Ronan – Capítulo 115 – Contra-Ataque – Parte II



As duas alavancas desceram, as travas cederam e as cordas sibilaram juntas do estrondo mecânico, que unidos, anunciaram o disparo dos projéteis que alçaram voo. O coice da energia liberada foi tamanho que as balistas recuaram quase meio metro para trás. As duas flechas desapareceram na escuridão. Uma das distantes catapultas do acampamento inimigo fora recém-carregada, e o projetil esférico, ateado em chamas.

Um estouro longínquo ecoou pelo bosque sombrio.

Estilhaços de madeira voaram pelas imediações do acampamento, assustando os pequenos soldados que Ronan enxergava graças às fogueiras e tochas ao longe. A esfera flamejante desencaixou do trabuco e rolou descontrolada, ateando fogo às tendas em seu caminho.

Quanto à segunda flecha, seu destino permaneceu incerto.

Os operadores das máquinas de cerco não perderam tempo e voltaram a trabalhar na próxima saraivada. Um ajustava a mira, outro girava a manivela que puxava a corda para trás até repousar na haste de aço que a prenderia, enquanto o último segurava o projétil em mãos, pronto para encaixá-lo no sulco cavado na madeira.

Na vanguarda que protegia as balistas, a cinquenta metros delas, um leve e distante farfalhar de vegetação rasteira atraiu a atenção de um guerreiro oculto por trás do tronco de uma árvore. Era sua função avisar a companhia.

— Devem ser eles! — repassou a mensagem aos colegas no fronte.

A notícia se espalhou causando um nervoso burburinho entre a primeira linha defensiva, alastrando para os demais colegas os rumores da aproximação adversária. Do alto do morrinho onde estava junto das balistas, seus operadores, conjuradores e melhores guerreiros, Ian captou o rumor entre cochichos.

Se o que diziam era verdade, estava na hora de chamar ajuda, o capitão foi até uma das carroças, tirou de dentro dela um arco e aljava e caminhou pisando fundo no barro avermelhado da elevação. Com a pouca luminosidade ficou difícil divisar os seus homens, mas o silêncio evidenciou o nervosismo que se alastrava. Ian olhou para a mata, por onde nada se via ou se ouvia; terminou voltando o olhar para o arco em suas mãos.

Estava muito cedo para usá-lo.

Atento ao distante acampamento atrás da paliçada, o que Ronan viu foi um formigueiro recém-pisoteado. Pequenos agrupamentos de soldados corriam de um lado para outro enquanto os demais tentavam apagar as chamas ateadas pela rocha incandescente, sufocando-as com pedaços de panos e jogando a água trazida em baldes.

Por onde espiava Ronan pôde enxergar mais três catapultas: uma próxima à destruída e duas mais à esquerda. Vozes e gritos de comando foram ouvidos por todos os guerreiros de Ian, vindas de dentro do bosque, perto demais para serem ignorados.

Os guerreiros ociosos se posicionaram, Ronan, Dario, Vitória e um pelotão de arqueiros formaram a segunda camada defensiva, complementada por cinco cavaleiros que juraram lhes proteger. Na linha de frente, quarenta guerreiros permaneciam ocultos atrás das árvores, aguardando na escuridão a chegada dos invasores.

Aquele estrondo mais uma vez, o som do disparo das balistas atraiu a atenção dos defensores.

Infelizmente, o outro lado também ouviu. Atrás da formação onde estava Ronan, por detrás das balistas e seus operadores, Ian apontou o arco longo aos céus, a ponta da flecha fora revestida por um tecido, embebido em um líquido inflamável e ateado em chamas, numa parábola ela alçou os céus, para depois cair, a trinta metros de quem a disparou, mas para trás, em direção norte.

Gritos de guerra entoaram da vanguarda, mas não das forças defensoras. Silhuetas mal iluminadas pela escassa luz do luar surgiram sacudindo as folhagens dos arbustos e os galhos das árvores.

— Garota, agora — comandou o cavaleiro ao lado de Vitória.

Ela estendeu seus braços, uma aura púrpura envolveu suas mãos.

Arcos foram erguidos e apontados contra os inimigos enquanto suas cordas foram retesadas a ponto de disparo.

— Agora — Ian ordenou, lá de cima da elevação.

Vinte e quatro setas voaram contra os invasores, dezoito de madeira com pontas de aço e seis feitas de energia arcana. Ronan testemunhou cinco corpos serem alvejados. A segunda saraivada foi preparada, as forças invasoras se juntaram numa formação improvisada, formando uma parede de escudos avançado passo a passo.

Trinta e dois escudos foram contabilizados por Ronan. Ao seu lado, Dario vinha preparando uma manipulação e, quando ele julgou acumular energia suficiente, repetiu o gesto da instrutora e um baque trovejou de suas palmas, por onde nada pareceu sair. Ronan estarreceu em incredulidade, mas logo se lembrou da manipulação favorita dele. Voltou o olhar para a parede de escudos, uma brecha fora aberta, derrubando uma dúzia de guerreiros de Lince.

Mais duas dezenas de flechas voaram contra a formação rompida, alvejando mais seis. Os arqueiros e Vitória se prepararam para a terceira saraivada. Entre lamentos, choros e urros, a formação inimiga foi reordenada. Dario concentrou-se e disparou uma segunda rajada de ar. Mais um estrondo veio do local onde a conjuração concentrada atingiu. A formação inimiga abriu, mas ninguém foi ao chão.

