Ronan – Capítulo 117 – Contra-Ataque – Parte IV


Ronan analisou a batalha da mesma forma que o capitão fez antes de partir para o combate. Cinquenta passos o separava da linha de frente, trinta era a distância até a formação de arqueiros cujas flechas estavam para acabar; contabilizando seis arcos tencionados e um largado no chão, ao lado da aljava vazia, ambos abandonados por seu manuseador que desembainhou a espada curta para avançar os dez passos até a linha de frente.

Bravos guerreiros, sem medo morrer.

Empunhando seu florete e contagiado com tamanha demonstração de bravura, Ronan disparou rumo aos vinte companheiros na vanguarda. Uma formação curva com apenas duas fileiras de espessura formava a resistência de Leon.

Os números favoreciam as forças invasoras, mas a defesa contava com a proteção natural dos pinheiros para compensar. As paredes de escudos que anteriormente se chocavam agora inexistiam. Ian permanecia atrás da formação, observando o combate enquanto gritava suas ordens:

— Parede se formando à direta. — Flagrou um pequeno grupo com escudos erguidos.

Ronan disparou para o local indicado, mas foi puxado e repreendido por um brutamonte portando um martelo de guerra:

— Não se intrometa — rugiu e avançou contra os escudos há pouco erguidos.

Acompanhado de mais cinco guerreiros brandindo armas semelhantes, eles despedaçaram os escudos em poucos golpes. Mas para o azar daqueles de branco com o grifo em vermelho, o outro lado contava com uma farta reserva para substituir os caídos. E piorou quando cinquenta homens vestindo azul e cinza brotaram por trás das árvores e da escuridão para trucidar a vanguarda de Leon.

A formação inimiga foi engrossando, ficando mais ousada a cada reforço, dando espaço aos pelotões incumbidos de contornar em busca dos flancos desprotegidos.

Do outro lado, coube a escassa linha de apoio a tarefa de suavizar o desespero nos rostos dos rapazes lá na frente, mas era uma horda que se aproximava.

Um tufão surgiu jogando terra, rochas, galhos e folhas contra os invasores, retardando com eficiência o avanço dos linces.

Dario surgiu ao lado direito de Ronan, e Vitória à esquerda.

— Guerreiros de Leon, abram espaço! — ela rugiu.

Os olhos dos aliados foram ao trio assim que tiveram a oportunidade, vendo e prevendo o que eles estavam planejando, acataram as ordens vociferadas pela ruiva. Das palmas erguidas dela, dezenas de pequenas setas roxas foram liquefeitas para serem impulsionadas pela ventania contínua de Dario. A combinação esguichou a energia arcana condensada em respingos, corroendo a carne, o couro e o metal vestido pelo inimigo.

Ronan não quis ficar parado olhando, então ajudou os amigos como pôde, produziu a rajada mais forte que conseguiu, aumentando a largura da conjuração combinada. Além da dor infligida pela manipulação de Vitória, os esforços dos rapazes dificultou o avanço insistente das forças inimigas.

Mesmo assim, tudo isso não bastou.

Apesar das dificuldades no caminho, nem todo o campo fora encoberto pela combinação arcana, quando os invasores avistaram uma abertura, eles contornaram os limites das rajadas onde inexistiam os apavorantes respingos corrosivos.

Não havia mais ninguém para cobri-los, caso os alcançassem, tudo se perderia.

Um súbito e não esperado trovejar de trombetas não alterou a confiança dos guerreiros de Lince, que avançavam com bravura sobre os defensores. Gritos de guerra emanaram por trás de Ronan, anunciando a chegada de uma nova força.

Lá na frente, Ian sorriu quando disse:

— Rapazes, a cavalaria chegou.

Mas não foram “cavaleiros“ que irromperam entre as árvores do bosque. Pouco mais de uma centena de guerreiros vestindo as cores imperiais avançaram sobre os oponentes, trazendo equilíbrio à batalha.

— Apesar de atrasados, eles vieram. — Ian recuou até ficar em frente aos três conjuradores. — Devo essa a vocês, podem voltar tranquilos agora.

