Ronan – Capítulo 1 – Magos e Guardiões



Os conjuradores da Ordem dos Magos eram as criaturas mais convencidas do mundo inteiro, ao menos para Frederico, que além de julgado pelos olhares pedantes dos mesmos malditos, era alvo também do sol do meio dia, irradiando um calor irritante, sem piedade alguma com a pele descoberta.

Apesar da quantidade excessiva de couro trajado, Frederico agradeceu por não vestir a couraça rúnica, pois sabia que ela se tornaria uma fornalha num clima desses, soube disso da pior maneira, como todo bom iniciante. Em suas mãos trazia o objetivo da missão matinal, as cartas que fora buscar para Eduardo Belmonte, o comandante dos Guardiões Rúnicos.

A Cidade Livre de Avska estava agitada como todas as quartas-feiras. Neutra perante conflitos das monarquias alheias, seus moradores enchiam as ruas, preocupados em enriquecer o patrimônio material e intelectual, da cidade e de si mesmos.

Frederico agora se preparava para tolerar as figuras ostentando os robes da Ordem dos Magos, mas para sua relativa felicidade, tais criaturas viviam enclausuradas atrás das muralhas da Fundação Arcana, muralhas que precisaria transpor para adentrar no vespeiro.

Seis Guardiões Rúnicos faziam a segurança da entrada. Eram seus colegas de ofício, infelizes enlatados nas armaduras rúnicas, ou como diria Frederico “as fornalhas móveis”. Quando adentrou, eles o cumprimentaram e foram retribuídos com um leve aceno da parte do jovem carteiro.

A estradinha de paralelepípedos cinzentos seguia reto, indo do portão de entrada até a Torre Central, um edifício circular com 30 metros de altura, erguido para satisfazer as necessidades das maiores autoridades da Ordem: o Arquimago Nicolau e o Conselho dos Grão-Mestres.

Rodeando a torre como um anel, vinha o Primeiro Distrito. Dos três ele era o menor, mas o mais próximo da torre. Nele você encontra as construções mais importantes da Fundação, como o Quartel-General dos Guardiões, o Arsenal, os aposentos dos Grão-Mestres, o Laboratório de Alquimia, a Biblioteca da Fundação, entre outros.

A quinhentos metros, circundando o primeiro, vinha o Segundo Distrito, também conhecido por: Anel Intermediário. Composto em sua maioria pelas moradias dos Mestres da Ordem, além de suntuosas estalagens, embaixadas, e instalações dedicadas ao entretenimento.

Conservando a mesma distância estava o Terceiro Distrito, o mais próximo da muralha da Fundação e o mais distante da Torre Central, nele residiam os muitos Sábios e inúmeros funcionários da Fundação. Era a camada que Frederico e os demais recrutas residiam.

Atravessando o anel mais próximo da torre, o rapaz seguiu vagaroso pela rua de paralelepípedos, sentindo em cada passo o peso dos olhares julgadores dos conjuradores nojentos. A maioria vestia o robe marrom escuro, indicando tratar-se de Sábios, título concedido àqueles julgados merecedores de ingressar na Ordem. Além deles, havia estudiosos de vestes cinza e brancas, respectivamente mestres e grão-mestres, mas estes últimos andavam com o olhar erguido, sem dar-se o trabalho de olhar quem vestisse uma tonalidade mais escura da sua.

Pouco antes de sair da rua principal para virar à perpendicular à direita, rumo ao Quartel-General, as feições de Frederico se contraíram em alegria ao ver quem se aproximava. No horizonte tomado pelos trajes dos crápulas da Ordem dos Magos, uma armadura prateada brilhava a luz do meio dia.

O recruta disparou ao encontro dele.

— Comandante Eduardo — saudou com um sorriso no rosto. — Trago as correspondências da manhã. — Puxou um envelope do bolo em sua mão. — O rapaz da prefeitura disse que este aqui é urgente, foi recebido durante a madrugada.

O comandante segurou o elmo com a mão esquerda, e com a direita, pegou o envelope, levou-o a boca, rasgou-o com os dentes e sacudiu o papel que se desdobrou de uma vez só. Os olhos de Eduardo percorreram as linhas escritas por uma caligrafia formidável.

Ele bufou, incapaz de ocultar a frustração transcrita na carta.

— Bom trabalho garoto, apresente-se ao superior da sua unidade.

— Sim comandante.

Pensando no que viria a seguir, Eduardo testemunhou o recruta sumir na imensidão de robes marrons e cinzas. Virou-se para o outro lado e vislumbrou a Torre Central, sabendo que precisava ir até lá visitar seu “colega”.

Dobrou o papel e guardou o envelope rasgado no bolso, para descartá-lo assim que possível, não pretendia ser penalizado por sujar o caminho, muito menos irritar os conjuradores que já não viam os Guardiões Rúnicos com bons olhos. Tal fato devia-se a natureza da ordem, caçar conjuradores renegados e outros que pusessem a imagem da Fundação Arcana em cheque.

