Ronan – Capítulo 105 – Aprendiza – Parte IV


— Manipulação Arcana Pura. — Dario sugeriu. — Todo mundo na nossa turma tá sofrendo para aprender.

— Uma boa escolha. É bem comum iniciantes terem dificuldades nessa manipulação. Não é por nada que é considerada um dos pilares fundamentais, mas a parte teórica vocês já sabem?

Os dois acenaram confirmando a suposição da ruiva.

— Ótimo, então me mostrem o que já sabem fazer. Começando por. — Levou a mão ao queixo e pensou por um instante. — Por você, espadachim galante.

Aqueles olhos verdes se voltaram para a espada no flanco esquerdo de Ronan.

— Está bem, mas eu tenho dificuldades nessa manipulação.

— Antes de chorar, mostre-me do que é capaz.

Ele juntou as mãos e se concentrou com os olhos fechados. Sentiu o vento refrescar a pele e arrastar os fios do seu cabelo. O farfalhar gracioso do gramado o ajudou a reunir a energia necessária.

— Ótimo — Vitória anunciou.

Abriu os olhos e surpreendeu-se ao vislumbrar o brilho azulado emanando em seus punhos. Contemplou a quantidade de energia que conseguiu acumular de uma só vez. A instrutora parecia satisfeita com o resultado.

— Agora me surpreenda garoto.

Estacou.

— Mas isso é tudo que eu consigo fazer.

E a aura se desmanchou.

— Você é do primeiro ou segundo semestre?

Respondeu levantando dois dedos.

— Isso é ruim, bem ruim — ela analisou batendo o indicador no queixo. — Então você realmente tem dificuldade. É raro encontrar alguém que já empaque tão cedo, a não ser…

— Que seja um criador de runas — Dario completou. — Ronan, mostra a runa da espada para ela.

Com um passo apressado Vitória se aproximou, parou em sua frente e analisou.

— É por isso que carrega essa arma para cima e para baixo? Posso vê-la?

Um aceno vertical. Ronan envolveu a bainha de couro com a mão esquerda e com a outra, puxou a lâmina, oferecendo-a para Vitória. Os olhos verdes dela percorreram a estrela e os raios em redor talhados na lâmina acima da guarda.

— Acho que a sua situação não é tão ruim como imaginava — concluiu oferecendo o florete para o seu dono. — É raro encontrar um manipulador que porte uma arma rúnica tão cedo em sua carreira. — Ela deu dois passos para trás. — Já voltaremos para você espadachim, primeiro eu gostaria de ver do que seu amigo é capaz. — Ela girou nos calcanhares e caminhou voltando para onde estava antes de sair para ver a runa. — Me surpreenda garoto — dirigiu as palavras para Dario.

Ele levantou a mão direita na altura do rosto. Respirou fundo e concentrou-se. Ainda de olhos abertos, uma espessa aura azul contornou cada centímetro da mão erguida. Fechou os olhos. A aura se expandiu e o brilho se intensificou.

Dario estendeu o braço, abriu à palma da mão, uma dúzia de espinhos da cor da aura cintilante foram disparados contra as folhas do gramado, acertando tudo em um alcance de dois metros e meio. Aos poucos a aura na mão dele foi evaporando rumo aos céus, se dissipando na imensidão.

Vitória caminhou apreensiva até o local onde a manipulação foi mirada. Ronan não perdeu tempo, motivado pela curiosidade, acompanhou-a. Juntos, os três encararam o gramado alvejado. Furos nas proporções de agulhas e pregos estreitos macularam a folhagem verde. Para Ronan, tamanha constatação foi o suficiente para concluir o efeito da conjuração do amigo:

— Que… incrível…

— Realmente promissor para um aluno do segundo semestre — disse uma Vitória satisfeita com o que via. Ela caminhou para trás, tomou distância enquanto os dois apenas a observavam em silêncio. Quinze passos foram dados por ela até que se desse o trabalho de explicar o que pretendia.

— Dario, vem pra cá — ordenou acenando. — Gostaria de testar a runa do seu amigo.

Ele a obedeceu sem titubear, correu para o lado dela e com um olhar vidrado alternava sua atenção entre o amigo e a instrutora de cabelos vermelhos. Ronan desembainhou o florete empunhou-o com a ponta afiada na altura dos olhos. O característico brilho emanou do local onde a runa estava.

Com um olhar apreensivo, Vitória o instruiu:

— A primeira será um teste, então me avise quando estiver pronto.

— Já estou preparado. — A intensidade do brilho rúnico aumentou.

Vitória levantou o braço e da palma de sua mão uma esfera púrpura e translúcida percorreu os quinze passos de distância. Com o olhar Ronan acompanhou o trajeto da manipulação. Achou lenta demais, mesmo para um simples teste. Pouco antes do impacto a barreira transparente cintilou e a conjuração, despedaçou.

— Vou aumentar a intensidade e a velocidade, me avise quando estiver pronto.

Para garantir, Ronan canalizou mais energia para a runa.

— Pronto — anunciou com convicção.

Vitória repetiu o processo.

Uma esfera se formou com o triplo do tamanho da anterior. Na velocidade de uma pedra arremessada com força ela voou até a barreira e, em menos de dois segundos, a conjuração se despedaçou contra a proteção erguida, produzindo um estouro que assustou Ronan.