 

 

O canto da batalha persistiu no regresso à Rioalto. A distância pôde ter abafado, mas a gritaria ainda atormentava os três manipuladores durante a caminhada. O bosque terminou, o campo se abriu e o portão oeste surgiu guarnecido por um regimento inteiro, provavelmente aguardando a chegada dos sobreviventes.

Os três se aproximaram dos homens de olhares soturnos. A patente do oficial foi identificada pela ombreira decorada, indicando o cargo de sargento. Ele alisou o bigode e adiantou-se para receber o trio:

— Bom trabalho pessoal, nenhuma pedra voadora nos atormenta mais. — Retirou o elmo e perguntou: — Mas vocês não deveriam estar ajudando? Por que voltaram tão cedo sendo que a batalha não terminou?

Nos bosques distantes, estouros irradiavam luzes vermelhas, laranja, azuis e roxas na escuridão. Os três juntos eram armas para o combate contra manipuladores inimigos, disso eles bem sabiam, pois aprenderam na prática.

Para o alivio de Ronan, Vitória veio com a resposta:

— Ian conta com guerreiros portando armas rúnicas para defendê-los de bruxos, quanto a isso vocês podem ficar tranquilos. A missão foi bem sucedida e agora eles se ocupam em finalizar o restante do contra-ataque. Quanto ao nosso regresso, nós voltamos para ajudar na defesa, pois avistamos um aríete adentrando no portão sul.

O sargento calvo alisou o bigode pela outra ponta, ruminou algo para si, mas prosseguiu:

— Tudo bem, vocês três podem entrar. Corram para o castelo e se apresentem ao Mestre Artur, ele deve ter algo em mente para vocês fazerem.

O trio assentiu e adentrou no portão. Na porção interna do setor oeste a rua se abriu num ambiente desolado. Fora os arqueiros na muralha, ninguém mais fornecia suporte ao pelotão do lado de fora. Percorreram as ruas vazias. Apenas de vez em quanto cruzavam com outro ser vivo, na esmagadora maioria eram regimentos apressados se movimentando para cumprir alguma missão dada. Por fim chegaram ao portão da muralha interna, que guarnecia as estruturas mais importantes da cidade.

Do alto da torre direita, um sentinela os interrogou:

— Quem são vocês? O que fazem aqui? E por que estão do lado de fora?

Vitória de um passo à frente e respondeu a torrente de perguntas:

— Somo manipuladores e cumprimos a missão de destruir os trabucos.

— Então foram vocês os responsáveis? Fico feliz que estejam vivos, um ótimo trabalho se me permitem dizer, mas cadê o resto da companhia?

— Ainda lutando — E acrescentou com a mentira que inventou: — Viemos para ajudar na defesa da cidade.

— Nossa! Que coisa não? Podem entrar. Talvez agora vocês possam dar um jeito naquele tal Príncipe da Tempestade, parece que ele vem aterrorizando o pessoal do portão sul.

Vitória tomou a situação para si mais uma vez.

— O senhor tem certeza disso? Eles o chamam por esse nome mesmo?

— Eu não sei disso senhorita, ouvimos apenas os rumores que circundam as ameias da muralha interna. — O portão já fora aberto por completo. — Eu acho bom que vocês se apressarem até o castelo, soubemos que coisa tá feia por lá.

— Obrigado pelo aviso, faremos isso mesmo. — Vitória terminou abanando a mão numa despedida. Voltou sua atenção aos rapazes. — Ele está certo, se a situação no castelo piorou é porque algo preocupante aconteceu. — Olhou para cada um com seriedade. — Vocês conseguem correr até lá?

— Nessa armadura? — começou Ronan. — Acho difícil, por acaso eu devo tirá-la?

— De jeito nenhum, mas preciso que você se esforce para nos acompanhar.

Ronan sabia que era o mais forte e rápido dos três, mas o peso adicional da armadura sobrepujava sua velocidade por completo, tornando-o o mais lento. Por um instante cogitou livrar-se de alguma peça para suavizar a disparidade, mas Dário logo o repreendeu quando o flagrou desafivelando a ombreira.

Carregando o peso do mundo nas costas, Ronan se apressou como pôde.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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