O elmo em sua mão esquerda foi levado à cabeça. Com o auxílio da mão segurando a carta, Eduardo encaixou a proteção até seus olhos encontrarem a viseira, desgrenhando seu cabelo castanho avermelhado no processo. O aço fervente esquentou suas bochechas, fazendo-o se arrepender instantaneamente.

Desconfortável, mas decidido, Eduardo se pôs a caminhar rumo à Torre Central. Os 500 metros foram recheados de olhares tortos por parte dos Sábios e Mestres, intimidados por sua majestosa armadura, algo que proporcionava certo prazer ao comandante.

Estava de frente à Torre Central, um monumento colossal quando visto de tão perto. Dois dos melhores Guardiões faziam a guarda em frente ao portão. Ao avistarem o comandante, eles levaram a mão direita à runa da couraça talhada na forma de uma estrela de nove pontas cercada por um labirinto sulcado.

— Comandante — saudaram em uníssono, sem se curvarem, pois sabiam que Eduardo não era adepto das formalidades.

— À vontade — disse o comandante gesticulando com as mãos.

Com era quarta-feira, o portão permanecia aberto, proporcionando àqueles que espiassem de fora, a visão do salão arredondado onde uma figura em vermelho e outra em branco conversavam próximos da escadaria, atrapalhando o fluxo dos robes marrom e cinza que subiam ou desciam.

Eduardo adentrou apressando no salão, fazendo as placas da armadura tilintar a cada passo, alertando os dois que o espiaram de canto de olho e fingiram não o terem visto.

A conversa entre Arquimago e Grão-Mestre foi interrompida quando um tilintar metálico reverberou no salão circular do primeiro andar da torre. Fingindo ajeitar o robe avermelhado, Nicolau espiou de rabo de olho quem se aproximava, não poderia ser outro, aquele caminhar apressado pertencia ao comandante Eduardo.

— Ele parece apressado — constatou o Grão-Mestre.

— Trivial, meu caro amigo.

— Então me despeço, caro Arquimago, eu prefiro evitar o incômodo que se aproxima.

— Como quiser, Primeiro Grão-Mestre Mathias.

Aliviado, Nicolau contemplou o traje branco subir as escadas de mármore enquanto Eduardo caminhou até colocar-se em sua frente. Nenhuma palavra foi dita, o recém-chegado apenas estendeu a mão com um pedaço de papel amassado, aguardando para ser lido.

Ao menos o comandante ia direto ao ponto, não se perdia com as formalidades e títulos dos que trabalhavam na fundação, algo que Nicolau muito admirava. O líder da Ordem dos Magos pegou o papel, mas não o leu, ainda.

— Veja o remetente — ordenou Eduardo.

Nicolau contemplou o selo Imperial de Leon. Intrigado quanto ao conteúdo ele deu inicio a leitura. Seus olhos correram as linhas da carta. Quando terminou, não disse nada, pois gostava de testar a paciência do cavaleiro à sua frente.

— Nicolau , eles utilizavam conjuração de sangue!

— Sim, e sobre o solo do império ainda por cima, graças a isso o único sobrevivente foi detido ao violar o Primeiro Decreto, aquela maldita lei outorgada pelo maldito Alexandre sem qualquer consentimento nosso.

— Mas então… o que esse Marcos fazia lá em primeiro lugar?

— Pesquisas para conseguir o título de Mestre — respondeu, como se algo tão simples anulasse qualquer atrito entre a Ordem dos Magos e o Império.

— Desde quando isso justifica usar uma conjuração proibida?

— Não era proibida, não para ele. Eu concedi permissão para usá-la, desde que não prejudicasse ninguém, é claro.

— Mas por que ele precisava dessa permissão? Você deveria saber que ele seria preso assim que o Imperador soubesse de suas atividades.

— A permissão foi uma aposta que eu fiz para desvendarmos os mistérios de uma conjuração que ninguém alcançou ainda. E sim, eu sabia que isso poderia acontecer, mas foi uma aposta. Uma aposta que perdi. Mas ainda podemos remediar com diplomacia. — O Arquimago finalmente adotou um tom preocupado na voz.

Eduardo permanecia curioso, a Ordem dos Guardiões Rúnicos costumava ir de encontro aos usuários de conjuração proibida, afinal, foi criada para isso.

— E agora? — perguntou o comandante.

— Nós iremos convidar todos os reinos do continente para discutir sobre tudo que vem me incomodando, e claro: tentar absolver o meu protegido, afinal eu estou aqui para isso — concluiu em tom diplomático.

 

Império de Leon, Palácio Bravo-Leão, mais de uma semana depois.