Pois um escudo transparente bloqueou sua conjuração.

A formação inimiga abriu-se ao meio, dando espaço para uma mulher adulta portando uma maça passar acompanhada por dois cavaleiros cobertos em metal. Era uma conjuradora, Ronan deduziu pela mão erguida dela, projetando a barreira côncava e translúcida.

— Disparar! — Ian dirigiu o berro para à segunda fileira.

Flechas cortaram o ar, mas escudos físicos surgiram para proteger a mulher que transpirava a calma destoante do campo de batalha. As setas de Vitória vieram logo em seguida, mas foram despedaçadas quando atingiram o escudo imaterial.

Gritos de guerra entoados ao longe anunciaram a chegada dos reforços vindos do acampamento inimigo. Dezenas de homens empunhando espadas, maças, lanças e escudos foram revelados pelo fraco brilho lunar. A proporção das forças agora ficou: dois de Lince para um de Leon.

O quarto disparo das flechas foi efetuado, atingindo os escudos arredondados da formação engrossada.

A distância se resumia a dez passos, quando os invasores se aproximaram das árvores ocultando a vanguarda de Leon, guerreiros vestindo o branco e vermelho surgiram e rugiram seus brados intimidantes, prontos para o combate corporal.

Um martelo desceu contra o escudo inimigo, despedaçando a madeira, entortando o esqueleto de ferro e adormecendo o braço do portador. As lanças brandidas perfuraram as cotas de malha por baixo dos tabardos cinza e azul, abrindo uma brecha no paredão de escudos.

Apesar da peleja iniciar favorável à Leon, Lince tinha número suficiente para contornar a formação opositora, forçando metade dos arqueiros a abandonarem os arcos e partirem para a linha de frente.

Um novo estrondo ecoou pelo bosque, seguido de um:

— Ótimo trabalho rapazes — Ian agradeceu os operadores das balistas. —Ponham as armas nas plataformas, sairemos o quanto antes.

Os poucos arqueiros que restaram atiravam suas flechas quando a oportunidade surgia, o pandemônio na linha de frente os impedia de agir por medo de acertar um colega, restava a eles alvejar os que buscavam flanqueá-los. Ronan flagrou a conjuradora contornando o campo de batalha pela direita, protegida pelos dois cavaleiros marchando em sua frente. Os três vinham se aproximando em sua direção, como se soubessem que eles eram conjuradores.

Três flechas voaram quando Ronan denunciou a posição dela, mas as couraças cinzentas dos cavaleiros pararam e defletiram as setas. Apesar de alvejados, seguiram confiantes. Brandiam espadas montantes da altura da protegida que acompanhavam, ela deveria ter por volta de um metro e setenta.

Vitória adiantou-se e disparou seis novas setas roxas contra os três tentando flanqueá-los. A mulher ergueu as mãos, um escudo arcano impediu a conjuração da ruiva mais uma vez. Os arqueiros ao lado de Ronan dispararam logo em seguida, os cavaleiros puseram-se à frente e as flechas de aço e madeira os alvejaram, duas penetraram e o da direita cambaleou, mas seguiu caminhando.

Por detrás de Ronan, uma ordem foi proferida:

— É a sua vez garoto — ordenou Ian.

Ronan apertou a empunhadura da espada e lançou-se à frente da linha de arqueiros. Os três invasores passaram pela última árvore, ficando a menos de dez metros. A conjuradora ergueu o braço, e de sua mão uma aura vermelha cintilante rugiu em chamas, projetando uma farta labareda contra a linha de apoio das forças defensivas. A nuvem de fogo envolveu todos perto de Ronan. Os mais distantes gritaram em agonia, para depois se calarem.

A runa da espada brilhou, demandando do garoto um esforço inédito. O calor infernal quase impediu a canalização da energia arcana, tamanho o terror da situação que se encontrava. Mas no fim eles permaneceram em pé, prontos para rechaçarem o contra-ataque.

As chamas abaixaram, Ronan disparou pela direita, Vitória e Dario foram pela esquerda já se preparando para conjurarem mais uma vez. O cavaleiro opositor não hesitou, vendo o garoto se aproximar por seu flanco, ele o interceptou. A espada montante girou em arco, Ronan recuou e uma pancada invisível derrubou o sujeito no chão, lançando folhas e areia contra seus colegas.

Os arqueiros sobreviventes miraram na conjuradora, mas o único cavaleiro em pé pôs-se em frente a ela. Setas o alvejaram, não as flechas de madeira com ponta metálica, mas as setas arcanas conjuradas por Vitória. A armadura do cavaleiro ruiu nos pontos de impacto. Gritos desesperados encheram os ouvidos dos mais próximos, cessando a batalha por alguns segundos até que caísse no chão, sem vida.

Mas alguém se aproveitou da distração.

Numa estocada Ronan sentiu a espada trespassar o vestido da mulher, perfurando por entre duas placas de aço na altura do abdômen.

O frenesi da batalha o envolveu num manto de coragem. Ela não morreria apenas com isso e Ronan sabia disso. Poderia ser uma conjuradora formidável, mas com um ferimento desses seria impossível se focar para canalizar em retaliação. Ronan puxou a arma banhada em sangue e perfurou-a de novo, mas dessa vez, no pescoço.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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