Ronan – Capítulo 109 – Rioalto – Parte II



Assim que o discurso de Artur terminou, os manipuladores foram agrupados de forma arbitrária em grupos distintos, mas por requisição pessoal de Ian, Ronan e Dario terminaram em sua unidade, junto aos sete cavaleiros que o capitão já liderava.

Horas se passaram e Artur havia retornado ao interior do castelo junto de sua guarda pessoal, deixando os manipuladores, estudantes e soldados recrutados compulsoriamente se enturmando. Porém, quando menos se esperava, um tumulto foi liderado por uma professora pacifista, que lutou para persuadir seus estudantes a não se envolverem no conflito.

No fim ela fora acusada de alienação e traição, sendo executada em seguida a sangue frio por uma espada rúnica que a degolou.

A mensagem transmitida por aquele ato repercutiu como o vento, trazendo silêncio ao pátio antes tumultuado. Isso não impediu que novos protestos surgissem por completo, mas fez com que eles terminassem assim que a primeira lâmina fosse desembainhada ou maça de guerra, levantada.

— Me sinto como um escravo — reclamou Ronan, sentando no circulo em que sua unidade relaxava.

— Vida longa ao imperador — saudou Ian com sarcasmo, erguendo o caneco transbordando cerveja. — Seus amigos não devem demorar. — Acrescentou com um sorriso sádico.

— O quê?

— Nós vasculhamos todos os registros de manipuladores na região. Meus amigos já devem estar chegando, assim como os seus. — O farto gole na bebida fez respingos caírem no chão.

— Você veste o grifo vermelho com orgulho? — Dario perguntou ao sujeito que os ludibriou.

Ele olhou para baixo e puxou o símbolo bordado no tabardo branco por cima da armadura que vestiu após o discurso do Mestre Artur.

— Eu não me importo com essas coisas. — Levantou o rosto para encarar seu interlocutor. — Poderia ser um passarinho, um dragão, ou até um ratinho, isso não passa de um símbolo besta. Um desperdício de boa tinta se quiser a verdade.

— Então por que faz tudo que lhe ordenam? Por que veste essa armadura com tanto orgulho?

— Você não me entendeu. É do símbolo que não me importo, mas nós devemos nossa lealdade ao império. O que seriamos de nós sem as conquista de inúmeros imperadores sedentos por poder?

— Livres, longe de muros vigiados por dezenas de arcos e espadas.

— Vocês são ainda muito jovens para entender. É a ganância que gira a roda do mundo em que vivemos.

— Que filosofia barata — murmurou rilhando os dentes.

O grupo voltou sua atenção à muralha, onde agitados sentinelas se apoiaram nas ameias e lançaram olhares à ponte que atravessava o fosso. Pelos gritos pouco compreensíveis entoados pelos arqueiros e besteiros, uma conversa foi discernida por Dario, e transmitida aos colegas em volta:

— Tem alguém vindo.

— Devem ser meus amigos — disse Ian ao se levantar, o peso da armadura fez surgir em sua face uma breve careta de esforço. — Vamos lá recebê-los, rapazes.

Os outros guerreiros repetiram o gesto e puseram-se em pé. Evitando uma discussão desnecessária, Ronan e Dario os acompanharam sem reclamar até a entrada do castelo.

Pela primeira vez os dois amigos viram o espesso portão de madeira fechado.

Os guardas na muralha trocaram gritos contra aqueles que requisitavam entrada ao recinto. A após uma breve conversa, os portões foram abertos por meia dúzia de soldados.

Encarando a estrutura de madeira que se abria diante dos seus olhos, Ronan reconheceu os rostos derrotados daqueles prisioneiros, algemados por grossas tiras de couro e escoltados por duas dúzias de cavaleiros montados.

— Deram trabalho, mas cederam no final das contas — o cavaleiro à frente dos outros anunciou para o amigo dentro dos portões.

— Anna! — bradou Ronan, mas antes que irrompesse numa corrida desesperada, foi parado pelas garras do capitão ao seu lado.

— Não fique tão emocionado por nada. Eles estão bem, mas devem estar presos por relutarem em servir ao império — Ian explicou e logo encarou seu companheiro atrás do portão aberto. — Não é mesmo? — perguntou levantando a voz

— Preciso como sempre, capitão. A garota foi quem mais resistiu, porém, a mais fácil de domar. — E deu um puxão na corda que ligava as algemas dela.

Anna cambaleou para frente, quase caindo, mas por muito pouco retomou o equilíbrio junto dos seus olhos faiscando em ódio. Ela não disse nada, olhou para o carrasco em cima do cavalo e espremeu o olhar.

Do outro lado Victor e Vitoria encaravam o chão, também não disseram nada, mesmo após a chamada proferida por Ronan. Seus olhares sem vida voltaram para aquele estado cansado, como se ansiassem pelo fim de um pesadelo.

O galope foi retomado e os cavaleiros adentraram nas muralhas do castelo escoltando os prisioneiros.

O portão foi fechado pelos mesmos seis soldados. A comitiva seguiu reto por vinte metros até pararem em um espaço aberto, dedicado ao desembarque das carruagens, mas nenhuma ali se encontrava.

