiu numa das janelas do segundo andar do castelo, trazendo consigo uma besta já carregada. A visão falhou, mas Ronan reconheceu quem era.

Tarde demais. Um estralo. Sangue esvaiu da testa alvejada pelo virote.

— Ela era minha, Ivar — esbravejou o cavaleiro para o subordinado lá em cima.

— Mas chefe, você me mandou disparar neles.

Ronan cambaleou. Aos poucos recuperou os movimentos dos braços.  O cavaleiro girou nos calcanhares para desafiá-lo:

— Acabou jovem mago, vocês já eram.

Vociferado pela janela do segundo andar, um aviso foi dado:

— Chefe, tem mais alguém aqui.

Eric estendeu o machado para torturar Ronan com mais descargas. O rapaz caiu no chão com a espada rúnica ao seu lado, envergada no ponto onde a cabeça da arma inimiga atingiu-a pouco antes de Vitória vir salvá-lo.

— Quem é? — Eric perguntou enquanto torturava o rapaz.

— É só uma garota — respondeu botando a cabeça para fora da janela. Voltando para ela, Ivar perguntou: — O que você faz aqui, hein?

— Vocês mataram meus amigos! — Ambos puderam ouvir o grito lá de baixo.

Um estrondo. Um corpo voou gritando, arremessado pela janela do segundo andar, caindo no pátio do castelo.

— Ivar! — esbravejou o cavaleiro, que disparou para socorrer o amigo trapaceiro.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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