— Há quanto tempo senhor Leonhart, seja muito bem-vindo — disse a castelã do Palácio Bravo-Leão, a morada do imperador.

— É bom estar de volta. O Alexandre se encontra?

A castelã estranhou a falta de formalidade.

— Está sim. Se eu não estiver enganada ele se encontra em seus aposentos.

— Muito obrigado.

O aristocrata convidou-se a entrar, afrouxou as amarras da capa negra com o leão bordado e guardou-a no cabideiro.

— Não ficarei muito tempo, pois logo partirei de volta à capital. Então nem se incomode em preparar algo para mim.

— Como quiser senhor Leonhart — A castelã havia recordado que ele era quase um irmão do Imperador, sua falta de formalidade estava mais que justificada.

Magnus despediu-se com um aceno e dirigiu para as escadas do palácio. Pelo que recordava, os aposentos imperiais ficavam no terceiro andar, na terceira porta do segundo corredor à esquerda.

No salão principal, duas fileira de guardas bem trajados e armados embelezavam o ambiente como estátuas de guerreiros lendários eternizados em pedra, mas munidos de alabardas reais, afiadas e prontas para estocar invasores em potencial. Entre as fileiras um tapete vermelho o levaria até as escadarias. Nada além dos olhos dos soldados se mexeram durante seu caminhar. Estava impressionado com a disciplina daqueles rapazes, precisava lembrar de parabenizar Alexandre pelo bom trabalho.

Dois lances de escada separavam cada andar, totalizando seis lances de seis degraus a serem vencidos. Cada passo tremulou seu longo cabelo, fazendo os fios roçarem em seus ombros delgados. Magnus praguejou no meio da subida, amaldiçoou-se por estar fora de forma e por depender tanto da manipulação em seu dia a dia.

Mas enfim alcançou o terceiro andar, Magnus trazia em mãos o motivo da visita: a carta com a resposta do Arquimago Nicolau, endereçada ao imperador de Leon.

Tapetes vermelhos também decoravam os alvos corredores do terceiro andar. Rondas de quatro guardas iam e vinham, dois portavam alabardas enquanto os outros tinham suas espadas presas à cintura, devidamente embainhadas.

— Bom dia senhor Magnus — cumprimentou o capitão de uma das patrulhas, era um dos espadachins.

— Bom dia. Continuem com o bom trabalho.

— Mas é claro. — Os quatro curvaram-se muito educados, mas logo se levantaram para não atrasarem a ronda.

Magnus seguiu reto até alcançar o segundo corredor à esquerda, virou-se e continuou até ficar de frente a terceira e última porta. Com três batidas singelas o aristocrata anunciou sua chegada. Um baixo “entre” foi discernido vindo de dentro do cômodo.

A mão enluvada envolveu a maçaneta, puxou-a para baixo e empurrou-a para frente, abrindo a porta sem ranger. Para Magnus a sala parecia menor do que recordava. À direita estava Alexandre com as mãos sobre o acabamento da janela retangular aberta. Ele parecia absorto em seus problemas.

— Pensando em pular? Eu não recomendaria, as folhagens do jardim são fofas demais. Você poderia sobreviver.

Alexandre abotoou a gola do gibão branco sobreposto pela curta capa vermelha. quando acabou, virou-se para o recém-chegado.

— Virou piadista de uma semana para outra? Não combina nem um pouco com você, Magnus Leonhart.

— Concordo plenamente, mas devo elogiar aquelas estátuas vivas decorando o salão principal.

Alexandre estacou confuso com o comentário, o ele queria dizer? Perguntou-se, mas quando se deu conta da ironia, levou uma das mãos à face e deixou um breve riso constrangido escapar. Então tirou a mão do rosto e da janela e caminhou até o meio do cômodo, onde estava a mesa esculpida em mogno, mas antes de sentar, ofereceu uma das cadeiras em sua frente para o amigo ocupar.

Após ajeitar-se na almofada do assento, Magnus lhe entregou a carta.

Ele a tomou em mãos e deu inicio a leitura.

Seu conteúdo era previsível, ela buscava justificar os atos de um praticante da conjuração proibida através de uma permissão vinda da mais alta autoridade da Ordem dos Magos. Mas para Alexandre, tal permissão não anulava as disposições do Primeiro Decreto, pois eram absolutas, incontornáveis perante a soberania do império. Com isso em mente expôs a justificativa ao amigo, que concordou na medida em que recitava cada palavra.

Mais ainda remanescia um assunto pendente, Magnus a perguntou, curioso quanto à resposta a ser proferida pelo amigo.

— E sobre a reunião com os demais monarcas, já decidiu se vai aceitar?

— Nós aceitaremos, é claro. Não perderia a chance de dar minha resposta ao Arquimago e aos inúteis do conselho, pessoalmente.


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Autor: Raphael Fiamoncini | Revisora: Marina



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