Ele permanecia intacto, mas arfava com os olhos arregalados. Engoliu a saliva acumulada, e confessou:

— Não esperava por tudo isso.

— Relaxa, a esfera explodiu porque a runa não conseguiu aparar tudo de uma vez, mas nestes casos a absorção deve ter bastado para contê-la.

— Não entendi foi nada. — Dario sacudiu a cabeça.

— Então vou te ensinar uma coisa, mesmo que não você não se interesse em criação de runas. Ronan — ela o chamou. — Venha aqui, por favor.

Ele percorreu os quinze passos de distância para ouvir o que Vitória tinha a dizer:

— Você já entende como essa runa funciona, não é mesmo? — Ele concordou e Vitória prosseguiu. — A runa do Ronan, apesar de relativamente simples, funciona em dois níveis: o primeiro é marcado pela estrela, que absorve a energia das conjurações; o segundo nível é composto pelos raios ondulados que cercam a primeira. Além de representarem a extensão máxima do efeito, elas materializam uma barreira arcana quando alguma conjuração chegue perto o bastante. — Vitória apoiou sua mão no ombro de Ronan, e o encarou com admiração. — Eu admitido, é uma bela runa, você de fato é um criador, o que explica essa dificuldade em manipular conjurações mais avançadas.

— A gente já ouviu isso antes, mas porque existe essa relação inversamente proporcional? — Dario não conteve sua insatisfação. — Para mim não faz sentido algum. Um conjurador deveria criar boas runas, assim como um criador deveria manipular normalmente.

— Você está absolutamente correto. Essa relação de fato existe, assim como suas exceções. Existem muitos que não conseguem conjurar nem criar runas de forma satisfatória, injusto? É claro que é, mas o que podemos fazer?

— Então existe algum manipulador genial capaz de criar runas poderosas? — disse Ronan, exaltado só de pensar.

— São raríssimos, mas existem sim. Um deles da aula na universidade de vocês.

— O professor Ronaldo Rodrigues.

— Ex-professor — Dario corrigiu o amigo. — Agora ele é Procurador.

— Um cargo excelente para alguém dotado de tamanho talento — disse Vitória.

— Você conhece outro? — Ronan perguntou.

— Conheço. Vocês já devem ter ouvido falar dele: O Príncipe da Tempestade.

Ronan e Dario se entreolharam.

— Você o conhece? — perguntaram em uníssono. — Nós apenas sabemos dos rumores — acrescentou Ronan.

— Eu estudei a trajetória dele, gostariam de saber mais?

Cabeças foram sacudidas para cima e para baixo com empolgação.

— Então vamos sentar no gramado, pois vou lhes contar uma história.

Ronan e Dario sentaram lado a lado, ficando de frente à cadeia de montanhas não muito longe do campo. Vitória se abaixou e cruzou as pernas, levou a mão ao cabelo e ajeitou alguns fios por trás do ouvido. A face da instrutora mirou para as nuvens cinzentas daquela tarde.

— O Príncipe da Tempestade, por onde eu começo?

— Pela guerra — sugeriu Dario. — Não foi nela que ele ganhou fama?

— Eu pensei em começar dos registros mais antigos, mas pensando bem, não seria tão interessante, então vou aceitar sua sugestão. — Os olhos verdes voltaram para seus aprendizes. — O Príncipe deveria ter a idade de vocês quando foi recrutado pelo exército de Lince. A guerra entrava em seu segundo ano. Poucas batalhas até então foram travadas, mas a baixa frequência foi compensada pela sanguinolência de cada disputa. Tanto o império quanto o reino empregaram manipuladores em suas fileiras, mudando para sempre o paradigma das guerras. Naquele ponto, a disputa se concentrava ao norte dos limites de Leon. Alvovale permanecia isolada como o último refúgio de Lince, e foi lá que ele apareceu. Brandindo duas espadas rúnicas, sua constituição não demonstrava ser um guerreiro nato, manejar duas lâminas para a batalha parece burrice na cabeça de um mestre das armas, mas para o Príncipe…

— Pera, para ai um momento — Dario interrompeu. — Você só o chama de Príncipe, por acaso não sabe o nome do maldito?

Balançando apenas o indicador, ela o respondeu:

— É um segredo guardado a sete chaves pelo reino vizinho. Os relatos disponíveis sobre os encontros com o “maldito” não batem. Alguns dizem que ele tinha o cabelo escuro, outros cinza, alguns até afirmam veemente que era careca e bigodudo. Muitos insistem que ele carregava um machado. Mas todos os desgraçados concordam em um ponto: por onde ele aparece, a tormenta o acompanha.

— Que história clichê e sem graça — Dario acrescentou mais uma vez. — Eu quero saber por que ele usa duas espadas, pois se não é para cortar com o dobro de velocidade, eu não sei para que tanto trabalho então.

— Senhor Zeppeli, você esqueceu o motivo de eu contar essa história.

— Ele era um conjurador-criador que carregava duas espadas rúnicas, cabeção. — Ronan acrescentou decepcionado pela falta de foco do amigo.

— Correto senhor espadachim, mas ele continua vivo, e pelo que parece, ainda faz vítimas por onde passa.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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