Os cavaleiros desmontaram e amarraram seus cavalos em traves de madeiras dedicadas a essa função. Paredes cinzentas de construções periféricas delimitavam o lugar,

Espadas foram desembainhadas e erguidas pelos cavaleiros. Um por um os prisioneiros foram libertos. As Runas das couraças brilharam, anunciando que os cavaleiros se preparavam para uma eventual catarse destruidora por parte dos prisioneiros, algo que para alívio de todos, não aconteceu.

Só agora, a poucos passos da amada foi que Ronan notou a terra acumulada nas roupas dela, assim como os arranhões que marcaram a pele macia que tanto amava. Uma raiva rugiu dentro de si como uma fera prestes a assumir o controle do seu corpo. Respirou fundo, lembrou-se de todos os incidentes protagonizados por Nathalia, e em poucos segundos, conseguiu se acalmar.

— Todo mundo deve colaborar em tempos de guerra, incluindo vocês, membros da Ordem dos Magos — explanou Ian.

— Não devemos lealdade a ninguém. O que vocês estão fazendo comigo é um crime que viola todas as fundações de uma ordem neutra — respondeu Victor com toda a autoridade reunida em sua voz.

— Antes de um Sábio você é um cidadão do Império.

— Cuja cidadania eu abdiquei ao ser aceito na Ordem, assim como todos antes de mim também fizeram.

— Mas de acordo o Primeiro Decreto…

— Decretos e mais decretos, é só isso que vocês sabem dizer quando não tem mais argumentos. Vivem se escondendo atrás de papéis, justificando-se pelas burocracias cujas vidas dedicam a proteger.

— Ao menos não nos trancamos em torres e estudamos formas de explodir casas e incendiar plantações. Se não nós, quem impediria vocês de incendiarem ou afundarem o continente inteiro? Cuidado com o que fala garoto, vocês nos pertencem agora.

A discussão teria se alongado por horas, mas uma figura em trajes cinza surgiu para mediar à discussão. Em seu caminho os cavaleiros se curvaram para receber o Mestre que se aproximava.

— Que cena ridícula é essa, capitão? — inquiriu de frente ao cavaleiro que conduzia os prisioneiros.

O tom ríspido de Artur o fez se atropelar nas palavras quanto tentou se justificar.

— Eles, fugiram, tentaram, meu senhor.

Risos contidos escaparam da boca de seus companheiros.

— Victor, ele diz a verdade?

— Sim Mestre. Mas eu não deveria estar aqui, assim como meus protegidos. Eles nem se formaram ainda.

— Compreendo meu caro Sábio, mas precisamos de vocês.

— Hein? Você é o diretor de uma instituição neutra, do que você está falando?

— Acho que você passou muito tempo trancafiado naquela cabana para não ver a situação que nos encontramos. A guerra chegou meu jovem Sábio, tudo que prezamos está em jogo, nossas terras, famílias, amigos, além das nossas próprias carreiras.

— Carreiras? — Victor inquiriu incrédulo pelo que ouviu do Mestre. — Você se vendeu ao império por acaso? Você não terá carreira nenhuma assim que o Arquimago souber do que está fazendo.

— Quem você acha que sugeriu o recrutamento compulsório? Abra seus olhos enquanto há tempo, nossa Ordem nunca foi tão neutra quanto assume ser. — A feição de Artur carregava uma verdade inconveniente.

— E pensar que eu o admirava — lamentou melancólico. — Agora não passa de um charlatão, um vendido sem ideais. Você é uma vergonha, como pôde fazer isso com seus estudantes? Você está os sentenciando à morte. O sangue deles escorrerá em suas mãos!

Anna se aproximou do primo e tentou acalmá-lo antes do Mestre responder as acusações proferidas.

— Chega Victor, já basta.

Um sorriso brotou nos lábios de Ian, que ao lado do amigo anteriormente repreendido, divertia-se com a discussão.

— Escute sua amiguinha, ela sabe das coisas.

A face da garota foi tomada pela ira.

— Cale a boca, seu traidor.

— Por um segundo eu achei que você tinha a cabeça no lugar, mas parece que fui enganado.

Em dois passos, Artur chegou até o Sábio que ousou lhe desafiar.

— Você irá cooperar ou preciso tomar medidas drásticas?

A resposta veio após o olhar de Victor vagar por todos os presentes.

— Ao contrário de todos vocês, eu não almejo me tornar um cão do imperador.

— Victor! — bradou Anna, aflita.

— Tem certeza? — O olhar de Artur se fixou no homem de óculos.

Anna se atirou no chão, ajoelhou se arranhando na terra e implorou chorosa à figura do robe cinza:

— Ele não tem certeza, o Victor não sabe o que fala, por favor.

Ronan testemunhou atônito, a tensão se condensou em uma espessa névoa que nublou suas reações e pensamentos.

A visão foi embaçando, sentiu uma pontada, uma ânsia de vômito. Anna continuava implorando ajoelhada na frente do Mestre, mas Ronan não ouvia.

Artur apenas ergueu o braço, agora iluminado. Balançou a cabeça lentamente e milhares de fagulhas atearam fogo no Sábio de óculos.

Anna pareceu não saber se deveria recuar ou tentar ajudar o primo. Ela gritou enquanto lágrimas desenhavam pequenos rios por onde as gotas escorriam. Mas Ronan nada podia ouvir.

E sua última lembrança foi das nuvens negras e carregadas se aproximando enquanto tombava para trás.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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